sem nome
tenho a sensação de ser seu horário de verão. me amanheci uma hora adiantada na sua vida, você perdeu o sono, desregulou o relógio biológico e agora troca estações; hoje mesmo fiz sol até as 20 horas, você, no entanto, desde as 18 esperava escurecer o dia. talvez a confusão tenha sido tanta que te trocaram até as estações, no meu mundo primavera, no seu inverna rigorosamente. e olha, por mais que eu também faça frio, minhas manhãs esquentam por mais tempo enquanto suas folhas apenas pingam constantemente. tem dias de sol em ti também, mas te trocou os sentidos, por isso. outro dia terminei o filme, você chegou pra sentar na poltrona. eu paguei a conta, você escolheu onde comer. eu fui embora, você entrou no metrô. desci em santa cecília, você ainda marechal deodoro. eu te escrevi 3 cartas, você aprendendo a ler. eu te escrevi 3 cartas, você aprendendo a ler. eu te escrevi 3 cartas, você aprendendo a ler.
“…eu te disse que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exata. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse. Disseste de repente que precisavas ter os pés na terra, porque se começasses a voar como eu, todas as coisas estariam perdidas. A droga corria em meus adentros abrindo sete portas, entorpecendo o corpo e fazendo cintilar a mancha escura no centro da minha testa. Mas eu te ouvia dizer que sabias ser necessário optar entre mim e ela, e que optarias por ela, por comodidade, para não te mexeres daquele canto um pouco escuro e um pouco estreito, mas teu — e que optarias por ficar comigo porque a minha loucura te encantaria e te distrairia, embora precisasses te agitar e negar e ouvir e sobretudo compreender novamente tudo todos os dias. E disseste que optavas por mim. Eu já sabia. Por isso não te disse que comigo seria mais difícil do que com ela. Porque sabias também que em todos os de repentes eu estaria abrindo as asas sobre um desconhecido talvez intangível para ti. Não dissemos, mas concordamos no silêncio cheio de livros e jornais entre nossas duas camas, que querias a salvação e eu a perdição…”
