Eu tenho um hábito de olhar sempre para cima. A cidade nos domina pelo alto, por cima, como se nos engolisse. A cidade cresce – na vertical. A cidade cresce – e tudo o que é antigo vai-se embora, e mesmo assim alguns têm a sorte de permanecer. Eu tenho o hábito de olhar sempre para cima, porque é sempre lá de onde vem as coisas mais belas que de baixo não se vê. Tropeço diversas vezes, desatento ao que me vem pela frente. Não há problema, porque estou a ver coisas que ninguém vê porque ninguém se importa. E o que ninguém vê, torna-se único, torna-se MEU, o meu único e imprescindível universo. Sou uma caixinha de lembranças e visões e fotografias – memorizadas – dos lugares pelas quais passei, pelas ruas que andei, pelos detalhes de que vi e vivi. Percebi, então, que não vale tanto a pena palavrear minhas memórias. É inútil – às vezes não – ninguém vai perceber. Ninguém consegue perceber e sentir exatamente o que senti(!). Não há problema, às vezes vale a pena tentar…

Fotografia e texto – Pedro Magalhães