
SÓ SEI QUE FOI SEM QUERER, QUERENDO
A série Chaves escreveu seu capitulo na história da televisão brasileira. Não bastasse ter sido utilizada em vários momentos como coringa na guerra de audiência, o humorístico mexicano que completou quarenta anos em 2013 é constantemente revitalizado por campanhas de marketing da emissora que o exibe. São chamadas especiais, episódios tirados do fundo do baú e os ditos “inéditos” que mais se aproximam de pilotos daqueles que já conhecemos.
Mas o quê a história do menino de rua que mora dentro de um barril em um cortiço tem a ver com filosofia? Como todo bom autor, Roberto Bolaños, criador e roteirista da série, fundamentou o pobre menino o pautando numa corrente filosófica surgida há mais de trezentos anos antes de cristo. Os cínicos, como eram chamados os filósofos desta corrente, moravam em barris, assim como a personagem principal do seriado.
Diógenes de Sínope, o mais importante dos cínicos pregava que a verdadeira riqueza consiste em ser livre das convenções sociais, tornando-se independente do desejo pelo luxo e pelo poder, se contentando com o mínimo possível para sobreviver, aceitando o seu estado natural. Além de morar no barril, os únicos bens de Diógenes eram alguns trapos sujos que usava para se vestir e um cajado com um pedaço de pano na ponta, que usava para carregar um pedaço de pão (semelhante à trouxa utilizada por Chaves).
Ainda que implicitamente, há muito mais dos cínicos na personagem. De todos da série, Chaves é o único completamente puro de coração e por que não dizer, o mais feliz. Apesar dos conflitos com Quico e Chiquinha, o perdão e o desapego pela matéria (brinquedos/sanduíches de presunto) é recorrente. Mesmo as situações de agressão são brevemente perdoadas. Outro ponto marcante na personalidade da personagem é o dom de repartir. Chaves é o que menos tem e o que mais reparte o pouco que tem. O seu único inimigo real é a fome.
Outra abordagem bem delineada pelo autor é a questão social ilustrada. Chaves não mora em um bairro nobre, muito pelo contrário, ele mora em um cortiço com gente humilde e outros níveis de pobreza humana, talvez mais graves que a dele:
- O solteirão desempregado que faz biscates e aplica singelos golpes para sustentar a filha, que por sua vez, segue seu exemplo na malandragem (Seu Madruga e Chiquinha).
- A senhora de meia idade que ao longo da vida não constituiu família e até por isso tem uma boa condição de vida, pois a sua única despesa é para si própria (Dona Clotilde).
- A viúva falida que vive para ostentar o filho e uma posição social que não possui para se sobressair aos vizinhos (qualquer semelhança com a atual situação da sociedade brasileira é uma infeliz coincidência). Uma mulher amarga que recorre à violência para extravasar a sua real situação (Dona Florinda e Quico).
- E o cobrador de aluguel linha dura, que representa uma elite utópica, capaz de perdoar uma divida de catorze meses de aluguel (Seu Barriga).
Além disso tudo, o seriado ainda levantava questões politicas em relação ao país daquela época. Se você é do time que assiste o seriado, com certeza já deve ter visto episódios em que as personagens atribuem a culpa de algo aos “energéticos”. Pois então, houve uma tradução ao pé da letra que por aqui não tem muito sentido, mas no México referencia algo relacionado à inflação, que castigou aquele país nos início dos anos 80.
Não tem jeito. Chaves é o tipo de seriado que não tem meio termo: Ou você ama ou odeia, mas mesmo que você não goste tem que dar a mão à palmatória de que é um produto audiovisual que através da comédia reforça a certificação de valores como pouco se vê em produtos nacionais e é isso que o torna genial. Você pode me dizer que isso ocorre por se tratar de um programa antigo, mas se é assim, qual o porquê desse sucesso até hoje?
Ainda com o extremismo social pregado pelos cínicos (e que historicamente foi melhor empregado posteriormente por Santo Agostinho) implícito no texto, Chaves nos apresenta um escala de “importâncias verdadeiras” que deixamos de enxergar no nosso cotidiano.
Pejota, numa manhã de domingo desperdiçada, em janeiro de 2013.
