Humor, teoria do alívio e meu vô Vico

A vida, como tudo o que é bom, acaba.

Em um texto anterior, comentei sobre duas das bases do humor: a teoria da superioridade e a teoria da incoerência; além delas, existe uma terceira, a teoria do alívio.

Num domingo, dia de jogo Brasil e Itália, precisei viajar a trabalho para São Paulo. No meio da viagem me ligaram dando a notícia que minha avó havia falecido. Parei na primeira rodoviária que pude pra voltar pra minha cidade, mas era noite e o primeiro ônibus só sairia às seis da manhã.

A teoria do alívio, aprimorada por Freud em seus estudos psicanalíticos, postula que rir pode ser uma forma de contornar o que se considera normal. Por meio do humor, podemos fugir da pressão moral, podemos criar situações onde a censura imposta pela sociedade é momentaneamente driblada. Ao ficarmos livres dessa imposição para rir sentimos alívio, e é essa a base da teoria.

Apesar da tristeza, apesar das preocupações, a única coisa que eu pensava na rodoviária era em como meu avô estaria lidando com a situação.

Quando um bobo da corte falava coisas picantes a respeito da família real (com o devido consentimento), estava na verdade fazendo as pessoas rirem de suas próprias limitações, estava libertando as pessoas por alguns instantes, antes que elas tivessem que voltar para seus afazeres.

No Carnaval, quando o rapaz se traveste e sai pelas ruas abraçando outros homens, ele está na verdade externando um desejo reprimido de poder ter a liberdade de fazer isso, não necessariamente ligado a sua orientação sexual, identificação de gênero ou algo do tipo; ele apenas se diverte longe da repressão social, que se abstém durante a duração da festa.

Os casos acima são exemplos não intencionais da teoria, mas o recurso do alívio é muito utilizado por escritores e roteiristas para adicionar uma nuance extra à trama. É comum, em peças de terror ou suspense, que haja um personagem cômico (que geralmente morre cedo) ou uma fala irônica do herói sobre o ocorrido, normalmente com o propósito de desacumular a tensão do momento e poder retomar o crescimento dramático posteriormente.

O alívio cômico possui uma forte ligação com as outras duas teorias: ao rirmos do que nos é proibido, assumimos uma posição superior à própria estrutura moral da sociedade, ainda que por um instante; ao nos depararmos com situações engraçadas em meio à tristeza ou ao medo, a quebra da expectativa nos faz rir.

O enterro da minha avó ocorreu lá pelas quatro da tarde. Ainda com as mãos doendo por carregar o caixão, fui com minha família de volta à capela, para pagar pelos serviços funerários. Depois de assinar o cheque, com os olhos marejados e visivelmente abalado e confuso com toda a situação, meu avô despediu-se do dono da funerária com um “até logo”. Eu estava a uns 5 metros do local, e a única reação que conseguir ter foi gritar:

Até logo não, porra!

O sorrisinho que meu avô deu naquele momento foi um dos poucos que me orgulho de ter provocado na vida.


Originally published at sobrecomedia.com on November 7, 2013.

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