Versão feminina dos ‘Goonies’? UMA OVA!

Revolucionária nos quadrinhos e prometendo ser ainda mais nas telonas, ‘Lumberjanes’ vai virar filme e merece ter mérito próprio

Por Eduardo Pereira

Caça-Fantasmas, embora um dos melhores filmes do ano, dificilmente ganhará uma sequência. Mas se o cinema está perdendo uma franquia de heroínas fodonas que enfrentam perigos sobrenaturais (embora eu ainda tenha esperança em uma sequência *cruzando os dedos*), ele pode estar ganhando uma nova, ainda mais representativa e revolucionária saga.

Ela se chama Lumberjanes e, como tudo que tem bombado nas telonas atualmente, saiu dos quadrinhos. O título — que surgiu mini, em 2014, com previsão de término após oito edições, tornou-se uma das HQs de maior sucesso na história recente da indústria, com mais de 500 mil exemplares vendidos no mundo, e segue sendo publicada até hoje — foi criado por quatro mulheres e publicado pela BOOM! Comics. Ele conta as aventuras de um quinteto de minas que, num acampamento, desvendam perigosos mistérios que desafiam a razão e o credo humano.

Com essa premissa, não é difícil entender o sucesso das série. Lumberjanes aposta em um verdadeiro OCEANO AZUL da indústria de quadrinhos, com histórias divertidas, instigantes, cheias de ação e mistério que promovem, ao mesmo tempo, um tão raro protagonismo feminino autêntico, com boas personagens e relações críveis e bem construídas entre elas.

É uma história de amizade e apoio entre as minas, que não precisam de um protagonista masculino guiando suas vidas.

Só que a FODELEZA do título não termina aí. O quinteto protagonista é, por si só, um afrontamento a diversos padrões e a diversos problemas de representatividade que os quadrinhos e toda a indústria de entretenimento, no geral, têm.

Primeiro, temos Jo, uma fria e calculista garota transgênero (sim, cara. Uma PROTAGONISTA que é MINA E TRANS :D), super comprometida e com um talento nato para a resolução de problemas matemáticos.

Sua melhor amiga é April, que é dramática e adora trocadilhos. Precavida, sempre tomando notas dos acontecimentos que cercam o grupo, ela é, também e inesperadamente, a mina mais fisicamente forte do quinteto.

Mal confunde à primeira vista. Com um visual mais PUNK ROCK, agressivo, ela é, na real, a mina mais sensível. Sempre disposta a criar planos mirabolantes, ela raramente consegue concretizá-los, já que SEMPRE parece dar ruim. ¯\_(ツ)_/¯

Ela é, também, a crush da habilidosa arqueira Molly, que vive sempre acompanhada de um guaxinim de estimação, chamado Bubbles. Molly é insegura, constantemente achando que não ajuda, de fato, o grupo, mas é um componente valioso da equipe.

Fechando a galera, Ripley. A mais singela do grupo, é uma criançona cheia de energia, amante intensa dos animais (até dinossauros) e está sempre disposta a se arriscar pelo quinteto, sem o menor receio, frente aos maiores perigos.

Da esquerda à direita: Jo, April, Molly, Ripley e Mal

Essa equipe de personagens construídas com esmero, capaz de representar mulheres fora do espectro cisgênero e heteronormativo da sociedade, é ainda acompanhada de outras duas minas fodas: a monitora Jen, séria às vezes dura, mas também carinhosa e protetora, MANJADORA de botânica e astronomia; e a líder do acampamento, a tatuada e calma (ocasionalmente) marceneira e (um tanto quanto misteriosa) Rosie.

Mas mais do que personagens puramente panfletárias (o que a séria definitivamente não é), essas minas são representantes das mulheres do mundo real. Mulheres que podem, sim, ser trans ou cis. Que podem curtir matemática e ciências. Que podem ser tatuadas. Que podem ser destemidas. Que podem ser fortes. Que podem ser amigas. E que podem querer ser MAIS que amigas.

Agora, se eu fosse PROBLEMATIZAR alguma coisa na série, seria só a falta de minas negras no grupo principal. Poxa, de CINCO minas, nem UMA representando àquelas que mais são vítimas de preconceitos e ataques da sociedade? :/

De qualquer forma, esse é um problema que pode ser facilmente resolvido na TRANSPOSIÇÃO de Lumberjanes às telonas (duas palavras: WILLOW SMITH). Claro, há o risco de Hollywood conseguir acertar nisso e errar em outra coisa? Anular parte dos conceitos combativos da história, como, por exemplo, escalando uma mina cis para viver Jo? Ou colocando homens em papeis centrais às personagens, na trama? Ou até mesmo, errando em TUDO?

Sim.

Emily Carmichael, em Sundance

Mas a julgar pelo que noticiou o The Wrap, com a escolha da Fox pela cineasta indie Emily Carmichael pra tomar as rédeas desse projeto, diria que a parada começou muito, muito bem. Nada melhor que ver um estúdio bancando a visão de uma mulher na hora de contar uma história sobre mulheres, principalmente num mercado que ainda é uma verdadeira FESTA DA SALSICHA (pra se ter ideia, ela é a única mina na lista de diretores do estúdio no momento, até 2018).

Por isso tudo, já estou preparando minha pipoca, bloqueando comentários de Facebook da minha visão e pegando o guarda-chuva (essas duas porque VAI CHOVER CHORUME de omi ferido) e aguardando, ansiosamente, a estreia de Lumberjanes, ainda sem data.

Só não chamem essa porra de versão feminina de Goonies. Na boa. Sério. POR FAVOR. É versão cinematográfica de Lumberjanes. Pronto. Simples e direto. Uma história foda por si só, que não precisa de grupo de homens nenhum pra ser referência, como mulher NENHUMA precisa.

Aprendam com as Olimpíadas. ;)

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