A Sakaia e a inversão de valores

Semana que vem começa o Carnaval no Brasil! Conhecido por marcar o início do Ano Novo Brasileiro, o Carnaval é uma festa que tem sua origem ligada a diversos rituais e festividades pagãs e cristãs, e uma delas é a Sakaia (Saceias).

Na Babilônia, muito tempo antes do Cristianismo, havia uma festa chama de Saceias. Durante os cinco dias desse festival, os babilônios elegiam um novo rei, o Zoganês. Este novo rei geralmente era um escravo ou um criminoso condenado. Durante seu reinado, o Zoganês tomava o lugar do rei de fato e tinha direito a tudo que um rei tem: Podia beber à vontade, podia fazer sexo com as concubinas reais, tinha todos os seus pedidos atendidos, por mais extravagantes que fossem.

Os babilônios também possuíam uma festa de ano novo, o festival Akitu (alguns historiadores, no entanto, sugerem que o Akitu e a Sakaia talvez fossem um só ritual), dedicado à vitória de Marduk sobre Tiamat, a deusa do Oceano. No quinto dia do Akitu, o rei da Babilônia tinha que ir até a Ésagila — a casa de Marduk — e ser despido de suas joias, seu cetro e sua coroa por um sacerdote. Após ser destituído de seu poder real, o rei ajoelhava-se e o sacerdote, que fazia o papel de Marduk, chicoteava e batia no rei, até que o rei suplicasse o perdão de Marduk.

No Carnaval tradicional brasileiro, o povo elege um rei simbólico, o Rei Momo. No início do Carnaval, muitos prefeitos entregam ao Rei Momo a chave da cidade, num gesto de abdicação do próprio poder e do reconhecimento do poder de governo temporário do novo rei, que teria poder absoluto sobre a cidade durante o período da festa.

O Carnaval é talvez a festa onde o humor e a comédia mais se fazem presentes, e um dos principais motivos é exatamente esta inversão de papéis e a redefinição de alguns valores morais. Durante o Carnaval, usar fantasias, máscaras, roupas de mulher, jogar água e espuma nas pessoas, entre outras atividades, é algo não só permitido, como incentivado socialmente, o que não acontece no resto do ano.

O fato de o governante ser retirado do cargo e dar lugar a um plebeu faz as pessoas sentirem-se superiores, e geralmente rimos quando nos sentimos superiores a alguém, principalmente a pessoas que são hierarquicamente superiores a nós no dia-a-dia. Essa inversão ocorrer em decorrência de uma festa, e não por um processo político, também nos causa estranheza, e esse é o segundo pilar do humor: a incongruência, o rir diante daquilo que nos confunde. Por último, durante o Carnaval liberamos as tensões acumuladas em todo o ano, quebramos regras sociais e morais propositadamente e não somos julgados por isso, e temos aí um outro motivo pra rir.

Na quarta-feira de Cinzas, voltamos a viver nossas vidas normais, com nossas roupas normais e sob o governo de nossos prefeitos normais. Sobra o lixo nas ruas, a ressaca e uma ou outra DST.

No final do quinto dia do Akitu, o rei volta a possuir suas joias, seu cetro e sua coroa. No décimo segundo dia, as festividades eram encerradas e a vida voltava ao normal na Babilônia.

No final das Saceias, o escravo-rei era então retirado do trono, perdia seus privilégios reais e era açoitado e, em seguida, empalado. E é graças a este cara que você pode ficar em casa durante quatro dias, comendo brigadeiro de panela e botando em dia as séries do Netflix.

Um vídeo que oferece uma boa margem pra discussão


Originally published at sobrecomedia.com on February 20, 2014.

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