O menino é despedida

Me pergunto onde foi parar minha camiseta roxa, aquela que tomou banho de chuva comigo no verão de 97. Ou seria 98? Minha infância dos anos 90 tem ficado cada dia mais nos anos 90. Parece que só naquela época eu era capaz de curtir a chuva — lá eu sei. Toda a água tocando o chão era suja, mas ninguém ligava. Com os amigos de Itaquera, garrafa pet na mão, pulávamos a linha do trem, enlameavámos os tênis de luz, empurrávamos uns aos outros nas poças. Renilson sempre caía primeiro, e com estrondo. Eu em 97 não sabia o que era asma, mas Renilson sabia, e sua mãe também, e nós respeitávamos a decisão dele de ser surrado quando chegasse em casa, sem ar. Renilson tinha mais pneumonias que a gente, mas parecia invencível ao cair de barriga nas poças da favela. Gabriel e eu sentíamos inveja muda, calada principalmente pela servidão que ele tinha por nós, aquela que então chamo: servidão de. De “sou grandão, mesmo com onze anos, vou bater em quem mexer com a gente” ou coisa parecida. Quando se é criança qualquer perigo é a própria morte, então era boa a proteção dele.

Gabriel, meu primo de consideração, coletava água da chuva segurando a garrafa de plástico com as mãos estendidas para o céu cinza. Como chovia, meu deus. E a chuva favorecia Gabriel, sempre tão bom em engarrafar gotas. Miúdo, se esgueirava nos lugares mais impossíveis durante o esconde-esconde, você quase não o via atrás da roda das motos ou atrás dos sacos de lixo. “Gabriel, tem uma barata nas suas costas!”, e ríamos até alguém levar e dar uns socos. Mas eu não batia, nunca bati. Era garotinho de apartamento, sou filho único; tive menos ralados no joelho do que gosto de lembrar. Ia para lá nas férias e falava babaquices — meio nerd, fui eu quem contara a Gabriel sobre a água da chuva ser a mais limpa e potável de todas. Não sei se saí como mentiroso dessa história, porque a água que ele coletava tinha uma coloração marrom. Estaria a garrafa suja de coca-cola?

O Renilson pulou nas nossas costas, a gente caiu na água e a garrafa de Gabriel voou. Ensopados, começamos a maior guerra de água que minha infância já inventou. Eu lembro do sorriso esperto do meu primo, da risada fanha e sem som do Renílson, lembro até da sola do meu tênis fazendo um barulho engraçado ao pisar.

Quando Saulo passou do outro lado da rua, caixa de papelão aberta sobre a cabeça, corremos para dizer oi. Das coisas importantes, alguém nunca ter dito “fique longe do Saulo” figura entre outras no topo. A gente se espelhava nele, com suas namoradinhas, seu Super Nintendo; Saulo nunca desmerecia os pequenos só por serem pequenos. Foi preso por assalto a mão armada alguns anos depois e nunca mais nos vimos. Naquela tarde, porém, Saulo nos salvou; exerceu o fundamental papel de mentor: “vocês não viram o rato morto ali?”, eu levei um susto. Que desafio nós garotos enfrentávamos, tão cedo — o de ousar tocar no que era imundo.


“Ele tinha mãos tão pequenas”, repeti, e fui corrigido por mim mesmo: “ele tem mãos pequenas”. Qual era mesmo o nome dele, do menino limpando os engradados de cerveja; esse mesmo, uns doze anos, é, o das mãos pequenas. “Qual era?”. Meu rosto, riscado por uma lágrima quente, enrubesceu antes que eu entrasse no banho. “A partir de hoje você não terá noites tranquilas”.

“…tem vários lugares bonitos aqui no morro”, disse Canela, companheira de trabalho, “daqui de cima você vê a comunidade toda, vem”. Canela tinha esse nome pois era seu apelido de capoeira — suas canelas finas voavam no ar. Me conhecia há dois meses e já sabia das coisas que acho bonitas; quanta sensibilidade. Eu queria que as pessoas me sacassem na leitura de mim do mesmo jeito que ela fez. Nu, deixando a água quente bater na nuca como lembrete da própria existência, desejei imensamente ser reconhecido após me lerem a primeira linha, por vingança deste mundo maldito, mal dito, repleto de mal entendidos e mal entendido por obrigação.

Doze anos haviam se passado desde o rato morto na poça d’água. Homem feito, agora eu subia as escadas intermináveis de uma favela em Diadema, trabalhando em criar vínculos com o que alguém chamou “crianças em situações de risco” — de onde vem esta impressão constante de galgar caminho até o céu?

“…aqui é tipo a base do tráfico, então a gente circula junto, eu e você, até todo mundo conhecer sua cara… Ali! Menino!”

Em pé na calçada, rodeado por engradados pretos, estava o menino das mãos pequenas. “Oi, Canela”, disse ele, sem levantar o rosto, as mãos embrulhadas em flanelas e enfiadas no engradado. “E aí, fi? Tá trabalhando, é?”, “aham, o tio me falou que dá cinco reais se eu lavar tudo isso aqui”. Canela teve o cuidado de pousar a mão no meu braço, como se soubesse do meu impulso de falar com o dono do boteco. Ao invés disso, olhei para cima e a favela me encarou, imponente. As casas sem reboque, as lajes perigosas, os garotos empinando pipa, matando aula e se perdendo no labirinto de becos que chamam de vida, sabe? “Já to cheio dos calos na mão, Canela, olha só”, e eu aqui neste chuveiro quente, todo conforto; meio desespero, fechei o registro. “Cadê?”, “aqui, olha”. Eu também olhei — não para o menino, mas para a camiseta dele. Roxa.

Como quero alguém que me reconheça, meu Deus. E se o significado das coisas se perderem quando explicadas, à medida que são escritas? Nunca contei a ninguém que reencontrei minha camiseta roxa, aquela que perdi em 97 ou 98, em um menino de mãos pequenas, não até agora. E, no momento que o faço, me sinto idiota; é como se tudo fosse por água abaixo, seguindo o curso de um esgoto onde nem eu e nem você ousamos pisar. O menino das mãos pequenas levantou o rosto e me fitou, desconfiado. “Esse é o Rafa”, anunciou Canela, “toca na mão dele, pô”.

A mão do menino se perdeu na minha e eu não sei bem onde foi parar minha vontade de existir. Quando lembro deste dia, me engano: após o cumprimento, caiu chuva limpa e nós três brincamos nas poças enquanto os engradados se lavavam sozinhos e ele recusou o dinheiro do dono do bar e eu paguei refrigerante para nós três. A gente se sentou na calçada e riu pelo resto da tarde, enquanto a chuva rareava aos poucos, formando abertura entre as nuvens do firmamento, formando poças no chão, espelhos d’água que refletiam o mundo irrefletido. O sol iluminou a todos e eu nunca mais saí de lá, eu não estou em minha cama, eu estou lá, com eles, até hoje, até agora.

Mas o que ocorreu, porém, foi: “E você, como se chama?”. Ele soltou a mão da minha, passou a outra na camiseta roxa, olhou para baixo.

“Eu me chamo: Menino”.