Ruiva

Eu tocava violão, queria mostrar-te o quão hábil era. Queria impressioná-la. Você foi chegando de perto, de mansinho, devagarinho. Terminei. Olhaste-me, calaste, vislumbraste. E beijaste-me. No teu quarto escuro o que nos iluminava era a luz do candeeiro e a lua pela janela. Eu mordi a tua pele, eu beijei a tua boca, eu me mergulhei em ti como nunca antes. Eu senti o teu gosto, eu senti teus arrepios e tremeste. Arranhaste-me. E eu soube, e eu tremi. Eu te queria mais e mais, eu parecia um animal com fome, com sede de ti. E ali nos amamos. Fomos pra sala e a gente dançou. Eu dancei, eu brinquei. Eu dancei na corda bamba, tu abusaste do meu coração. O teu cheiro era tão forte, minhas mãos imploravam para se prenderem em teus cabelos encaracolados: fazendo-te extensão de mim. Eu precisava ir-me embora e imploraste: fica. Tive tanto receio de não ter-te mais. Observei-te, minuciosamente, sorriso doce de menina, dentinho separado feito coelhinho. Inocência de criança, corpo de mulher. E eu te amei. Eu precisava ir-me embora, e tu imploraste: fica mais um pouco, por Deus. E jantamos, e rimos. E rimos do meu sotaque. E sentamos no sofá. E tocamo-nos na alma. Eu não queria ir-me embora nunca mais. Tive que ir, tive que me desvencilhar de ti. Adeus. Tenho que ir. Vemo-nos depois. E disseste: desculpa, mas não olhe para trás. Senti-me traído. Fui usado! Narcisista, aquela mulher! Tive raiva, tive ódio, tive choro. Mas ela foi tão dócil. Transformei-me, conformei-me, aceitei. E parte de mim ficou. A lembrança para sempre ficou. Com isso: todos os detalhes teus.