São Paulo, 6 de janeiro de 2016.

Outros olhos. E armadilhas

Rio. Em Janeiro. Eu sempre planejo tudo das minhas viagens, mas neste revéillon decidi que diria sim a todos os convites dos meus amigos e veria onde esta cidade linda e louca me levaria. Assim fui parar na fila da Fosfobox na madrugada de domingo, 2 de Janeiro, para segunda: um inferninho em Copacabana com uma pista underground que mais parecia uma caverna, paredes pretas e luz estrobo incessante, piso quadriculado à Embalos de Sábado à Noite e banheiros de azulejo vermelho rabiscados de caneta marcadora preta. No som, uma drag negra de dois metros de altura e cabelo com laços laterais, tipo os da Xuxa nos anos 80, tocava popices e hip hop pop para uma pista que estava lá para se jogar e se divertir sem carão nem conceito, ou seja, todos os elementos de uma boa noite estavam ali.

Sorri e fui ao banheiro. Em seguida, sentei brevemente nos bancos colados junto a uma das parede da pista enquanto esperava um amigo comprar cerveja no bar. No exato instante em que ele pagava, dois conhecidos se aproximaram dele e o cumprimentaram. Um minuto depois chegou o amigo dos conhecidos, um puta gato. Levantei e me aproximei de todos, com a intenção de ser apresentado para aquele homem lindo de camisa preta, calça jeans, sapato estilo Richards – tipo de quem vai para um iate -, mais baixo que eu, alguns poucos cabelos grisalhos e um discreto sorriso contido que teimava em se abrir de tempos em tempos. Na minha cabeça, How does it feel to feel?, do Ride, disco Carnival of light, minha trilha sonora de uma semana inesquecível no Rio, tocava repetidamente.

G., meu amigo, me apresentou para seus amigos, menos para o cara gato, porque afinal eles recém tinham dito oi. Contei para G. que queria aquele homem, exatamente aquele, e somente aquele, de toda a balada. G. fez a palavra circular, e então fui apresentado para H., o cara gato de preto. Conversamos gritando no ouvido um do outro; ele fez uma piada de tiozão na linha “aqui tem muito homem, né?”, ao que eu respondi ingenuamente que era uma balada gay, ao que ele re-respondeu que estava brincando. Por um segundo pensei que ele poderia ser hétero, levava jeito. Não senti clima de paquera. Ele era bem extrovertido, o que me assustava e me dava certa inveja. Como as pessoas conseguem interagir natural e impulsivamente com o mundo? H. foi para o meio da pista e eu fiquei onde estava, tentando entender tudo, levemente desnorteado, usando meu novo self criado em nove anos de análise para aceitar o meu desejo ao passo em que lido com ele.

Fui com G. para a pista, sorrindo e dançando e pensando na minha introversão no meio de tanta gente sorrindo e dançando. Eu vestia uma camisa quadriculada de linho, bermuda laranja e um par de sapatos azuis com estampa de flores. H. estava a passos de mim, sendo aberto com todos, bebendo, falando com um que eu achei que fosse paquera, sensualizando levemente com os romenos (sim, da Romênia; descobri na fila, ao entrar) ao seu redor, e eu desencanei. Ok, ele vai pegar alguém dessa roda e é isso. Ouvi a voz do meu analista: “Na vida, às vezes a gente ganha, às vezes a gente perde”. Senso comum, verdadeiro. Disse para G. para subirmos porque eu precisava respirar. Virei para H. e lancei um sorriso. Ele me olhou e sorriu de volta enquanto eu andava em direção a escada olhando para trás.

No piso de cima, esperando alguém sair da cabine para que então eu pudesse mijar os litros de água e cerveja que vinha consumindo desde às 20h, avistei H. subindo e parando atrás de mim. Ele não teria subido quatro lances de escada para ir justamente naquele banheiro, já que havia pelo menos uns dez mictórios lá embaixo.

Como era lindo.

Ele ajudou meu amigo a acender a luz do banheiro da direita, que por alguma razão era impossível de encontrar, e fez menção de me ajudar a achar o interruptor do da esquerda enquanto colocava a mão na minha cintura. Fechei a porta, acendi a luz, fiz xixi, dei descarga, abri a porta, apaguei a luz, lavei as mãos. Fui até à pista de dança deste mesmo andar superior, onde havia menos gente e era possível tomar um ar sem derreter. H. estava lá, dançando. Me aproximei dele, gato pra caralho, mas havia dois desconhecidos entre nós. Eles saíram em seguida e então ficamos muito próximos. Ele puxou conversa, já com o braço na minha cintura.

“Desde quando você está no Rio?”

“Cheguei na quarta.”

“E vocês estão juntos?” (Apontando para G.)

“Não, ele está em Santa Tereza e eu na Glória.”

A Glória, do lado da Lapa, com os travestis da Praça Paris e aquela mistura absurda de gente do bairro, negros descalços com cara de que vão te assaltar, turistas americanos muito louros e com a pele muito branca sem pêlos e casais formados justamente por estes dois tipos. O Rio, como não amar.

“Então vocês são amigos?”

“Sim, há anos.”

“Hum, bom saber que vocês não estão juntos. Bom mesmo saber disso.”

Esta última fala ele pronunciou já perigosamente perto de mim, com a bochecha roçando na minha enquanto falava no meu ouvido, e de novo a mão na cintura. Obviamente a gente se beijou, demorada e desesperadamente e com vontade, e apertamos o corpo um contra o do outro com força de homem. Estávamos em um canto da pista e isso era tudo o que existia. Eu o pressionei contra a parede, nos beijamos mais um tanto, paramos e seguramos as mãos, nos olhamos nos olhos com uma ternura incapaz de esconder a lascívia, passamos a mão no cabelo um do outro.

Há quantos meses eu não sentia esse desejo.

H. me olhou:

“Vocé é lindo, sabia?”

“Não, você é lindo.”

“Sou normal.”

“Não na minha escala.”

Ele não parava de me agarrar. Embora eu estivesse gostando e de pau duro, era impossível não sentir um desconforto por estarmos em público e sermos um casal que REALMENTE estava se pegando. Tendo a ser discreto e me perguntei se estávamos um grau acima ou se eu estava sendo pudico. Ondas de recato invadiam minha interminável sensação de prazer porque, se me fosse dada a chance de inventar um tipo físico para namorar, certamente seria como o dele. Eu perguntei que idade ele tinha, e ele:

“Que idade você me dá?”

“42?”

“Menos.”

“35.”

“Você é de 1983?”

“Sim.”

“Eu sou de 1982, mas sempre me dizem que eu pareço mais velho. Até determinado ponto tudo bem porque eu poso de experiente, mas não quero parecer com 50.”

“Deve ser porque você tem entradas e alguns cabelos grisalhos.”

Ele falava e me perguntava coisas. Fico fascinado por essas pessoas que vão. Qual era minha profissão, de onde eu vinha, há quanto tempo estava no Rio, até quando ficaria, onde morava em São Paulo. Me encaixou em uma breve narrativa mental – J., 32 anos, jornalista, de São Paulo, solteiro há sete meses.

“Estou colecionando informações sobre você. Coletando, quer dizer.”

Descemos. Lá a gente poderia se agarrar despercebidamente, me disse. Eu gostava de como ele pegava na minha mão e me levava pela pista, eu amava a sensação que isto me dava, a batida do som, as pessoas fervendo, a noite. A noite, onde habitei por vários anos. Descemos, subimos, descemos, subimos. Ele desprendia o segundo botão da minha camisa, botava a mão no meu peito e ia com os dedos até o mamilo dizendo que adorava mamilos. Em seguida, abotoava de volta, arrumava a gola, tomava um ar, olhava pra mim:

“Comporte-se”.

Ele me disse que foi casado por dez anos, também estava solteiro há sete meses, morou com o namorado em São Paulo, na Manoel da Nóbrega – a rua do meu restaurante japonês preferido. Mudou para o Rio há três anos e o casal ficou na ponte aérea até que o ex foi transferido pela empresa para fora do Brasil, ele ficou e o casamento acabou. Isso me tocou profundamente porque H. narrou a vida que eu queria ter tido na cidade cinza mas não tive: a de casado. Fiquei imaginando como seria dormir e acordar com aqueles olhos levemente puxados e aquela pele macia todos os dias. Estava pronto para viver um amor no Leblon, enfrentar infinitas horas de ônibus porque o preço dos vôos está pela hora da morte, acordar e transar, tomar café da manhã no Cafeína e ir para a praia. Rio. Sonhei, imaginei, fantasiei. Delirei.

Porque algum dia vai ter que rolar, não é possível tanta solidão.

Por volta de 4h, H. pegou o celular do bolso, abriu o aplicativo de contatos e anotou meu telefone. Ele chamava H. I., nome composto incomum mas de gosto menos duvidoso do que seu avatar no WhatsApp, uma selfie dentro do carro. Sempre achei cafona gente que tira selfie dirigindo mas quando vi aquela fotinho achei apenas ❤️ porque era dele e porque era ele. Eram quase 4h30 e, se era para essa história ter uma continuação, eu precisava dormir.

“Me manda uma mensagem para eu saber que você chegou bem”, ele disse.

O motorista do táxi tinha 60 anos e corria pelas avenidas interminavelmente arborizadas do Flamengo ouvindo a previsão do tempo na rádio. Chegamos na frente do prédio, paguei e abri a porta. Entrei no elevador depois de dar boa noite para o porteiro, que dormia na cadeira de frente para o ventilador ligado no máximo em função do calor, peguei o celular do bolso e li:

“Chegou?”

Continuava achando tudo incrível e me sentia no céu. Quer dizer, no Rio. Talvez seja por isso que a galera pire com esta cidade: sempre tem alguém aberto para você. Acreditei que a noitada se estenderia para o dia porque o que vem depois da noite é o dia e porque algum dia vai ter que rolar, não é possível tanta solidão. H. já havia feito planos para nós. O que do Rio você não conhece?, então vamos tentar ir no MAR, amanhã é segunda, não sei se os museus abrem mas a gente descobre. Até quando você fica mesmo?, vamos viver esta semana. Dia 11 é meu aniversário, tome nota.

Fui para o quarto, escovei os dentes, tirei a roupa e deitei. Apaguei a luz às 5h30.

Acordei sobressaltado às 11h, meu coração palpitava violentamente e eu precisava comer para a insulina não me consumir. Detesto o efeito deste remédio. Eu sempre desperto destruído, num estado de ansiedade absurdo, quando vou dormir tarde depois de uma balada. Me sentia parcialmente nervoso, muito animado com meu futuro amor carioca e com muita fome. Lavei o rosto, coloquei as lentes de contato, vesti uma camiseta e uma bermuda e fui para a cozinha. Tomei café da manhã conversando com o dono do apartamento onde eu estava hospedado, V., um querido, que havia chegado na noite anterior. O leite morno, os carboidratos do sanduíche integral de queijo e presunto e o nosso papo me acalmaram.

Saí da cozinha e voltei para o quarto. 14h22. Mandei um oi para H. no WhatsApp e fui escovar os dentes enquanto esperava a resposta. Aqueles minutos intermináveis em que eu acho que levarei um silêncio, que não vão me responder, que serei excluído e odiado para todo o sempre, mesmo que a realidade em geral me prove o contrário. Seguiu-se uma troca de mensagens em que H. flertava, me chamando de lindo e dizendo que havia visto meu amigo G. no shopping Leblon e que isso o fez lembrar-se de mim. Ok, maybe we have a chance here. Eu disse que bom, como está o resto do seu dia?, quer encontrar mais tarde?.

Crickets.

Crickets.

Meia hora depois ele responde que precisa mandar uns e-mails de trabalho e que é para a gente se falar novamente mais tarde para combinarmos. Take your time, eu disse, vou no cinema com um amigo. Ali eu senti que não ia rolar. Por que responder com mensagens insinuantes se você já sabe que não vai rolar é algo que não compreendo. Tem gente que banca, tem gente que não banca.

Vi o novo filme do Tarantino quase dormindo na poltrona de tanto sono. Voltei, jantei uma pizza com V.. 23h e nada de mensagem de H., como eu supunha.

***

“As coisas não precisam de você, quem disse que eu tinha que precisar”, cantava Marina Lima nos fones de ouvido no ônibus que me trazia de volta para São Paulo dois dias mais tarde. Os inocentes do Leblon não sabem de você. O Hotel Marina, quando se acende, não é por nós dois.

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