Ciranda

Guilherme Peres
Jul 20, 2017 · 5 min read

Para alguém de fora a impressão era de que ele apostava nos cavalos errados de propósito. Tudo parecia tão explícito. “São três minutos de infusão” — a atendente soou como das vezes em que você repete uma palavra a ponto de ela perder o sentido. Dizem que não é preciso mergulhar e tirar o chá da água quente, mas era isso que ele fazia. Um primeiro mergulho mais curto, um segundo mais profundo, tentando tocar o fundo da caneca, e na terceira vez como a primeira, para então tirá-lo completamente da água e ver pingar o suor quente entre o vapor e o líquido ganhando tom. Se transformando em algo que não uma coisa nem outra, mas uma soma das duas via a subtração de cada um dos fatores. A fina química entre ser metódico e deixar o coração dizer “chega”.

Ele era o tipo de pessoa que te convenceria a entrar em um esquema de pirâmide se você não tivesse cuidado. Você já viu alguém ser pego no flagra e não só sair ileso como ainda convencer a outra pessoa que “pensa bem, a culpa é sua também”. E fazê-la acreditar a ponto de se desculpar. Um grande rochedo com uma placa de “Porto” em que um tanto considerável de navegadores, ingênuos e experientes, realmente acharam que podiam ancorar. O tipo de pessoa que te faz pensar constantemente “eu nunca vou conseguir fazer isso” sem dizer nada, e para quem você é incapaz de não sorrir de volta, mesmo você sabendo todas essas coisas.

O que nunca dizem a respeito de não ser possível lutar contra o coração é que é possível. Não é nem tão difícil. Eu vi as marcas no fundo da cerâmica antes de a minha louça ser recolhida e lembrei de quando me contaram que isso pode acontecer também com os dentes: o ato de, vez após vez, expor a matéria rígida a algo quente e a algo frio, para então esquentá-la novamente. Elas racham. Eu nunca vi um conjunto de rachaduras igual a outro. Cada caneca é única e tão semelhante. Suas estrias marcando os usos e caprichos de outros.

“Não precisa tentar”. Eu tentava servir de consolo e tentava também não parecer que estava tentando. Entre um e outro, ele assoprava o chá e sugava a fumaça. Ninguém sabe o que quer, bem no fundo. Eu digo a ele, como naquele filme, que essa é nossa falha e nossa ruína: querer mais e também o que tínhamos antes. Mesmo com a tela do telefone para baixo você percebe quando chega uma mensagem. Ele escolheu ignorar e eu escolhi tentar de novo.

“Você não vai mais ter isso daqui para frente” foi a resposta que me deram uma vez. Eu tinha acabado de voltar de um momento decisivo e inesperado, algo que deveria ser apenas um estágio de todo um grande processo. As coisas aconteceram e eu achei que ainda havia tempo quando não havia mais tempo nenhum. Desde então eu fui seguindo em frente como quem vai calçando uma meia no meio de um passo. Eu olhava para ele na minha frente, levantando o chá pelo barbante e vendo o fio se desenrolar sozinho, a erva ali, de lastro, como um pequeno planeta arrastando outros à sua volta, dando movimento a uma cena que todos sabem como termina e que ninguém resiste não olhar.

Eu quis que ele olhasse a mensagem. Eu também já esperei uma resposta, mais de uma vez. Eu conheço a aflição. Eu esperei por horas. Quando a resposta veio, três meses e dezenove dias depois, eu ainda estava esperando. Mas sem a aflição, porque a mágoa marca mais que o desejo ou o medo. Cansa porque amar é uma escolha mais do que um sentimento. E é preciso peito para admitir isso de uma vez, despir uma coisa assim.Venha me falar sobre comprometimento: uma vez eu gastei todo o meu dinheiro apostando com um menino da outra sala que ele não cortaria o próprio braço. Éramos em cinco ou seis no banheiro. Ele lavou a lâmina da minha tesoura e passou a ponta do cotovelo ao punho uma, duas, três vezes. Na quarta eu vi os pontos vermelhos surgirem entre a pele solta e então o grupo estava pela metade — é preciso sempre pelo menos uma testemunha. Anos depois aprendi que existem dois tipos de pessoas: as que passam o dedo na lâmina quando sabem que ela está cega, e as que não se interessam por ela quando descobrem que ela é inofensiva. Eu me encaixo no primeiro caso, mas a questão não é essa. O ponto é o que você faria se a lâmina de fato cortasse? O que ele faria? Qual o seu argumento contra alguém tão disposto a provar que se importa?

Eu disse apenas “vê mais dois?” no balcão, a caminho do banheiro, porque essa não era nossa primeira vez naquele lugar. Com a porta fechada, pensei em falar sobre quanto já se teorizou sobre o segredo da felicidade estar como que escondido no ato de interromper o ciclo de repetições. Em como, do pensamento oriental à psicanálise e à depressão o sofrimento é sempre uma questão de se estar preso ao fato de fazer e errar sempre nas mesmas coisas. Como naquela piada do português que vê a banana no caminho: “lá vou eu escorregar outra vez”. Pensei em abrir com a piada. Tudo devidamente ensaiado, ali, lavando minhas mãos. No caminho de volta eu encontrei soube para onde ir pelo brilho da tela do celular. Um grande farol. Eu escolhi esquecer.

Penso sobre aqueles monges budistas que destroem os mosaicos de areia depois de semanas de trabalho combinando cores e dando formas. Ou os indígenas que não têm conceitos básicos como números ou morte. Em como eles se afastam disso tudo, vez após vez, desde a primeira oferta, eras atrás. É aquele tipo de humor sofisticado que é mais perspicácia do que engraçado, como um tempero que você não consegue identificar, devorando e dizendo perplexo “meu deus, que gosto é esse” até o prato acabar. Em como é curioso eles terem tempo pelo simples fato de o tempo ser indiferente para eles.

“Eu pedi mais dois sem perguntar se você ia tomar”. “A gente sempre toma”, ele disse enquanto as canecas iam compondo a mesa.

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