13 Reasons Why ilumina problemas antigos

Katherine Langford e Clay Jesen protagonizam série baseada em obra de Jay Asher — Divulgação

A Netflix impressionou com o lançamento da sua mais nova produção, 13 Reasons Why, uma adaptação do best-seller homônimo de Jay Asher. A série estreou e não demorou para se tornar um sucesso, rapidamente virou objeto de debates nas redes sociais. Isso porque aborda temas delicados e difíceis para o entretenimento, como bullying, depressão e abuso sexual.

A série segue a história do adolescente Clay Jesen (Dylan Minette), que encontra uma caixa com 13 fitas cassetes na porta de casa. Nos áudios, Hannah Baker (Katherine Langford) lista uma sucessão de motivos que a levaram ao suicídio. No decorrer dos episódios, Hannah narra sua versão dos fatos e aponta aqueles que a prejudicaram na escola.

13 Reasons Why usa os episódios para desenvolver os personagens à medida que justifica suas ações ao longo da temporada. Ambientada numa escola de ensino médio, a narrativa vacila entre presente e passado, e se destaca por fugir do mistério bobo com cliffhangers desnecessários. A necessidade de assistir ao próximo “capítulo” é uma sensação constante, devido aos diálogos marcantes e ao clima de mistério construído durante a trama.

Em 1918, o poeta inglês John Keats definiu a adolescência como uma época em que a alma está fermentando. Quase dois séculos se passaram e pouca coisa mudou. A série consegue traduzir isso através dos seus personagens principais, sobretudo na pele de Hannah, que sofre abusos psicológicos constantes. Parece que finalmente uma produção conseguiu lançar luz sobre assuntos que pareciam esquecidos.

Série está disponível na Netflix — Beth Dubber / Divulgação

Numa dessas conversas de bar, um amigo psicólogo disse que a adolescência é um momento de criação de identidade e que é normal os jovens se organizarem em grupos que mais se alinham aos seus gostos. O problema é quando alguns punem aqueles que não se enquadram para demonstrar dominância. O bullying é muitas vezes um comportamento reforçado pela aceitação social que ele provoca.

A exclusão social é uma punição que traz consequências sobre as crenças que o sujeito desenvolve sobre si e o mundo, e pode levar ao pensamento de que ele não é digno de amor e estar vivo. Nesse caso, o suicídio é visto como a solução de problema mais eficaz para lidar com o sofrimento. A rejeição social ativa as mesmas áreas cerebrais envolvidas no reconhecimento da dor física, disse ele entre uma cerveja e outra.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o suicídio como uma epidemia mundial, responsável pela morte anual de 800 mil pessoas. A ocorrência de casos entre a jovens é considerada preocupante pela agência sanitária, que critica o silêncio como estratégia para tratar do assunto. Enquanto conversava com outra amiga, descobri que vivemos cercados desses casos.

“Muita gente trata depressão, autolesão e suicídio como uma besteira, diz que não pode trazer o assunto à tona por que incentiva. Eu já pensei na possibilidade. Não pela vontade de morrer, mas pelo desespero de finalmente fugir do sofrimento”, confessou ela.

A Netflix criou o site 13reasonswhy.info, que fornece uma lista de organizações de saúde que oferecem ajuda aqueles que consideram autolesão e suicídio uma “válvula de escape”. Já os fãs começaram uma campanha utilizando a hastag #NãoSejaUmPorque nas redes sociais, com frases de conscientização sobre comentários ofensivos.

O fato é que 13 Reasons Why acaba chamando atenção mais pelos temas abordados do que pela própria execução. Trata-se de uma boa produção, mas não encontramos ali um roteiro brilhante ou atuações geniais, com exceção de Kate Walsh no papel de Olivia Baker. A ex-Dr.ª Addsion, de Grey´s Anatomy, é realmente um ponto fora da curva e mostrou que tem talento para personagens mais densos e dramáticos. A trilha sonora também se destaca e traduz a atmosfera fatídica da trama com músicas do Joy Division e The Cure.


Publicado no Diário do Leste de 08/04/2017