Um Poço no Céu

Untitled 200 | Nicholas Prior — “Age of Man”

Eu não acreditaria que a felicidade é um pecado se não tivesse destruído seu coração sem dizer uma palavra. Com a pergunta boiando na mesa entre nós, bastou a hesitação para eu possuir todo o ar do mundo destinado a você. Eu escolhi não responder porque quis ser dono de seu chão, da fundação daquilo em que você tinha se tornado ao longo do tempo, e tomá-lo de você por um segundo. Quando consegui, o que quis foi devolver tudo, como se nunca tivesse feito aquilo. Como se eu pudesse quebrá-la, um vaso ou uma escultura, e reconstruir com os cacos outra coisa que não disfarçasse as rachaduras. Como se me transformando em seu pesadelo, fizesse em seu desespero outra realidade para a qual você acordaria.

Não é tão maluca a ideia de membros-fantasmas — aquelas pessoas que têm sensações em partes do corpo que foram amputadas — quando você pensa que, no denominador comum, partes nossas que não estão mais presentes podem sim machucar ou fazer rir ou nos impedir de andar.

Quando soube que minha mãe precisaria de um par de cirurgias nos olhos se quisesse ainda ter chances de enxergar, lembro que minha única e indizível pergunta para o médico era “Ela vou poder chorar?” porque eu tinha acabado de receber boas e más notícias e precisava dá-las o quanto antes. As incisões seriam feitas pelas pupilas, à moda antiga, apenas com anestesia local, pois qualquer sono profundo poderia alterar a posição do globo ocular e aí sim tudo estaria perdido. Até hoje não consigo imaginar ironia maior para deixar claro que é imperativo olhar apenas para o que não se suporta.

“Apenas nos meus pecados” é o que eu respondo quando me perguntam se sou religioso. Foi naquela mesa que eu entendi isso. Desde então eu venho bocejando meus demônios, dando a eles o controle do meu tédio. Não é uma questão de sadismo ou de reduzir qualquer coisa às expectativas da minha vaidade — tudo passa pela peneira, de uma maneira ou de outra, se você insistir bastante. É nada mais que um truque que eu inventei para sobreviver. Vai ver o que eu queria naquela mesa era desatar de vez um nó, e para isso era necessário atravessá-lo com uma agulha. Pouca coisa escapa ao próprio sangue, e o que não escapa é preciso ser levado a isso, como naquela peça em que golpe após golpe um dos atores revela o motivo do espetáculo, dizendo que “a humilhação é o caminho mais curto para o coração de um homem”.

Aceitar a felicidade como pecado quis dizer, para mim, que para alcançá-la é preciso trilhar seu caminho inverso. Foi como passei a crer em reencarnação, por exemplo, ao colocar os pés em meio à miséria: seriam essas, aqui, suas únicas chances de experimentarem a vida?

Lembro quando a casa de um amigo foi roubada e num primeiro momento, ainda em choque, ele só conseguia pensar “Por que eu?”, dando à sua própria história o poder de separá-lo do mundo onde a tragédia é uma loteria. Horas depois ele era outro, sem rancor ou tristeza, disposto a reconstruir o que lhe tinha sido tomado.

Por mais difícil que tenha sido para mim não dizer nada, foi melhor não tê-lo feito. Foi preciso que o tempo ficasse em suspenso ali, naquela mesa, para que reaprendêssemos, ambos, a dar com a vida nos eixos ao assumir que não havia mais nada a sustentar. Foi o suspiro, enfim, e abaixo foram todas as cartas do baralho.

Ela me contou que na mesa de cirurgia continuou enxergando depois do colírio que anestesiou seu olho. “O mais impressionante foi que, uma vez começado o procedimento, eu não conseguiria desviar o olhar nem se quisesse”. O medo da dor e do que viria depois não se comparam ao que realmente aconteceu. “Fica parado, lindo, que agora eu quero te ver direito”.

Cada demônio — agora, com os olhos fechados, reconto um a um — foi um pingo de contraste. Era preciso ter para cada um uma xícara a mais no armário, e servir-lhes o que fosse em vez de ignorá-los. Olhar para cada um e sentar-me com eles. Quis eu consertar meus olhos quando achei que estava alucinando. Às vezes vejo coisas rastejando e vultos quando não presto atenção, e não encontro nada quando me viro. Começo a enxergar melhor, talvez, e a vida vai recomeçando diferente.

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