Seth Rogen, Superbad e como até CLÁSSICOS GENIAIS DO CINEMA são passíveis de crítica
Em entrevista ao Guardian, ator e roteirista criticou piadas “descaradamente homofóbicas” do filme, sua maior obra EVER
Por Eduardo Pereira

Para você, quais elementos-chave compõem um clássico do cinema: atores premiados? Uma trama bem elaborada? Reviravoltas inesperadas? Uma moral valiosa? Uma dose certa de humor? De drama? De romance? De suspense? Uma direção precisa? Um tema atual? Diálogos dinâmicos?
Se sua resposta for sim para todas essas opções, você pode estar pensando em algo como Cidadão Kane. Mas pode também ter em mente outro título de maiúscula relevância da sétima arte mundial: Superbad - É Hoje.
Lançado em 2007, o filme semiautobiográfico escrito por Seth Rogen e Evan Goldberg durante sua adolescência, em Vancouver, nos anos 90, é sujo, bobo e pra lá de politicamente INCORRETO, mas foca não só na tentativa de dois XÓVENES em transar antes da faculdade (tema originalíssimo que nunca vimos no cinema, né? :D), como também em um plano de fundo emocional mais profundo, que aborda a quebra de laços e o enfraquecimento de amizades inerente ao amadurecimento.
“O filme é incrivelmente obsceno, mas de uma forma fluente, confiante, onde o objetivo não são os palavrões, mas a cadência e ritmo e o profundo, triste anseio que eles representam”, escreveu, sobre o filme, o saudoso mestre da crítica estadunidense, Roger Ebert, para o Chicago Sun-Times. “As piadas pesadas marcam grandes pontos, mas é o duro reconhecimento da vergonha e humilhação adolescente que mais distingue Superbad”, escreveu Todd McCarthy, na Variety.
Só que, agora, mais de 10 anos depois do início da produção do longa, um dos co-roteiristas responsáveis pela parada, o próprio Rogen, resolveu rever, em entrevista ao Guardian, sua posição em relação a algumas escolhas narrativas. Em especial, aos diálogos do filme, muito elogiados na época de lançamento do longa por conta de sua verossimilhança e acidez.
“É engraçado olhar para alguns filmes que nós fizemos nos últimos 10 anos sob a lente de novas eras, novas consciências sociais. Com certeza há coisas em nossos filmes antigos — e até nos nossos mais recentes — que mesmo um ano depois você já está ‘é… talvez essa não fosse a melhor das ideias’”.
“Algumas piadas em Superbad são quase descaradamente homofóbicas, em certos momentos. Elas estão todas na voz de garotos do colegial, que realmente falam daquela forma, [mas] eu acho que seríamos bestas se não reconhecêssemos que também estávamos, até certo ponto, glamourizando aquele tipo de linguagem de muitas formas”.
Como você já deve ter sacado pela introdução do texto, eu sou um PUTA fã de Superbad. Sem dúvida, colocaria o filme em qualquer lista de melhores filmes da vida que fosse incumbido de fazer. Na época de lançamento, me lembro de assistir com amigos — e depois reassistir e reassistir e reassistir — e adorá-lo PRINCIPALMENTE pelo longa realmente retratar a realidade da adolescência. Dos palavrões vazios, das pressões sociais inerentemente sexistas, da idiotice que a gente só percebe anos depois.
Entretanto, assim como Rogen disse, é impossível assistir ao filme, hoje, sem problematizar diversos elementos da trama. Desde a ideia de embebedar garotas para transar com elas (EXTREMAMENTE ERRADO E POTENCIALMENTE CRIMINOSO) às constantes ofensas homofóbicas trocadas entre os protagonistas, certas coisas não encaixam mais para uma mente cuja existência deixou de se basear em auto-afirmação de um conceito patriarcal e machista de ~masculinidade~ e em metralhar palavrões simplesmente PORQUE SIM.

É claro que para FINS ARTÍSTICOS™ e representativos, esses artifícios foram empregados de forma genial. É impossível assistir a Superbad e não sentir-se mergulhando no dia-dia de um colegial. Mas uma vez que outras realidades, que não as dos homens adolescentes, brancos e héteros, costumam ser representadas na tela grande, isso acaba fazendo um desserviço às minorias, já tão marginalizadas pela indústria de entretenimento.
É por isso que o reconhecimento dessa questão vindo de um cara tão grande no humor Hollywoodiano da atualidade quanto Rogen — e, ainda por cima, por meio de uma autocrítica sobre um clássico seu do passado — é tão importante. Mostra que há resultado, sim, em lutar contra essas problemáticas, expondo elementos que não podem mais ser aceitos no humor, nem em qualquer outra forma de entretenimento. Fazer, de fato, a desconstrução ser ouvida em todo e qualquer lugar.
Além disso, é importante também por deixar claro que, independente do quão grande seja um verdadeiro CLÁSSICO DO CINEMA (risos), todo e qualquer filme, de toda e qualquer época, é passível de críticas e análises sobre seu conteúdo e mensagem. Claro, contando com aquela boa contextualização para que tudo faça sentido e não caiamos em, como gostaria de dizer Aécim do Pópó, ~leviandades.

Agora, combinemos que falar é uma coisa e fazer é outra. O negócio é sentar e ver como essas “novas consciências sociais” vão incidir sobre as futuras obras de Rogen, bem como a de seus vários colegas e colaboradores (James Franco, por exemplo, é hiper BFF do cara AND um grande ícone queer em Hollywood, na atualidade — o que já pode ajudar a entender esse seu novo ponto de vista).
O próximo filme de Rogen a chegar aos cinemas, Vizinhos 2, parece denotar esse amadurecimento. Ele contará com um subtexto feminista, questionando o sexismo do chamado Sistema Grego das fraternidades norte-americanas. Já o seguinte — o longa-metragem de animação Sausage Party, escrito por ele novamente ao lado de Goldberg — parece, ao menos em seu trailer, não recorrer a preconceitos (ok, rola uma estereotipizaçãozinha VISUAL aqui e ali) para sustentar suas piadas.
Terá Seth Rogen enfim descoberto QUAIS SÃO OS LIMITES DO HUMOR? :D
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