Pérolas do ENEM

Este mês será realizado o Enem — Exame Nacional do Ensino Médio, um exame que avalia o aprendizado dos estudantes e é utilizado como método de ingresso em diversas universidades. Um dos efeitos colaterais desse exame é um tipo de piada chamada “Pérolas do Enem”: Respostas supostamente dadas por estudantes a questões da prova, onde chamam a atenção a falta de conhecimento e a criatividade dos alunos. Uma busca no Google pode revelar algumas dessas pérolas:

“Os dois movimentos da Terra são latitude e longitude” “O Ateísmo é uma religião anônima” “O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo”

Esse tipo de piada, possivelmente involuntária, acabou tornando-se uma fonte quase garantida de risadas, tanto que humoristas com um repertório imenso as utilizam pra garantir uma plateia bem humorada (se você pensou em Jô Soares, bingo). Mas por que o erro de um aluno, que poderia indicar uma falha no sistema educacional e ser motivo de preocupação, acaba se tornando tão engraçado?

A teoria da superioridade

Uma das teorias de humor é a de que a relação de superioridade nos diverte. Quando rimos de um bêbado que fala uma besteira, estaríamos nos vangloriando de nossa posição sóbria e capaz de realizar um raciocínio lógico; logo, quando rimos de um estudante que, mesmo após 11 anos de estudo, consegue chegar à conclusão que o meio de transporte mais utilizado no deserto da Arábia é o tapete, estamos rindo de nossa condição de superioridade intelectual, pois sabemos que tapetes não voam, embora a grande maioria das pessoas não saiba, de fato, qual o meio de transporte mais utilizado na Arábia. Aliás, essa é uma questão interessante: Poucas pessoas saberiam, após tanto tempo fora da escola, as respostas corretas às questões propostas pelo exame, mas a simples observação da resposta absurda já nos coloca nessa condição superior, pois presumimos que os estudantes tinham o dever de saber a resposta, ao passo que nós, enquanto adultos que já passaram pelo período estudantil, temos outros interesses e assuntos para dar importância.

A teoria da incoerência

Outra teoria é que rimos de algo que quebra nossa expectativa. Imagine uma mulher estonteantemente bonita, a Karina Bacchi, por exemplo. Agora imagine Karina dizendo “chuchuga” com a voz do Cid Moreira. Ok, provavelmente isso só foi engraçado na minha cabeça, mas acho que deu pra entender né? Achamos engraçado aquilo que foge do que entendemos como previsível, aquilo que confunde nosso cérebro. Diante disso, achamos engraçado uma resposta absurda dada por um aluno, pois quando a frase começa com “Dois grandes líderes russos foram”, esperamos um desfecho parecido com “Lênin e Stalin”, mas somos surpreendidos com “Lenine e Stalone” e rimos.

Quando a piada vira negócio

Como absolutamente tudo, quando temos um tipo de humor que dá certo, a tendência é que tentemos repetir a fórmula que fez tanto sucesso. No caso das pérolas do Enem, temos um recurso finito de piadas, pois mesmo não tendo um sistema educacional totalmente eficiente, a quantidade de respostas engraçadas que acabam vindo a público é pequena. Por isso, muitas pessoas fazem suas próprias “pérolas”, respondendo questões da prova de maneira errada de propósito ou simplesmente mentindo e dizendo que uma determinada frase inventada foi oriunda de um teste real. Como isso quebra a teoria da superioridade (afinal, alguém escreveu isso para nos fazer rir, então não somos superiores a ele e sim o contrário) e a teoria da incoerência (porque quando lemos “pérolas do Enem” já estamos esperando algo), o resultado final é bem menos engraçado que no início, quando aquilo era novo e espontâneo. Vamos abordar melhor essa questão das teorias do humor em outros textos, aplicados a outras situações, mas as Pérolas do Enem nos ajudam a ver que 1) temos que melhorar um pouco a qualidade do nosso ensino; 2) o povo brasileiro tem um imenso potencial criativo; 3) adoramos rir de quem tira nota baixa e 4) A Karina Bacchi consegue ser estonteantemente bonita mesmo falando “chuchuga” na voz do Cid Moreira.


Originally published at sobrecomedia.com on October 17, 2013.

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