Falo diretamente do Inferno.
Gritos dilacerantes, seres rastejantes, cheiro de enxofre e ar fumacento. Este pode ser o cenário imaginário que temos do inferno. Aquele que a literatura ou a bíblia nos coloca. Mas o meu inferno é real. O inferno que vive na minha mente.
Nunca sei como vou acordar.
Nunca sei se vou acordar.
Cada dia é uma sensação diferente.
Cada dia é uma batalha.
Decidi andar sozinha pelos caminhos tortuosos onde a nuvem negra e carregada acompanha-me em qualquer milímetro percorrido. Sei que é uma imprudência de minha parte tal atitude, porém é como vejo. Devo perambular solitária pelos vales e picos e desvendar os mistérios que carrego diariamente na minha imaginação.
Hoje, por exemplo.
Noite mal dormida. Sensações de morte a cada minuto da madrugada. Coração disparado, boca seca, dores pulsantes na cabeça e um medo horrível do nada.
Isso vem acontecendo há um tempo. Só que nos últimos dias as proporções de todo o que sinto tem-se agravado.
Por alguns dias pensei que não dormir seria a solução. Por isso, passei três noites em claro. Não fechei os olhos em hipótese alguma. Entre músicas e livros, as madrugadas em claro foram elucidativas. Entendi o que se passava em minha mente.
E não, não é a primeira vez que passo por isso.
Pela segunda vez caminho por entre os mortos-vivos no mundo. Entre uma caneca de chá de camomila e a leitura de vários livros ao mesmo tempo, pensei que por um segundo, estar enlouquecendo.
Mas não. Nem de longe. Estou apenas passando por uma metamorfose. Essa mesma. Quase a mesma do Gregor Samsa, pesonagem do livro do Franz Kafka.
Por um tempo, pensei apenas ser um período de solidão. Como sempre tive esses momentos, não me preocupei tanto. Mas o que me fez pensar que não era apenas um momento? É que essa metamorfose está durando quase 1 ano.
Não existem alternâncias.
Dias bons e dias ruins, entende. Os dias são sempre iguais.
O que achei ser o inferno, era na verdade o processo de metamorfose. Sabe quando você está com uma infecção e toda aquela secreção começa a sair? Então, estou expelindo minha mudança.
Velho hábitos, costumes, valores. Tudo está sendo expulso do meu corpo.
E as coisas boas que sempre achei que não faziam parte de mim, afloraram. Coisas boas que sempre duvidei que moravam em outras casas, passaram a frequentar minha sala de estar.
Um exemplo disso tudo? Sempre gostei de escrever.Sempre. Desde pequena tive inúmeros diários não terminados. Só que por algum motivo que ainda não entendi, nunca segui escrevendo sobre qualquer coisa.
Minhas prioridades mudaram. Antes, bastava um “mas todo mundo vai”. Hoje, o ‘não, obrigada. Hoje não tô muito afim de sair.” tem mais espaço. E sem culpa.
Sei que não sou a única que passa ou passará por fases como essa. Entendo perfeitamente que a transição é mais importante do que a chegada.
Entendi que no momento exato em que entrei de cabeça nessa metamorfose ambulante, era um caminho sem volta.
E ainda acho que me encontro no inferno. Mas não aquele que descrevi acima. Um inferno onde escuto meu coração e minha voz.
É ainda o primeiro post (e espero que seja o primeiro de muitos). Mas alguém já passou por isso também?
Texto publicado originalmente no blog Pequenos Fatos da Vida