Rafucko, humor, e preconceito

Um dos temas recorrentes do Sobre Comédia é o limite do humor. Já foram apresentadas anteriormente no blog diversas opiniões, dadas por nossos colunistas, por textos de convidados e leitores.

O objetivo do blog certamente não é tentar dar um veredito sobre o assunto, mas sim acrescentar opiniões e tornar o debate mais interessante, com ideias e pontos de vista distintos. Para isso, conversei rapidamente com Rafucko, radialista, humorista e ativista carioca, para nos contar sua opinião breve sobre alguns assuntos ligados ao tema.

Sobre Comédia: Seu trabalho (vídeos, página, etc) tem alguma influência, humorística ou não?

Rafucko: Me influencio de absolutamente tudo que vejo, de uma ~exposição do artista plástico badalado~ a uma conversa ouvida no ônibus lotado. Algumas eu identifico, outras não. Duas que posso citar agora, uma de humor e outra de não-humor, são: Charlie Chaplin (sei que pode parecer clichê, mas recomendo que assistam QUALQUER filme dele para ver o quão contemporâneo ele ainda é). Outra é um documentário chamado “Olhos Azuis“, que mudou muito minha forma de ver o mundo, com um experimento de inversão de valores.

SC: Quando se faz humor pra defender uma causa, qual é o elemento mais importante: Ser engraçado ou fazer pensar?

R: Os dois elementos são muito importantes, e acho que o equilíbrio entre eles é não só essencial, como natural. Meu trabalho surge da necessidade que tenho de digerir assuntos tão difíceis. Esse processo de “digestão” sempre me leva a um mundo absurdo, de onde eu olho para a realidade e vejo que, epa, o maior absurdo é o que a gente já vive!

SC: Como você vê a situação do humor no Brasil? Existe alguma diferença entre o que é feito aqui e o que existe em outros países?

R: Sim! Muito se fala sobre a liberdade de expressão nos EUA, que os comediantes de lá são politicamente incorretos (ih, usei a expressão, perco um ponto) sem serem incomodados pela “polícia”. Outro dia vi alguém usando esse número do Louie CK como exemplo. Repare como o objeto do riso, neste número, é a supremacia branca, e não o negro oprimido. É muito diferente da piada do Danilo Gentili sobre a falta de luz no nordeste, onde o motivo do riso é exatamente a miséria de uma região — miséria esta que não é uma condição natural, é uma condição fabricada por gente que está no poder. Tem muitas opressões seríssimas acontecendo neste momento no nosso país (e no mundo todo, claro). Tem gente morrendo, tem gente tendo seu direito básico à existência negado simplesmente por ter nascido em uma região, com uma cor de pele ou com uma preferência (ou orientação, ou o que for o melhor termo) sexual. Certos preconceitos que dificultam a vida de muita gente são perpetuados exatamente nas piadinhas inofensivas. Os gays sabem disso, os negros sabem disso, as mulheres sabem disso… Só que não sabe é o homem branco, classe média, heterossexual. O homem que não abre mão da sua agressão, e que acusa de “censor” aquele que não quer ser agredido.

SC: No seu vídeo Clube KKK de Humor Criminalmente Incorreto, você aponta para a questão do uso da linguagem humorística com a intenção de fomentar o preconceito, ainda que involuntariamente. Na sua opinião, onde termina a liberdade de expressão e começa o desrespeito? E a quem cabe dizer onde desenhar essa linha?

R: Se alguém me diz que se ofendeu com minha piada, eu vou aceitar. Não cabe a mim definir se o outro está ofendido ou não. A liberdade de expressão é ampla, infinita, tal qual a liberdade de ofensa. E há que se equilibrar os dois para que possamos conviver pacificamente em sociedade. Falta humildade em se reconhecer que seu ponto de vista não é supremo, mas, mais ainda, falta criatividade e força de vontade para fazer um humor bom de verdade, que não seja baseado em velhos estereótipos e velhas estruturas que caminham para a extinção. Se segurar com todas as forças nas piadinhas sobre negros, que deviam ser o “must” na época da escravidão, mostra uma incapacidade de evolução.

SC: Existe um formato de humor, o roast, onde um convidado sujeita-se a ser vítima de diversas piadas que, em outro contexto, seriam consideradas ofensivas. Qual sua opinião sobre esse tipo de humor? Se a pessoa aceita ser ofendida, isso deixa de ser ofensivo?

R: Nunca tinha ouvido falar sobre isso. Tô lendo e vendo que é uma honra ser o “homenageado”. Se a pessoa aceita ser a vítima, ela está compondo a piada junto com o comediante. E o público adora ver alguém se dar mal. Acho que minha reação a este número seria bem diferente se a pessoa não estivesse em concordância com o número.

SC: Um último recado pra quem quiser conhecer mais sobre seu trabalho!

R: Eu tô com uns projetos… Recomendo meu blog onde estão todos os vídeos e meu feice. Como meu trabalho é independente, sintam-se livres pra compartilhar os vídeos com “HAHAHAHA” ou “ESSE TEM QUE VER!!!!” porque é isso que funciona.COMENTE


Originally published at sobrecomedia.com on November 14, 2013.

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