A máquina da revolta paralisada: significados e signos na política brasileira atual — uma avaliação (im)possível?

Será possível realizar uma análise, mesmo que aproximativa, dos resultados do afastamento da presidenta da República Dilma Rousseff e a “tomada” do poder por seu vice-presidente Michel Temer? Avaliações e análises profundas precisam de tempo. Mas o espectro político à esquerda, agora totalmente em oposição ao governo provisório de Michel Temer, grita e esbraveja em uníssono os resultados dos primeiros atos do “novo governo”: retrocesso.

A anexação do Ministério da Cultura com o da Educação (a volta do MEC); a mais completa ausência de diversidade (de gênero e étnica) na composição do Ministério (formado apenas de homens, velhos, brancos e ricos); a atribuição da demarcação dos territórios das comunidades remanescentes de quilombo ao velho-novo MEC; a extinção do Ministério das Mulheres e da Igualdade Racial e dentre outras medidas. Em pouco mais de 24h, fizeram esta blitzkrieg peemedebista ser vista como o sinal mais evidente de que o novo governo deseja voltar ao passado (não a toa uma jornalista da Globo News alcunhou de “retrô” a imagem do ministério) e acabar com os avanços sociais e culturais empreendidos pela administração petista dos últimos 13 anos. Há no Brasil quem se ressinta destas conquistas mesmo que tímidas e ou insipientes — não é pouca gente.

Mas esta avaliação (im)possível não segue por esta senda. Quero me deter justamente naquilo que é um dos objetos de fundo da retórica, da semiótica, da performance que legitimou e materializou o afastamento da presidenta República: a corrupção. Este caro e imenso significado às democracias ocidentais modernas teve nos últimos tempos no Brasil seu sentido inchado, inflado. E dentro de um discurso muito específico foi tornado um dos combustíveis que alimentou uma máquina de produção de insatisfação e revolta por parte da população — com toda a razão, sem dúvida alguma — contra a administração petista a frente do Palácio do Planalto. Mas agora parece que a máquina pifou, perdeu seu combustível. A princípio o material combustível bruto, ou seja, a corrupção não se extinguiu. Muito pelo contrário. Afastado o nefasto e corrupto governo petista e assumindo Michel Temer interinamente a presidência, ele compõe o velho-novo Ministério com nada mais nada menos que sete — repito — sete investigados na operação Lava Jato da Polícia Federal!

O problema de combustível da revolta e da insatisfação não é de material. Ele ainda existe em larga escala para alimentar quantas máquinas de revolta e insatisfação forem necessárias. O problema encontra-se no refino do combustível bruto — que brota como fossa dos entremeios e fissuras do mármore e do concreto-armado de Brasília. O problema do refino torna-se a partir de agora um imenso e caro problema político ao Brasil: aqueles que se revoltaram contra a administração petista e contra seus atos de corrupção não fazem sua máquina ranger contra a administração de Temer igualmente corrupta como foi o governo petista. Há uma paralisia. O quê exatamente ocorreu se o material e objeto que move a revolta e a insatisfação de milhões de brasileiros, continua existindo e atuando no centro poder nacional?

A resposta, ainda, é o refino do material. A corrupção é refinada com a seguinte tecnologia semiótica: corrupção é um significado para descrever as práticas do uso do bem público e estatal em proveito de um indivíduos ou de um grupo organizado (ou não) de particulares em detrimento do bem e dos valores (materiais e morais) coletivos de uma sociedade com Estado moderno e democrático. Este significado a partir de um dado momento, por dados interesses políticos, mercadológicos, oligárquicos, passa a ser colado em um único signo. E nos últimos tempos a narrativa semiótica produzida por estes interesses colou o significado “corrupção” ao signo “PT” e ou “Governo do PT”. Não é demais dizer que os interesses propulsores dessa tecnologia de refino do significado corrupção estão sediados em verdadeiras “linhas de montagem e produção” que também são chamados redações de jornais, de televisões e de blogs e sítios de internet de grandes corporações jornalísticas nacionais. Em princípio a fábrica de denuncia e alimentação máquina da revolta tem objetivos nobres. Seu fundo é outro. Tanto que ajudou a criar um gigantesco problema ao entendimento de cidadania no Brasil: o signo passou a ser também um sentido a mais no significado de corrupção.

Agora, sacado, retirado o signo do significado, o entendimento do sentido de corrupção nas mãos de outrem deixa de ser um problema. Pois o único e nefasto problema era a “corrupção do PT”. Acredito que com isso foi deixado um imenso e negativo legado político para a população. Em qual moderna democracia ocidental somente a corrupção de x é a única corrupção nefasta? Não seria um significado com uma base política e moral generalizante, universal: qualquer corrupção, de quem venha ser, é algo revoltante a ser combatido com duras penas? Ou é necessário haver uma diferenciação, uma modulação entre agentes de corrupção x e y? A diferenciação seria algo próprio de espíritos democráticos e republicanos?

Para encerrar voltamos ao refino: se grande mídia brasileira é a indústria de refino que alimenta o combustível da revolta e da insatisfação contra a corrupção por quais motivos ela não faz sua indústria funcionar para o velho-novo governo com sete indiciados e ou citados na operação Lava Jato? Por quê não há a mesma devassa que ocorreu com o “governo do PT”? Onde estão os bravos cidadãos que puseram em marcha sua revolta e insatisfação — absolutamente justificada — e sentiram-se empoderados politicamente quando destituíram o governo pelo processo de impeachment mas que silenciam de maneira cândida e tranquila diante da formação de um novo governo com elementos e sujeitos atordoadoramente corruptos?

O signo foi sacado do significado, a indústria de refino paralisa, a grande mídia interrompe a produção, a máquina da revolta e da insatisfação contra corrupção interrompe sua marcha por falta de combustível refinado. O velho-novo governo acaba com a independência de Controladoria Geral, deseja interferir diretamente na escolha do Procurador Geral da República e os ministros indiciados, sete deles, ganham foro privilegiado ao ocuparem as pastas. O material podre da corrupção emerge aos borbotões nas plagas e esplanadas do Planalto Central. Afinal, qual era o interesse? Acabar com o significado ou apenas o signo? O legado político desta situação é o pior possível. A corrupção de uns é mais aceitável e tolerada do que a de outros.

Em tempo: longe de mim defender o PT, mas sou contra toda e qualquer corrupção. E a máquina da revolta? Será que ela é também?