Pejota Moraes
Aug 31, 2018 · 3 min read

QUERO ALGUÉM PARA ME COMER

Foi-se o tempo que sexualidade era tabu. O assunto está na boca de todos. Nos libertamos do pensamento católico que nos carregava de culpa na simples menção da palavra sexo. Hoje nossas atitudes refletem a flexibilidade dessa libertação e permitimos nos relacionar e fazer sexo com quantas pessoas quisermos. Mas apesar de sermos da era “namorar pelado”, prezamos pela reputação.

Vale o que pensam de nós… Muitos se arriscam em aventuras em nome de uma adrenalina que põe em jogo o que vão falar de suas atitudes. A velha mania de se importar em seguir uma ridícula norma social. E viva o sexo, a concretização do desejo!

Mas não quero falar de nada disso. O comer do título do texto está no sentido antropofágico da palavra. Digo comer no sentido de absorver algo do outro para constituir o quê você é. Digo comer, de trocar ideias, mostrar a sua visão de mundo para as pessoas e tentar captar algo de bom na visão do mundo das pessoas também! A liberação sexual é um fato, ainda que hipócritamente velado. A questão está exatamente no uso que fazemos deste “direito adquirido”.

Não vou fazer aqui a linha católica e dizer que você vai para o inferno por ter mais que um parceiro sexual. Muito menos vou botar medo na sua pessoa, enfatizando os perigos de uma vida promiscua que remetem à gravidez fora de hora e inúmeras DST’s. Não vou dizer nada, até porque não vai adiantar.

O fato é que sobra gente que se doa, se entrega e se permite em nome do sexo.

E falta gente que agregue muito mais de que um bom orgasmo para você. Aquilo de ficar horas e horas conversando, aquilo de comparar preferências, aquilo de conhecer as visões políticas de quem se ama ou a ausência delas. Certa vez, ao ser questionada sobre estar se relacionando com um rapaz mais jovem, Ana Maria Braga disse em uma entrevista que não conseguiria viver sem sentir “borboletas no estômago”. Foi a coisa mais inteligente que eu já a ouvi dizer.

Os momentos em que permitimos conhecer as pessoas geram ansiedade e esta incrível sensação de “borboletas no estômago”. Por favor, não confunda isso com excitação sexual. Sei que é difícil tudo não passar de sexo, até porque ele é muito bom. Mas infelizmente vivemos em função dele. O sexo prega o eu. O meu desejo. A minha satisfação. Você é consequência do meu prazer. É assim, pode notar!

Melhor do que a satisfação sexual é a satisfação de se surpreender ao descobrir que aprendeu algo novo com alguém. Ou então perceber que a soma de opiniões formou uma opinião em comum. Por isso coma as pessoas. Não só as que você se relaciona intimamente, mas todas as que passam pela sua vida. Sejam boas ou ruins, as pessoas sempre tem algo a se aproveitar. Sempre existe um pedacinho digerível. O que não prestar do que você comer você digere e já sabe o destino, né?

Além de tudo isso, permita-se ser comido. Deixe as pessoas conhecerem você. Às vezes é através delas que nós nos conhecemos e descobrimos o melhor de que temos a oferecer.

Coma e se deixe comer!

Não é difícil encontrar sabor, difícil é encontrar algo consistente, que te alimente. Por isso coma! Coma, até encontrá-lo.

Obs: Comer pessoas não substitui três refeições diárias e o bom e velho papai-mamãe depois do programa do Jô, fica a dica.

Pejota Moraes, Maio abstinente de 2016.

    Pejota Moraes

    Written by

    Roteirista, escritor, gestor, radialista, paulistano e trouxa de vez em quando.