Mafia III é a prova de que diversidade cabe dentro de QUALQUER história

Se um game de máfia pode ter um personagem negro como protagonista, acabaram-se as desculpas para Hollywood e afins

Por Eduardo Pereira

Você não precisa de mais do que uma olhada no título de Mafia III para sacar que, bom, trata-se de um game sobre máfia. Se você jogou seus dois antecessores, então, é bem provável que você até tenha uma ideia pré-concebida de como isso deve se refletir no produto final: vem aí mais um game altamente cinemático sobre aquela velha história do ítalo-americano tentando se dar bem na ~terra da liberdade.

Só que, mesmo antes de seu lançamento, já é possível afirmar que Mafia III é um game único, justamente por subverter os clichés desse ~gênero. Colocando um protagonista negro em uma trama de máfia, tradicionalmente ligada a brancos, o game mostra como diversidade e representatividade podem ser incorporados com inteligência e consciência em QUALQUER história. E ainda dá um tapa na cara de Hollywood e afins quando tanto se discute sobre os problemas da indústria de entretenimento norte-americana em representar a diversidade do mundo.

No game, você assume o papel de Lincoln Clay, veterano da Guerra do Vietnã que acaba de retornar à sua cidade natal, New Bourdeaux (uma versão estilizada e mais BARRA PESASA de Nova Orleans). Abandonado pela mãe ainda criança, nunca tendo conhecido seu pai, Clay foi criado pela chamada Máfia Negra (Black Mob), e volta a trabalhar com ela após seu retorno, fazendo serviços para a Cosa Nostra tradicional, #MadeInItaly e tal. O ano é 1968 e, olha, os negócios vão bem à beça.

Só que, como é de se esperar, tudo DÁ RUIM quando a italianada resolve dar cabo da Máfia Negra inteira, mete uma bala na cabeça de Clay e incendeia o QG da ~família. O cara é resgatado por um padre, sobrevive, e decide então dar início a um elaborado plano não só de vingança, como de retaliação contra a Máfia Italiana. Pretexto, claro, para ele usar sua experiência de guerra em muitas execuções sanguinolentas, mas também na formação da sua própria máfia. Ainda que meio amadora e disfuncional.

Existem três possíveis respostas do público a essa trama AND ao fato de que um game de máfia será protagonizado por um personagem negro. Inclusive, todas, sem exceção, podem ser observadas nos comentários do Story Trailer do jogo, lançado este mês no Youtube, pela 2K Games.

A primeira se resume à total empolgação com as possibilidades inéditas que a escolha traz ao game, uma vez que repetir a história do italiano se dando bem na AmériczZzZzZzZz, né? :D

A segunda consiste naquela até compreensível dúvida quanto ao EMBASAMENTO histórico da ideia. A Máfia Italiana não era, historicamente, extremamente racista? Não era um negócio familiar exclusivo dos italianos? Era possível que negros trabalhassem para eles? Não tá meio forçação de barra esse enredo?

Já a terceira, que espero eu, não seja a sua (afinal, você não é babaca, né? :D), se resume à pura revoltinha racista com a parada, que tenta se escorar na segunda reação e numa suposta vontade de jogar um jogo igual aos anteriores, para reclamar.

Essa nem merece nossa atenção, né?

A segunda, por outro lado, serve para mostrar como o trampo que os criadores da 2K tiveram para pensar e construir essa história foi BRILHANTE.

Se você já assistiu a O Gângster, excelente filme protagonizado por Denzel Washington e Russel Crowe sobre a vida do megatraficante de drogas estadunidense Frank Lucas, homem negro que conseguiu, nos anos 60 e 70, fazer mais dinheiro que boa parte das famosas Cinco Famílias italianas que comandavam o crime organizado dos EUA, você já tem o suficiente para entender que a história de Mafia III não foi tirada do bolso.

DELÍCIA de filme

Foi justamente na década de 60, período em que se ambienta o game, que o crime organizado negro cresceu exponencialmente no país, quebrando as barreiras que antes os confinavam em bairros nova-iorquinos como o Bronx e o Harlem. Com o crescimento da conscientização cultural, social, política e econômica dos afro-americanos, graças à luta por direitos civis encabeçadas por lendas como Rosa Parks e Martin Luther King Jr., as gangues compostas por negros passaram a não precisar mais da segurança providenciada pelas Cinco Famílias, podendo OUSAR mais em seus ~negócios.

Menos elitizados e fechados que a Máfia e agora mais independentes, os negros tornaram-se mais capazes de negociar com outras organizações criminosas do que os próprios italianos. Nesse contexto, e com o BOOM das drogas fortalecido pela Guerra do Vietnã e o consumo desenfreado dos soldados gringos — que alimentou um notório crescimento do mercado estadunidense do crime — deu-se a ascensão de Lucas e outros CHEFÕES DO CRIME negros.

Foi nesse período, também — mais precisamente, em meados de 1969 — que se teve o primeiro registro da chamada Máfia Negra (Black MAFIA, com certeza inspiração para a Black Mob do game), na Filadélfia. Mas isso é papo pra outra hora.

O lance aqui é que, esforçando-se para vasculhar a história do crime organizado nos EUA e optando por não embarcar pelo caminho fácil em mais um game sobre máfia, a 2K Games dá uma lição de como incorporar diversidade e representatividade de forma inteligente e bem trabalhada em qualquer história: com vontade, esforço e criatividade. Além disso, retratar um momento tão socialmente importante para os negros nos EUA enriquece e muito a história, realmente te inserindo em uma realidade crível e palpável.

Mais do que isso, Máfia III propõe que você construa sua própria família ao lado de três tenentes: um homem italiano, outro irlandês e uma mulher negra, não só expandindo ainda mais a diversidade da série e do game, como também trabalhando uma temática histórica muito rica e pertinente às discussões sobre crime organizado: a liquidez das relações criminosas.

É como se o game estivesse construindo a ponte entre a Era de Ouro dos mafiosos italianos, retratada com enorme sucesso em seus antecessores, e o mundo pós-moderno do crime que vivemos hoje, em que barreiras étnicas raramente definem a composição de grupos criminosos.

“Como um escritor, eu não queria voltar a esse universo e contar a mesma história de ‘do lixo ao luxo, ou de um cara trabalhando para chegar do fundo do poço ao topo”, disse o roteirista Bill Harmas em entrevista ao Gamespot. “A gente tá tentando encontrar uma pegada diferente, uma abordagem diferente para isso, que é onde eu acho que ter [Lincoln] sendo um tipo diferente de gângster se encaixa”.

Máfia III é um game de época que consegue, de forma simples e precisa, ser um verdadeiro FUTURISTA. Esse mérito, ele já tem. Mas será que…

A parada vai ser boa de jogar?!

Afirmar isso antes de sentir o game na mão é absolutamente IMPOSSÍVEL. Mas, conhecendo a tradição da série em entregar bons jogos e avaliando tudo que foi liberado até o momento pela produtora desde o trailer de lançamento, dá pra admitir que ele é de se empolgar um tantão, vai? :D

Frequentemente comparada com GTA, a série Mafia é, tradicionalmente, um shooter em terceira pessoa de mundo (quase) aberto. Tendo sido bastante criticada por ter criado uma história curta em mundo fechado e com pouquíssimas (leia: quase nenhuma) missões secundárias em Mafia II, a 2K games resolveu mudar isso no novo game, apostando em um mundo completamente aberto, mais missões, e até incorporando elementos de stealth ao jogo.

“Essa foi uma das primeiras coisas que colocamos como objetivo: como fazer você sentir que está em um mundo aberto, que você pode interagir com, pode explorar, mas como fazer isso de uma forma que você sinta que está sempre fazendo progresso na história?”, disse Haden Blackman, diretor criativo do game, à IGN. “Então, tudo que fazemos está conectado à missão de Lincoln em derrubar a Máfia ou reconstruir seu próprio império criminoso”, completou.

Essa expansão do universo do game se dá também na forma de desbloqueáveis do jogo, que agora conta com armas brancas e diferentes tipos de execuções — algumas de orgulhar qualquer Kratos por aí, viu? — que podem ser adquiridas ao longo do seu progresso na história. Além disso, segundo a 2K Games, a narrativa do novo game será muito mais interativa, sendo moldada pelas suas escolhas e alianças feitas no jogo.

No que já era sensacional na série, então, Mafia III parece extrapolar em qualidade qualquer parâmetro estabelecido pelos seus antecessores. A versão do game para Nova Orleans parece, de fato, viva, com uma direção de arte absurdamente fantástica e uma inteligência artificial que promete transportar o jogador para os EUA dos anos 60, com batidas policiais constantes, hippies e manifestações anti-guerra te esperando a cada esquina virada. A trilha sonora licenciada, que promete sons de Hendrix a The Doors, só ajuda nessa vibe MÁQUINA DO TEMPO. :D

Vito Scaletta: Mafia II/Mafia III

Pra completar, há ainda mais uma promessa que deve pegar pelo coração os jogadores de longa data da série. Um dos tenentes de Lincoln será Vito Scaletta, protagonista de Mafia II e provavelmente o único que sabe o destino de Joe Barbaro, seu melhor amigo, após o desfecho do game.

Até o momento, o que se sabe sobre o papel de Vito no game não é muito. Ele estaria vivendo uma vida sem glamour fora do mundo do crime, trampando em um restaurante de frutos do mar na marina de New Bordeaux, depois de ter sido preso mais uma vez. Se o jogador optar, sua relação com Lincoln pode tornar-se mais e mais próxima, o que fornecerá recursos especiais de combate e direcionará o final do game para determinado ângulo.

Apostando em um visual impecável, fórmulas de gameplay que já deram certo em outros grandes títulos, e na maior marca da série: uma boa e envolvente história, recheada de bons personagens, Mafia III já é, oficialmente, meu game mais esperado para este ano. E um provável motivo pelo qual entrarei em falência tentando comprar um console da nova geração.

Ele chega às lojas no dia 7 de Outubro, para PlayStation 4, Xbox One e PC.

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