Fake News: uma questão de fé

23 de Outubro de 2018

Já aprendemos que todo enunciado, isto é, toda tentativa de exposição de uma verdade, nunca será capaz de dar conta da complexidade absoluta da verdade, de todas as suas dimensões, contradições, sombras, nuances. Todo enunciado é fruto de uma escolha, de uma construção, de um modo particular de conceber a verdade, de um olhar político e subjetivo. Esta ideia, já suficientemente provada, duvida da distância intransponível e do pensamento dualista que separam a mentira e a verdade pois que, entre uma true e uma fake new existe um enorme espectro de matizes que vão da mentira absoluta à verdade ideal, ambas abstrações. Portanto, é preciso superar a ideia de que estivemos, até hoje, divididos entre notícias verdadeiras no passado e falsas hoje, quando, na verdade, estivemos expostos a uma série de “notícias” que, passando-se por verdades, minaram a democracia desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu em 2012 e as fake news são, neste contexto, apenas a cereja do bolo.

A afirmação de que todo enunciado é uma escolha e a crítica das instâncias de representação, não é o mesmo que dizer que a verdade não exista, ou que seja simplesmente uma questão de crença. Apenas significa que, para se acessar a Verdade de um fenômeno, em sua complexidade, faz-se necessário, a todo enunciado, o expor da sua parcialidade, o ponto de vista sobre o fenômeno observado. Em uma perspectiva fenomenológica, faz-se necessário assumir o seu corpo como participante do fenômeno, sem medo de que isso signifique uma limitação do enunciado. Este foi o perigo, aliás, do projeto do racionalismo idealista da modernidade iluminista e burguesa: o julgar-se como corpo que estava separado do objeto de sua análise, arrogando a si a possibilidade de encontrar a Verdade distanciada, absoluta, ideal, em toda a sua apreensão.

Portanto, o esforço de apreensão da Verdade deve ser sempre constante e coletivo. Constante, porque considera a efemeridade e inconstância tanto dos sujeitos que analisam, quanto das formas de apresentação da verdade e das tecnologias para a sua captação. Coletivo, porque uma única perspectiva jamais poderá dar conta de um fenômeno: eu serei sempre limitado por meu lugar de fala, isto é, por minha nascença masculina, por minha branquitude, por minha classe média, por minha profissão de artista-professor, por minha sexualidade homodesejante, etc. Esta limitação é, contudo, a minha potência, porque minha singularidade, sem pares.

Na contramão disso tudo, imparcialidade, neutralidade e isenção são as palavras que os jornais da Grande Mídia usam para tentar caracterizar uma posição impossível: aquela de quem se vê além da sua classe, além da sua raça, além do seu gênero, pairando distanciado sobre um mundo no qual não participa. Mas ao longo de vários anos de governo PT, esse discurso de um jornalismo imparcial foi apregoado aos quatro ventos, um jornalismo que mostraria os fatos, a verdade, em oposição ao jornalismo de esquerda, de viés ideológico. O que se tentava provar é que de um lado há ideologia e do outro não, como se existisse alguma verdade que não seja inspirada pelo conjunto de ideais que a fundamenta. No terreno educacional, esse fantasma pesa hoje mais do que nunca: contra a ideologia de esquerda, querem que se ensine o currículo “como ele é”, sem opções de um viés ou outro, como se os professores e as disciplinas fossem apolíticos, a-históricos, a-sociais.

Mas, obviamente, esta mídia que apoiava o discurso anti-ideologia, estava ela mesma construindo a sua própria ideologia através da destruição da imagem do PT, baseando-se nas fontes mais movediças, como delações e pistas falsas, e não foram poucas as capas de revistas que mostravam os líderes do PT como seres das trevas, medusas, donos de uma máfia criminosa como nunca antes se viu no país, como se o nosso país não tivesse sido fruto de uma grande invasão e extermínio dos verdadeiros donos desta terra. Uma mídia aliada, como sempre, ao patronato na luta de classes. Neste processo, quando ainda não se falava em fake news, pessoas foram presas sem provas e outras, com as provas mais cabais, continuam soltas e sendo eleitas.

É no mínimo patético que parte desta mídia que, àquele tempo, baseou-se em informações questionáveis para fazer a caveira do PT, hoje se diga assombrada com as fake news, tentando controlar o monstro que ela mesma criou. Porque se Bolsonaro encarna o antipetismo e ganha com isso tantos votos, à revelia de seus discursos nazistas, é porque não há tanta diferença entre as fake news que hoje o elevam ao poder e as true ones da “mídia-oficial”, “anti-ideológica”, que por anos destruíram a imagem do PT. Ou melhor, se há alguma diferença, ela é antes de grau, um matiz distinto de mentira, mas baseada no mesmo princípio anti-ideológico, de uma suposta isenção na apresentação dos fatos. As fake news são, portanto, o ápice de um processo de anos de antipetismo midiático que sempre se apresentou como true new, mas cujo estatuto da verdade não era nunca questionado, a não ser por uma esquerda que tentava, sem ser ouvida, mostrar que por trás daquele discurso haviam interesses ideológicos ferrenhos, disfarçados de imparcialidade.

Quando, então, as ferramentas tecnológicas para manipular vídeos e imagens, gravar outros discursos dublando os discursos reais, são mais “democratizadas” (democratização ainda falsa, porque branca, masculina…), como a dos instrumentos avançados de montagem cinematográfica, que permitem por exemplo mostrar cenas do holocausto matando judeus seguidas de imagens de Lula criticando Israel (um estado judeu), e fazer então a associação entre Hitler e Lula, onde fica o estatuto da verdade? Porque não é mentira que Hitler matou judeus e que Lula criticou o estado de Israel, mas todo abismo histórico e social que separam as ações de Hitler e Lula parecem pequenos diante de uma montagem que os coloca, na sequência, em um vídeo compartilhado via whatsapp.

Ora, as ferramentas de manipulação de imagem que hoje permitem às fake news escrever “Jesus é Travesti” na camiseta de Manuela D’Ávila são as mesmas que permitiram à Revista Veja colocar Lula em vestes de presidiário, muito antes de existirem quaisquer provas contra ele. Confira e compare essas imagens aqui:

https://jornalggn.com.br/noticia/abril-e-processada-por-edicao-de-veja-com-lula-vestido-de-presidiario

A Grande Mídia de massa, ao manipular a verdade ao seu bel-prazer, desobrigando-se de qualquer autocrítica, desobrigando-se de mostrar que o seu ponto de vista sempre foi ideológico ao apresentá-lo como fato, contribuiu para a criação de um clima de instabilidade quanto ao estatuto da verdade, sob a capa da “liberdade de expressão”. E visto que era tão fácil colocar Lula atrás das grades muito antes dele de fato estar, porque não também criar outras tantas verdades como esta, afim de manipular o resultado de uma eleição?

Alguns depoimentos (em textos das redes sociais) que tenho lido, trazem o relato de seus autores na tentativa de racionalizar o diálogo com eleitores da ditadura militar bolsonarista. Eles falham na empreitada quase sempre, e alegam que “não há argumentos que os demova”, porque “eles votam em Bolsonaro simplesmente porque creem nele, não importa o que se diga”. Observe-se o nó: de um lado, aparentemente, estão os argumentos racionais baseados nos fatos, e de outro, uma espécie de fanatismo religioso-político, que acredita no que quer acreditar. Um fanatismo que, ao mesmo tempo que diz não ter político de estimação, batizou o seu pet preferido de Mito.

Mas quais são as fontes da Verdade para tais argumentos racionais? Os jornais, ou os de “esquerda”, aos quais obviamente um eleitor do Bolsonaro nunca deu nenhuma credibilidade, ou os de “direita”, os quais nós mesmos, a esquerda, por tantos anos, mostramos o quanto eram mentirosos, falhos, porque frutos de uma mídia burguesa, monopólio de apenas cinco famílias, cujos interesses em se manter no poder ligavam-na a uma pequena elite falaciosa. E eis que nós nos vemos tendo que utilizar Globo, Veja, Estadão, Folha, Isto é, Exame e tantas outras fontes, que outrora chamávamos de golpistas apontando-lhes as contradições, para hoje tentar demover alguém que foi sistematicamente educado (por nós mesmos) a não acreditar nelas.

O que parece restar, num mundo em que toda fonte é desconfiável, é a crença fanática. Se nada é verdade e eu posso desconfiar de tudo, eu vou crer no que eu quiser crer. Porque a oposição ao racionalismo idealista, que tenta provar a Verdade absoluta por a + b, sempre foi o obscurantismo da fé, hoje representado majoritariamente pela ética neopentecostal. A nuance da verdade, o pensamento complexo, dialético, contraditório, plural, que supera dicotomias e dualismos, nunca foi atingido, e não poderia mesmo… ele só se atinge com educação e pensamento crítico, o mesmo a que Bolsonaro se opõe tão ferreamente.

Um dos erros graves do PT, é sabido, foi o de subestimar a força da educação e da cultura na constituição de uma Nação livre e autônoma. De um lado, o erro da não regulação da mídia, que não se confunde com a censura prévia das ditaduras de esquerda ou de direita, mas significa a punição severa à produção de imagens, textos e vídeos com acusações falsas, bem como a democratização dos meios de produção das informações, a exemplo do que fazem os EUA, Inglaterra e Argentina [1]. De outro, o erro de não ter criado condições para a transformação na educação de base, tendo priorizado a educação superior profissionalizante. Se não podemos controlar as imagens e vídeos falsos que nos aparecem, seja na revista da banca ou nas redes sociais, a educação de base pode, pelo menos, fornecer ferramentas para que as pessoas critiquem o que veem, desconfiem das imagens e das palavras que aparecem à sua frente.

E não é uma contradição que grande parte dos eleitores da ditadura militar bolsonarista seja graduada e pós-graduada: ou pertencem à elite, a única com interesses de que ele vença as eleições, ou se identificam com ela, mas cuja formação universitária foi acrítica, de todo profissionalizante, baseada na ética meritocrática de que é através do esforço que se chega lá. Se fosse assim, feirantes e professores seríamos milionários. Mas os milionários são, ao contrário, ou herdeiros, ou bem-casados, ou produzidos pela indústria da fama (do futebol ou do showbusiness) ou simplesmente exploradores capitalistas… nunca trabalhadores.

Por fim, o que me parece urgente pensarmos sobre as tais fake news é a quem pertence o monopólio da produção e difusão das informações. Tanto nos casos das notícias confusas que minaram o PT durante anos, sob a aparência de verdades, quanto das atuais fake news, observa-se uma constante que é a incidência do poder econômico na vida democrática de forma explícita, de modo a impedir transformações sociais reais. Não há, portanto, separação entre aquelas true news e estas fake ones, mas continuidade e aumento de intensidade para fins específicos. E quando a Verdade é movediça, para aquele que não sabe fazer análise histórica e política, à direita ou à esquerda, ela se torna uma questão de fé.

[1] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141128_midia_paises_lab