A ressignificação do “faça você mesmo”

Whindersson Nunes acumula mais de 18 milhões de inscritos em seu canal no Youtube — Divulgação

“E aí, galera que assiste o meu canal, tudo bem com vocês? ” É dessa forma que Whindersson Nunes, youtuber com mais inscritos no Brasil, inicia seus vídeos. Ele precisou apenas de uma câmera, criatividade e persistência para alcançar a marcar dos 18 milhões de seguidores em seu canal no Youtube. O garoto não usa camisa, nem precisa de um set de filmagem para gravar seus vídeos, tudo acontece ali no seu quarto. Tão simples quanto parece. Esse é o retrato de uma mudança midiática, que transformou a maneira de produzir conteúdo.

Whindersson cresceu na cidade de Bom Jesus, Piauí, onde teve uma infância e adolescência pobre. Filho de Hidelbrando Batista e Valdenice Nunes, ele e seus três irmãos por pouco não seguiram o fluxo de dificuldades que passam muitas famílias nordestinas. No Brasil, durante muito tempo, não nos faltaram relatos de meninos carentes que conseguiram notoriedade através do futebol. Pelé, Ronaldo e Neymar estão aí para contar história. Hoje, a internet também consegue desempenhar esse papel.

O mundo virtual deu aos indivíduos um espaço mais democrático, onde pessoas como Whindersson encontraram uma maneira de se destacar. O piauiense faz parte de uma geração de jovens que começou a gerar valor por conta própria em diferentes veículos e plataformas. Temos gente escrevendo para blog, gravando podcast e filmando diariamente para sites de vídeos. Há produtos para todo tipo de gosto e pessoa. O ciberespaço é realmente um planeta cheio de oportunidades.

O piauiense é considero o segundo youtuber mais influente do mundo — Arquivo Pessoal

No começo dos anos 2000, quando tinha uns 10 anos, sentava com meu irmão na frente da televisão e esperava meu programa favorito começar. Naquela época tínhamos que aguardar com calma para desfrutar do pequeno prazer de assistir Castelo Rá-Tim-Bum, X-Men ou Power Rangers. Havia um padrão a ser seguido, os apresentadores e a grade de programação eram escolhidos a dedo. Crescemos precisando lidar com as opções que nos davam e “engolindo o que nos punham para comer”.

Durante minha adolescência, minha rotina era basicamente estudar, jogar vídeo game e assistir televisão. Os jovens não tinham como desfrutar de tecnologias convergentes: computadores eram artigos de luxo, celulares serviam para fazer ligação, música se escutava no rádio e filme se alugava na locadora. Não tínhamos como escolher que tipo de conteúdo, onde e quando queríamos consumir. Era tudo mais difícil, chato e caro. Os tempos eram outros e mudou de repente.

Hoje encontramos tudo na extensão dos nossos braços, na palma da mão, nas telas dos smartphones. Você provavelmente deve conhecer um moleque que raramente busca entretenimento em grandes emissoras, por que prefere assistir vídeos de Minecraft no Youtube. Pessoalmente, também quase não paro para ver televisão, confesso não ter mais paciência para ser escravo de horários demarcados. O tempo é corrido e quero tudo para agora. Esse é um sinal que os ventos mudaram naturalmente de direção.

Quando não estou escrevendo para essa coluna, gosto de passar o meu tempo lendo, ouvindo música e assistindo séries e filmes. Sou um consumidor voraz de produtos on-line e quase não consigo funcionar se não estiver conectado. Não tenho do que reclamar, todas as minhas necessidades são suprimas através de poucos cliques: se quero ler, faço download dos livros no Kindle; se desejo ouvir o novo álbum do Metallica, escuto-o no Spotify; se tenho vontade de assistir um filme, escolho um entre muitos no Netflix; se preciso rir, procuro os vídeos do Whindersson no Youtube.

Essa geração sabe que não padece de limites, tem consciência de que controla esses mecanismos e quem atua nele. Somos testemunhas de uma quebra de paradigma em pleno movimento. Meu irmão caçula, com apenas oito anos, tem a escolha de decidir o que serve ou não para ele. O Fantástico é perceber que consumimos praticamente o mesmo tipo de conteúdo, mas porque queremos e não porque nos obrigam. Por isso que temos exemplos de pessoas que deixam o ostracismo do dia para a noite, sem qualquer ajuda de mídias tradicionais.

Muita gente que conheço não faz a mínima ideia de que temos esse leque de opções, mas está cada vez mais raro encontrar jovens assim por aí. As estrelas pop de antigamente tiveram que abrir espaço para os talentos do ciberespaço. De acordo com a autora do livro “O Show do Eu”, Paula Sibilia, a combinação do velho slogan “faça você mesmo” com a nova sentença “mostre-se como for” pode perfeitamente traduzir o agora. É possível entender como garotos comuns, que jamais teriam espaço numa grande emissora, conseguem lotar aeroportos e casas de show pelo Brasil afora. Somos eu, você e todos nós que decidimos isso.


Publicado no Diário do Leste de 15/04/2017