Andrício de Souza e o Intestino Eloquente

Andrício de Souza é um dos expoentes de uma forma de comunicação (e humor) que vem se consolidando a cada dia que passa. O cartunista é dono de um estilo de humor bastante peculiar e sagaz, e vem sendo elogiado por diversos cartunistas e outras pessoas do meio.

Entrevistamos Andrício em uma mesa num bar tradicional da Vila Madalena, regado a amendoins e um belo chopps¹ e ele nos contou um pouco sobre sua carreira e o lançamento de seu novo livro!

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¹ Mentira, foi pelo chat do Facebook.

Sobre Comédia: Qual o nome do livro que você está lançando, Andrício?

Andrício: O nome do livro é “O Intestino Eloquente”. Mas não estamos falando de um intestino que tem grande eloquência. Não, não. É só uma escolha estética.

SC: Sobre o que é o livro?

A: É um livro de poesias declamadas em quadrinhos. São cerca de 100 poesias que fiz durante este ano. Como elas são feitas para serem verbalizadas, desenhei pessoas declamando estes versos. Até por causa disso, tem um mini CD, que vem junto com o livro, em que convidei artistas que muito admiro (Tulipa Ruiz, Bruno Aleixo, João Velho, Silvio Luiz, Pereio, Wander Wildner, Carlinhos Carneiro, Lola, André Abujamra, Marcelino Freire, China, Pablo Villaça, Rafael Castro, Michel Melamed, Edu K, Laerte, Benett, Elcerdo, Adão Iturrusgarai, João Montanaro, Alexandra, Allan Sieber, Cynthia B, Marco Oliveira, Gus Morais, Bruno Maron e Ricardo Coimbra), além de leitores que compraram meu primeiro livro, para lerem as poesias. A orelha é uma tirinha inédita do Arnaldo Branco.

SC: Onde que tem pra vender?

A: Na Loja do Andrício. Custa 39 reais, com frete grátis para todo o Brasil.

São 152 páginas coloridas e um mini CD com 23 minutos. O livro é totalmente feito à mão, e passei o ano inteiro fazendo. Deu muito trabalho, e até diminuí o trabalho no blog por causa disso. Mas ele ficou muito lindo e exatamente do jeito que eu queria.

SC: Como o livro foi publicado: Recursos próprios ou patrocínio?

A: Fiz um empréstimo. Não quis fazer crowdfunding, porque não queria passar a vergonha de não conseguir o montante suficiente.

SC: Foi difícil conseguir publicar?

A: Não, o gerente do banco acreditou no meu talento! Coitado.

SC: Como é o mercado hoje? Tem muito livro igual ao seu ou com uma proposta parecida? Se não, por que você acha que não?

A: Rapaz, eu não entendo nada de mercado. E também não entendo nada com relação à popularidade. Mas eu nunca vi um livro parecido com o meu. Mas isso talvez ocorra porque ele seja uma péssima ideia.

SC: Conta um pouco sobre seu trabalho…. Como e quando começou a fazer as tirinhas?

A: Comecei a fazer tirinhas em 2010. E nunca tinha pensado em fazer isso antes. Comecei a partir de uma ideia cretina do Serra, e vi que era uma ótima forma de me expressar. Desde então, não parei mais. Aliás, eu mostrei estas primeiras tirinhas ao Adão e ao Allan Sieber, que eu sempre admirei. Eles leram e fizeram comentários lindos e generosos. Eles poderiam ter cortado o mal pela raiz e não o fizeram. Por isso, grande parte da culpa de eu fazer quadrinhos até hoje é do Allan e do Adão.

SC: Quais suas principais influências/referências no humor e na ilustração?

A: Rapaz, é muito complicado falar em influências, porque elas vêm de forma totalmente inconsciente. Creio que alguém que saiba exatamente quais são suas influências é porque está copiando! Além disso, admiro demais quando o humor não é totalmente proposital ou procurado. Acho que para ser engraçado, a gente quase não pode perceber que estamos tratando de humor. Por isso, as minhas influências vêm de novelas, séries, livros, músicas. Mas você quer exemplos que eu sei! O Rafael Castro, que é um artista que amo de paixão, tem músicas que acho muito engraçadas. O Pedro Cardoso é engraçadíssimo. O Arnaldo Branco tem tiras que não são necessariamente engraçadas, mas são maravilhosas. O humor da internet, que é totalmente despretensioso, é extremamente divertido. Entende? Não vejo o humor como um fim, mas algo que a gente esbarra.

Agora, em relação a referências na ilustração, é com muita vergonha e timidez que digo que não tenho. Até porque praticamente não sei desenhar.

SC: Na sua visão, quais são os principais nomes no seu ramo? Como está a situação hoje no Brasil?

A: Tem muita gente fazendo trabalhos de ótimo nível, e tudo bastante diferente um do outro. Por exemplo, tem o Bruno di Chico, com um traço engraçadíssimo, extremamente cômico e pouquíssimo diálogos. Tem o Bruno Maron, que é quase o contrário disso, com textos longuíssimos e ilustrações em cima dos textos. Tem o Ricardo Coimbra, que é extremamente irônico e quase depressivo. O Pablo Carranza, que é mais clássico. O Gus Morais, que é um fofinho (ele detesta que diga isso). O Marco Oliveira, que também é bastante ácido. A Cynthia B., que é engraçada e bastante irônica. A Chiquinha, que vive rindo de si mesma. E tem muito mais gente que não mencionei aqui. Além dos clássicos, que todo mundo conhece. Mas eu lamento apenas a falta de espaço. Quer dizer. Tem o espaço, mas ele é bastante reduzido. Acho que os jornais poderiam ter páginas e páginas de quadrinhos. Assim como as revistas.

Por exemplo, a minha mãe só não trocou a Folha pelo Estadão por causa dos quadrinhos.

SC: Quais são suas dicas pra quem tá começando e quer fazer sucesso na internet?

A: Eu acho que é bastante importante distinguir sucesso de popularidade. Sucesso é conseguir fazer um trabalho bem feito e talvez ser reconhecido por isso. Popularidade é ter bastante gente gostando do seu trabalho. Dito isso, eu vejo que tem bastante gente que encontra uma fórmula e vai atrás dela com discursos que têm demanda para isso. E isso vai para o lado bom e para o lado ruim. Por exemplo, você pode ter um trabalho extremamente reacionário, criticando os pobres, os cotistas e os negros, que terá um público cativo. Da mesma forma, pode fazer um trabalho de discurso mais honesto, mas que não acrescente nada. Quero dizer, o discurso pode até ser bacana, mas bastante pobre como humor ou forma de arte. Mas, assim, direcionando tudo para seu público, conseguirá um trilhão de curtidas no Facebook e venderá bem seus trabalho.

É lógico que é possível defender causas justas em qualquer forma de arte. Mas vejo bastante gente que fala sobre determinados assuntos apenas para cultivar público.

Eu acredito no seguinte: preocupar-se com seu público é uma forma de não se preocupar com ele. Quer dizer, você fala o que ele quer ouvir não porque tenha qualquer preocupação intelectual com ele, mas porque está interessado no que ele possa te proporcionar. Gosto bastante dos trabalhos que não dizem o que a pessoa tem que pensar, mas que aponte novas formas, novas saídas e novidades, e que corra sempre o risco de perder público.

SC: E quais são suas dicas pra quem já tem um trabalho legal e quer lançar um livro?

A: Junte seu trabalho numa pasta, acorde cedo, tome banho, vá ao banco de táxi (para não chegar suado), e peça para falar com o gerente. Ele provavelmente estará ocupado, mas diga que é urgente. Quando conseguir a audiência, é necessário fazer o gerente pensar que será parte fundamental do projeto. Assim, ele terá a vaidade de achar que é artista, e liberará o dinheiro. Não tem erro. Mas para o livro ficar bacana, é necessário refazê-lo umas três vezes.


Originally published at sobrecomedia.com on November 28, 2013.

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