Feliz dia das (saudades) mães

O dia se encaminha bem, com tudo dando certo, com risadas de acompanhamento, boas notícias de tempero e aquela sensação de alegria. O mês se completa e o saldo continua satisfatório, alguns tropeços apareceram no meio do caminho mas que servem pra crescer, e aquela sensação de alegria permanece. O próximo mês continua da mesma forma, e o seguinte também e assim a vida vai passando.

Pelo menos é isso que eu tento passar, é dessa forma que eu tenho conseguido criar forças e continuar, transparecendo e tentando transmitir pra mim mesmo uma mensagem positiva. Mas o que fica escondido bem lá no fundo é que em praticamente todos os fins dos dias/meses os pensamentos se enchem de tristeza, o coração se espreme de saudade e o travesseiro se encharca de lágrimas.

A sensação é que não importa o que aconteça, sempre vai faltar algo. Aquele quebra-cabeça gigante, que você passa horas montando, consegue chegar em 80% e descobre que não vai dar pra terminar porque as peças restantes sumiram em algum momento.

Um ano passou mas parece que foi ontem que ela se foi, os dias ainda continuam incompletos sem aquela ligação a noite pra contar tudo que aconteceu no dia, matar a saudade daquela voz e terminar a conversa com um "te amo mãe". Aquela vontade de contar sobre o trabalho novo, de perguntar sobre qual remédio tomar, como faz aquele arroz com cenoura gostoso que só ela sabe fazer, as broncas por não ta se alimentando direito. É inversamente proporcional: quanto mais simples as coisas, maior a saudade.

Dizem que com o tempo tudo ameniza e se resolve, mas parece que eu fui a exceção. Foi um ano, mas a dor que senti naquele momento no qual recebi a notícia continua a mesma, a saudade multiplica infinitas vezes e a ferida que ficou no coração sem o pedaço principal parece que nunca vai cicatrizar.

10 de maio de 2015, dia das mães, foi a nossa despedida, a última vez que pude ouvir aquela voz que sempre me trazia calma e tranquilidade. Ela tava se recuperando muito bem, e finalmente conseguiu fazer uma ligação pra mim. A felicidade que irradiou meu coração naquele momento não tem medidas, não tem descrição. Ela terminou a conversa com um "também te amo, lindo" e essa é a frase que vai ecoar pra sempre na minha memória. Cecília Meireles já disse que a memória povoa todas as distâncias da vida e que nela, como nos campos, podemos semear imagens capazes de ficar florindo.

Aquele foi o meu presente no meu último dia das mães, ela queria que eu guardasse dentro de uma caixinha aquela sensação de felicidade que só ela era capaz de trazer. E eu fico ainda mais feliz em saber que o meu ultimo presente foi um "te amo, mãe", o último presente que dei a ela foi o meu amor.

Agora maio não é mais o mês das mães.
O segundo domingo não é só o dia delas.
Agora tudo pertence a saudade.
Feliz dia das saudades.