Perspectiva.

Estou caminhando no corredor da escola, em direção aos meus amigos que estão sentados em frente a nossa sala de aula. As pessoas me olham torto. Sussuram. Comentam em voz alta. Tentam chamar minha atenção. Eu apenas sigo meu caminho, sem abaixar a cabeça. Chego perto daquelas faces vistas por mim quase diariamente, recebo mais um comentário de desapravoção, dessa vez de alguém que considero mais do que deveria. Lembro, então, do motivo de tanto alvoroço: meu corpo estava coberto apenas por um sutiã e um short, e meus pés, descalços. Como pouquissímas outras vezes — tão poucas que sequer lembro de alguma imediatamente -, simplesmente dou de ombros e não olho novamente para verificar a onde teria ido tal adorada pessoa. Alguém em minha frente pergunta o porquê de eu estar vestida assim em local público e apenas digo “porque é confortável, eu gosto. É um corpo tão natural como qualquer outro, porém, meu corpo.”. Ainda surpreendido, talvez assustado ou algo mais, o garoto me chama de “louca”, muda o assunto e continuamos conversando normalmente. Não contenho qualquer sorriso que me bata à porta, apesar de todos olhares e caras feias. E como pouquissímas outras vezes — tão poucas que sequer lembro de alguma imediatamente -, me sinto confiante e feliz, dona de mim.

Estou no banheiro masculino da escola, sem lembrar como cheguei ali. Escuto vozes diversas me chamando. Algumas me pedem para respondê-las, outras comentando sobre o que acham ter acontecido. Sinto algo quente percorrer meu rosto deixando um rastro a cada passo e caindo em minha pele fria em seguida. Olho para baixo; estou apenas de sutiã. Reparando um pouco mais, constato que encontro-me quase nua. Observo os detalhes cruciais ao meu redor. Estou quase nua. Em um banheiro masculino. Na minha escola, Em público. Com pessoas, que nunca tiveram tal intimidade, me encarando. Tento tapar meu corpo com os braços, ignorando as pernas e pés à mostra, Alguém me chama pelo nome novamente. Completamente assustada, pergunto o que aconteceu. As palavras me atingem, mas as imagens que vieram sem qualquer aviso, atingem tão forte que quase sinto dor física. Um garoto me assediou, por pouco não abusou completamente e fisicamente de mim. Não parou ao escutar “não”, nem na primeira e nem em qualquer outra vez. Ele me tocou sem minha autorização. Tocou meu corpo como se fosse sua propriedade. Me trouxe ao banheiro pelo braço por achar que não haveria mais ninguém para presenciar e rasgou minhas roupas. Me debati e gritei o máximo que podia, até ser ouvida por outro rapaz que estava indo ao banheiro. Deveria tê-lo agradecido mas consegui apenas abraçar a mim mesma bloqueando lembranças do que acabara de acontecer. Volto a realidade atual e escuto frases que atingem meu estômago novamente, “ela pediu, isso é culpa dela. Quem mandou ela se vestir assim?”, “ela agiu como uma vadia e foi tratada como tal. Agora tá aí, chorando arrependida enquanto o garoto está rindo sabe-se lá onde”.

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