Emo Philips e a bicicleta de Al Pacino

Quando a gente fala de politicamente incorreto, é natural lembrarmos de alguns humoristas contemporâneos (sim, nesse momento você já até visualizou um cara de barba apresentando um late show ao lado de uma banda e de um ator que serve de escada pra algumas piadas). Mas lá no início da década de 80 havia um comediante que ficou famoso por fazer piadas de humor negro, usando pra isso um personagem bastante incomum: Emo Philips.

Diferentemente de outros comediantes dessa época, Phil Soltanek não fazia o humor de cara limpa (ô loco, bicho!), ele interpretava Emo Philips, um sujeito que se vestia de modo bastante peculiar, com um cabelo meio Chanel, olhos esbugalhados e trejeitos que faziam você acreditar que ele adoraria matar alguém, como podemos ver nessa simpática foto:

Emo ficou famoso principalmente por três aspectos:

O primeiro era o impacto inicial que seu personagem trazia ao público. Contadas com uma voz infantil (ou de alguém com algum tipo de problema mental, como alguns apontam), suas piadas quase sempre possuíam temas pouco ortodoxos em um espetáculo de humor, como suicídio, cárcere privado e roubo;

O segundo aspecto é justamente esse: todo o show era construído com base em temas que, inicialmente, não seriam engraçados, como os citados acima, mas o modo como a piada era contada fazia com que o espectador não se sentisse desconfortável, por conta do terceiro aspecto;

O terceiro era a forma escolhida por Emo para realizar seu show. Ele dominava uma técnica chamada paraprosdokian joke, que consiste basicamente em começar uma frase e terminá-la de um jeito diferente do que seria esperado. Por exemplo, esta piada dele aqui:

Quando eu era um garoto, meu pai me dizia, “Emo, você acredita no Senhor?”. Eu respondi “Sim!”, meu pai disse “Então fique de pé e grite Aleluia!”. Aí eu fiquei de pé e caí da montanha russa.

Podemos ressaltar também que as piadas de Emo geralmente eram curtas, justamente pra acentuar o final, pro espectador não ter tempo de pensar em um desenrolar da história enquanto ele conta. Aqui temos outra piada de uma linha dele:

Quando eu tinha dez anos, minha família mudou-se para Downers Grove, Illinois. Quando eu tinha doze, eu os encontrei.

Emo Philips também usava um recurso linguístico chamado Garden Path Sentence, que é uma frase gramaticalmente certa, mas cujo sentido é propositalmente alterado no final para que a pessoa que lê/ouve tenha que reinterpretar parte da frase para entender:

I was walking down the street; something caught my eye… and dragged it fifteen feet.

(Pra quem não foi alfabetizado em inglês: nesse caso, o “caught my eye” inicialmente tem o sentido de “chamou minha atenção”, mas no final da frase significa literalmente “pegou meu olho”. Então a frase seria algo como “Estava andando pela rua; algo chamou minha atenção/pegou meu olho… e o arrastou por 5 metros”)

Um tema recorrente nas apresentações de Emo era a religião. Inclusive você já deve ter visto essa frase no Facebook:

Outra piada sua envolvendo religião foi eleita em um site como a melhor piada com tema religioso de todos os tempos:

Um dia eu vi este rapaz em uma ponte, prestes a pular. Eu disse, “Não faça isso!” Ele disse, “Ninguém me ama.” Eu disse, “Deus ama você. Você acredita em Deus?”

– Sim.

Você é um cristão ou um judeu?

Cristão. — Eu também! Protestante ou católico?

Protestante.

Eu também! Qual denominação?

Batista.

Eu também! Batista do Norte ou Batista do Sul?

Batista do Norte.

Eu também! Batista do Norte Conservador ou Batista do Norte Liberal?

Batista do Norte Conservador.

Eu também! Batista do Norte Conservador da Região dos Grandes Lagos ou Batista do Norte Conservador da Região Leste?

Batista do Norte Conservador da Região dos Grandes Lagos.

Eu também! Batista do Norte Conservador da Região dos Grandes Lagos do Concílio de 1879 ou Batista do Norte Conservador da Região dos Grandes Lagos do Concílio de 1912?

Batista do Norte Conservador da Região dos Grandes Lagos do Concílio de 1912.

Eu disse “Morra, herege!” e o empurrei.

Para quem quiser saber mais sobre esse incrível comediante, pode acessar seu sítio virtual (que, se não tivesse botões de Twitter e Facebook, diria ter sido feito em 1996) que é bem completo e atualizado, inclusive com datas de shows.

Aqui temos um trecho de um espetáculo de Emo.

Emo é, na minha opinião, um dos melhores one-liners da história, cujas piadas conseguiram ultrapassar sua própria identidade, atingindo um nível que poucos comediantes conseguiram, o de ter o material mais conhecido do que a pessoa que o interpreta. Se o “domínio público” de uma piada traz consigo alguma injustiça com seu autor, cada vez que ela é contada é uma homenagem anônima a sua genialidade.


Originally published at sobrecomedia.com on April 11, 2014.

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