Um homem sério

A comédia estigmatiza o ator?

No meio artístico, costuma-se dizer que um ator que torna-se conhecido por interpretar papéis cômicos acaba ficando preso a eles, encontrando dificuldades em convencer o público quando atua em outros campos, principalmente pela expectativa popular.

Esse foi um assunto muito bem abordado no curta brasileiro “Um homem sério”, de 1996. Nele, Ary França interpreta o ator Hilário Peçanha, que começou a carreira como comediante de chanchadas. Ao longo da carreira, vai ganhando sucesso e status, sempre baseando seus papéis em um bordão característico: “É ruim de ser!”. Em um determinado ponto da vida, no entanto, ele sente que pode explorar melhor seu potencial artístico, e começa uma nova experiência, interpretando tragédias shakespearianas, mas o público que lota os teatros sempre esperava que Hilário saísse do personagem e dissesse o tão popular bordão.

Cansado pela falta de reconhecimento popular a sua veia dramática, Hilário acaba por dar fim à própria vida. Queria ser lembrado por seu talento dramático, por sua capacidade de emocionar as pessoas, mas a vida tinha outros planos: em seu funeral, lotado por fãs, um dos presentes presta uma última homenagem, repetindo o bordão que havia tornado o ator tão querido: “É ruim de ser!”. Logo a comoção deu lugar a uma gargalhada coletiva, uma última ironia amarga na história de Hilário Peçanha.

Durante a história, diversos comediantes já se aventuraram em papéis dramáticos. Podemos citar alguns:

Will Ferrell — Mais estranho que a ficção (Stranger than fiction), 2006: Will interpreta Harold Crick, um funcionário do imposto de renda que, num determinado dia, começa a ouvir alguém narrando sua vida. Apesar de ser engraçado, a carga dramática que Will empresta ao personagem torna o filme bastante interessante.

Will Smith — Sete vidas (Seven pounds), 2008: Este outro Will, conhecido por interpretar Um Maluco no Pedaço e Homens de Preto, vive Ben, um homem que busca redimir-se de um erro no passado ajudando sete pessoas. Além de Sete Vidas, Will demonstrou outras vezes sua capacidade em interpretar papéis dramáticos, tendo sido indicado ao Oscar duas vezes (por Ali e À procura da felicidade).

Steve Carell — Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), 2006: No papel de Frank Ginsberg, um professor gay que, após tentar o suicídio, é obrigado a fazer uma viagem com a família. O humor também aparece, mas nos momentos certos e de um jeito bastante sombrio, com um sarcasmo amargo que torna o personagem ainda mais convincente.

Jim Carrey — Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind), 2004: Jim vive Joel, que descobre que a namorada submeteu-se a um procedimento para apagá-lo de sua memória e decide fazer o mesmo, e durante o procedimento descobre que aquilo não é o que realmente deseja. Jim foi bastante elogiado por sua coragem em interpretar um papel que era considerado denso demais para ele a princípio, embora o resultado tenha sido bastante diferente do esperado: por este papel, Carrey foi indicado a diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro como melhor ator.

Existe ainda uma segunda barreira a ser quebrada, mas que também advém do preconceito: o espectador espera que o ator seja engraçado, mas ele não é — isso acaba gerando uma quebra de expectativa que, por si só, ainda pode ser engraçada. Isso pode arruinar um projeto, se o ator não tiver a capacidade de dar o nível correto de drama à interpretação; outro problema acontece quando o drama é exagerado a ponto de tornar a trama inacreditável e canastrona, o que é relativamente comum, pois alguns comediantes vivem do exagero, e há uma tendência a repetir o comportamento que o fez tornar-se bem sucedido.

Em suma, a comédia pode estigmatizar o ator sim, mas cabe ao próprio ator buscar alternativas (ou seja, estudo) para dar vazão a seu talento interpretativo e entender que o sucesso que ele atingiu no humor, por si só, não o capacita para atuar em outros gêneros.


Originally published at sobrecomedia.com on October 31, 2013.

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