Notas sobre um mestrado em Jornalismo (e sobre Jornalismo)

Agora que concluí cerca de 33% do meu mestrado já posso fazer alguns comentários:

1. Na verdade eu não sabia — ou ignorava — que o cerne do Jornalismo no Ocidente é a defesa da democracia, tipo dar a real para os donos do poder, e que todo o ensino acadêmico na área gira em torno desta premissa. Não tenho problemas com isso A PRIORI, mas me espanta que uma (única) ideia da profissão, forjada no fim do século XIX, ainda esteja tão em voga, a ponto de ser basicamente o que me é ensinado no mestrado em que faço;

2. Explico: esta visão unitária ocupa mais espaço do que deveria na Universidade, em detrimento de todas as outras funções do Jornalismo que não estão, A PRIORI, relacionadas com a defesa de uma sociedade livre. Por exemplo: contar uma boa história através de um perfil; fazer companhia para um leitor solitário ou entediado; ser uma fonte de circulação de ideias; ser um guia com resenhas de filmes e discos e livros; reportar sobre um restaurante, uma viagem ou um loja de roupas;

3. Não é preciso fazer ginástica mental para entender como a resenha de um disco do Soundgarden não está defendendo o povo dos governos corruptos, mas também não é preciso muito para entender que, por apenas alguns reais, qualquer um pode ter acesso ao caderno de cultura de um jornal. No decorrer das suas dez páginas, o suplemento de cultura apresenta um cabedal de ideias para quem estiver interessado. NÃO COMPRO o argumento de que a cobertura de artes é elitista, de que os textos de artes plásticas ou teatro são “só para iniciados”, etc. Faço o argumento contrário: é só se esforçar um pouco para buscar as referências que o reporter/crítico dá no texto, digitar no Google (!) e aproveitar a informação que pode ser acessada de maneira fácil, ao invés de botar uma bigorna na área e considerar menos quem reporta sobre cultura.

4. A prova cabal de que a valoração salvar o mundo/cobrir arte ainda existe no Jornalismo foi a crucificação do jornalista que supostamente descobriu a identidade da Elena Ferrante, no fim do ano passado. Veículos respeitados DA GRINGA disseram que ele deveria ter gasto o seu tempo com jornalismo investigativo “sério”. As if. APENAS DEIXEM A PESSOA FAZER A SUA PAUTA e ir atrás de uma escritora que ninguém sabe quem é, porque já existe o The Intercept para nos defender, além de TODA UMA CULTURA jornalística que se ocupa disso, e o faz muito bem.

5. TODAVIA, um amigo me disse esses dias que provavelmente a melhor cobertura de cultura — ou de qualquer outro assunto — só pode ser feita em um sistema democrático, porque esta é a premissa para que a boa arte aconteça (mas não só na democracia, e Ai Wei Wei está aí para provar, e a MPB brasileira durante a ditadura, também). Fiquei PASMO com o argumento dele, e CONCORDEI NA HORA. Então, FORÇANDO UM POUCO A BARRA, podemos dizer que a cobertura de artes está posicionada, no fundo, a favor de um sistema democrático, embora ela não represente DIRETAMENTE os cidadãos.

6. Mudando de assunto: eu achava ridículo, desde a época da UFRGS, o amontoado de clichês que cercam a profissão, e que infelizmente são reforçados por metade dos meus professores do mestrado. Coisas como: jornalistas dormem pouco, se alimentam mal e trabalham igual cães; jornalistas têm uma vida “outsider, #lokona” e outras frases prontas. Tive a sorte de, na minha experiência profissional até agora, conviver com jornalistas que sim, sempre trabalharam muito, mas felizmente nunca fizeram disso sua bandeira de vida. E, por fim, não consigo imaginar profissão menos outsider do que a de jornalista — publicitário, talvez?

7. Queria concluir em tom de alegria. Em cinco meses fazendo reportagens para as cadeiras práticas, em texto e em áudio, me surpreendi positivamente com a receptividade das fontes que procurei. Apenas o assessor de imprensa de uma organização relacionada à eutanásia, tema de uma longa matéria que fiz, me tratou como “você é só um estudante” e negou um pedido de entrevista justamente por isso. Mas todos os outros com quem falei — funcionários com altos cargos em universidades, fotógrafos, artistas visuais, donos de galerias, praticantes de parkour, arquitetos, um urbanista da prefeitura de Groningen — foram incrivelmente receptivos, e me doaram seu tempo e seu conhecimento. É bastante generosidade. Esta é a grande riqueza da profissão. (Mas isso, infelizmente, nenhum professor fala.)

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