E se alguém der pitaco, o dedo do meio tá aí para isso.

Eu era criança, talvez por volta de 10 anos de idade, não me lembro exatamente de muita coisa — e a idade é uma delas. Estava na casa dos meus tios junto com minha avó. Tios e primos que, diga-se de passagem, eu admirava exageradamente. Estávamos no banheiro, nos arrumando, afinal, iríamos para um evento. Minha tia escovava meu cabelo, e eu reclamei de dor (as puxadas de cabelo/cabeça nunca foram muito agradáveis para mim), foi quando minha tia me disse uma frase que me marcou por anos; “Se você quer ser bonita, vai ter que sentir dor. É assim mesmo.”. Na epóca eu pensei: “Será que todas mulheres tem que passar por isso? Por que se submetem a dor para simplesmente parecer bonita por algumas horas?” E claro, “Se for para sentir dor, prefiro ser feia!”. Mas como eu era pequena e bastante influenciável — ainda mais por aquelas pessoas -, apenas fiquei quieta pelo resto da sessão e por um tempo até acreditei naquela frase.

Minha família sempre adorou ir à praia nas férias. Tanto na casa de parentes que moram por lá, tanto na nossa própria que veio mais tarde. E por certo tempo, a casa andava sempre com visita. Todo mundo se juntava e ia para praia. Crianças, adultos, cervejas, refrigerantes, picolés, protetor-solares. Era divertido. Porém, eu, particularmente, nunca me senti completamente confortável em vestir apenas um biquíni na frente de tantas pessoas. Se eu não gosto de ficar apenas com duas peças de roupa pequenas na frente da minha família, vou gostar de ficar em frente a centenas de pessoas desconhecidas ou conhecidas? Então, para amenizar um pouco, eu usava um short. Entrava no mar de short e brincava do mesmo jeito. Mas aquilo incomadava os outros, por algum motivo que eu ainda não descobri. “Bruna, bota um biquíni logo!”; “Olha só, todo mundo de biquíni e só ela de short!”; “Sempre a diferente!”. Eu reclamava, mas na maior parte do tempo, ignorava. Até que uma amiga da família realmente conversou comigo sobre isso. Ela me explicou que se meu problema era a timidez, se eu achava que todo mundo ia me olhar, era pior usar um short no meio da praia; isso chamaria mais atenção. Eu entendi, e mesmo preferindo meu short, passei a vestir um biquíni como todo mundo. Anos depois, fui para praia com a família de novo, e esqueci o bendito biquíni. Achei uma parte de cima mas a outra não tinha, então usei um short daqueles de surfista. De novo alguém se incomodou. “É tão estranho ver a Bruna de short no meio da praia!”, expliquei o motivo para a pessoa, mas o que eu queria gritar era: Por que os homens podem usar bermudas que tapam até a metade da coxa e eu, por ser simplesmente mulher, tenho que usar uma calcinha que não tapa nem a metade da bunda?

Era inverno. E eu não tinha uma calça para vestir. Entrei em desespero. Tinha aula com prova no dia seguinte, não podia faltar. Então, fui com um short e tentei tapar ainda mais o meu corpo com uma meia-calça — o que não ajudou tanto, já que a parte da frente da meia-calça era toda rasgada. Se já andava com a cabeça baixa por medo de olhares no dia a dia, a coisa só piorou quando entrei na escola de short. Minha amigas mais próximas não foram no dia, então tive que ficar com algumas conhecidas que já não gostava muito e a recíproca era verdadeira. Tive que escutar “Tá com calor, hein!”, e “Acho que a tua meia-calça tá rasgada!”. O segundo comentário veio da vice-diretora da escola, aquilo me atingiu em cheio, porque veio depois de uma olhada de cima para baixo com cara de desgosto de alguém que deveria ser mais compreensível. E, mesmo já me sentindo estranha por todos aqueles olhares, levei para o lado inocente. Achei que ela estava falando de um corte que ficava um pouco acima do pé, mesmo ele sendo meio camuflado. No dia seguinte, minhas amigas falaram que talvez não fosse essa a intenção do comentário e fez mais sentido. Lembro que cheguei em casa chorando, me sentindo uma “puta”. Meu irmão me disse para parar de me importar com o que os outros pensam. Como se isso fosse algo fácil para mim. Os dias se passaram e aquele episódio ficou comigo, me fazendo evitar ir de short novamente para escola.

Esses e mais acontecimentos da minha vida me marcaram. Por muito tempo pensei que a errada era eu. Tentei apenas seguir a maré. Ser o que todos são. Sem questionar, sem reclamar. Mas, agora, depois de tantos conflitos internos e tantas conversas com pessoas diferentes e de lugares diferentes, não sinto mais vergonha ou dor ao lembrar de cada uma delas. Pelo contrário, me sinto mais forte. Me sinto no dever de ser fiél a mim mesma e mais ninguém. E se alguém der pitaco, o dedo do meio tá aí para isso. Quando vejo que estou indo longe demais, estou querendo me colocar no mesmo lugar que os outros, paro um pouco e me pergunto: Eu realmente quero isso? É por mim e para mim ou é para qualquer outra pessoa que não faz a miníma diferença na minha vida?. Admito que algumas coisas ainda faço pelos outros, para manter uma aparência. Não sou tão drástica a ponto de me mudar da noite para o dia. Mas não me martirizo por isso. Estou me aceitando e me descobrindo aos poucos. Dando um passo por dia. E não me arrependo de estar me libertando dessa jaula invísível e sólida que é imposta em cada um de nós desde o início de nossas vidas.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.