“Sutil, igual batida de trem.”

O trem está quente da respiração constante dos milhares de corpos que o ocupa dia após dia. O contraste com a neve pálida e fria do lado de fora chega a impressionar. Os olhos que a observam, marcados pela insônia constante, vagueiam pelos trilhos conforme se aproximam da seguinte estação. Ao dirigir-se ao extremo do vagão, suas pernas, ainda dormentes pelo tempo em inércia, ameaçam ceder, mas os passos se mantém constantes. Da entrada era possível observar o delicioso caos que tantos formavam ao correr atrás de seus próximos destinos, sem enxergar o tempo que se dissipava em cada curva e todo cartaz de sinalização. O corrimão ao lado da porta imitava o frio que recebia, onde mãos ferventes encontraram apoio para sustentar tão surpreendente visão. Ele vestia moletom de lã branca, contrastando com pele escura e olhar desafiador. No meio da multidão parecia apenas mais um anônimo, um homem a escutar sua própria trilha sonora, chapéu de frio e luvas, porém, ao se dirigir a ela com olhos negros, o mundo convergia em apenas dois seres. O tempo congelou por apenas um instante, e no outro a porta, antes aberta, que os comunicava tornou a se obstruir sem aviso prévio. O calor voltou a tocar sua pele e sua face tingiu-se de cor. Seus olhos não se separaram, se afastaram, até se perderem na distância, tornando a vaguear por trilhos desertos enquanto o trem os conduzia à seguinte estação.