"Anunciantes e agências dão primeiros passos na inclusão étnico-racial" | Ian Black

Na edição de número 1.774 da revista Meio & Mensagem (21 de Agosto de 2017), existem fotos de 91 pessoas, entre profissionais de propaganda e suas peças (excluí aqui fotos de multidões e fotos da matéria de capa). São 89 rostos brancos e 2 pretos (Elza Soares e um apresentador de TV que não é identificado). Na seção “Gente”, que destaca contratações do mercado, dos 14 profissionais que aparecem, 12 são homens brancos e apenas 2 mulheres brancas. Recentemente o Ricardo Sales levantou que das 2 CENTENAS de colunistas do Meio & Mensagem (reforçando, o maior veículo do mercado publicitário no Brasil), Ana Cortat, mulher e preta, é a única pessoa que destoa do padrão.

O mercado publicitário tem responsabilidade imensa e inegável na construção dos padrões estéticos e comportamentais no país. Logo, não é nenhum exagero atribuir ao mesmo a responsabilidade pelo reforço dos estereótipos negativos e na destruição da auto-estima de mais da metade da população.

E não posso deixar de mencionar que o mercado de agências de publicidade — um mundo de exceções, onde os salários extrapolam de forma vertiginosa a média nacional — a presença de profissionais pretos é quase nula. Se contarmos apenas os cargos de liderança, o “quase” desaparece. Os processos de contratação, que limitam-se a buscar candidatos dentro de universidades de elite e em grupos associados aos profissionais que já atuam nas agências, apenas reforçam esse cenário.

Por outro lado, a internet possibilitou às pessoas de todas as cores e classes um poder de alcance e força suficientes para que essa verdade — incômoda de ambos os lados, mas por motivos distintos — viesse à tona de forma que é impossível nega-la ou ignora-la. Mais importante: as pessoas não estão mais dispostas a esperar mudanças que não tenham a velocidade de suas necessidades e anseios.

Essas pessoas estão cansadas de migalhas. E quando digo migalhas, me refiro às campanhas publicitárias que mostram pessoas pretas aqui e acolá, quase sempre de forma tímida, em posição de coadjuvantes, como exceções, como minorias, como se o Brasil tivesse a mesma porcentagem de pretos que os EUA (país onde pretos aparecem muito mais em lugares de destaque, mesmo esses representando apenas 14% da população). E não vou me estender, mas também não posso deixar de falar das peças que são feitas com a nobre missão de questionar ou acabar com o racismo, mas com a intenção leviana de ganhar prêmios no Festival de Cannes.

Pois, para voltar ao foco do que realmente importa, relembro o que disse Regina Casé, numa conversa informal em que também estavam presentes o já citado Ricardo Sales, Raphaella Martins Antonio e Filipe Techera: Se a população preta é de 54%, não podemos aceitar menos que isso quando falamos da ocupação nos espaços de prosperidade — agências e anunciantes.

Ou seja, galera: pessoas pretas não querem apenas aparecer nas campanhas. Pessoas pretas não vão se sentir ~empoderadas~ só porque agora seus pares estão mais frequentes (porém ainda raros) nos intervalos comerciais. A real é que pessoas pretas querem ganhar dinheiro e ter acesso a todos os privilégios que ajudem a proporcionar uma vida digna e com mais chances de realizar sonhos para a presente e as futuras gerações. E isso só vai acontecer ocupando e normalizando todos espaços que quase sempre se mostram inacessíveis (em agências, empresas, restaurantes, aeroportos e parlamentos). Só assim o preconceito e o racismo e todas as violências vão diminuir até desaparecerem por completo.

A matéria de capa da Meio & Mensagem, onde apareço em destaque junto com a Nubiha Modesto e o Pedro Bala, ganhou um reforço no mesmo dia: os dois pés no peito em forma de keynote feito pela Letícia Guedes e Vagner Soares (aqui). Ambos são recados claros que o mercado precisa mudar e mudar rápido. Não só por uma questão de justiça social, mas por uma questão de sobrevivência. Para construir a diversidade cognitiva necessária para se manter culturalmente relevante no presente e às pessoas que o moldam.

Já passou da hora de pessoas como Daniel Sollero, Aquiles Borges, Daniela Carlos, Raphael Bispo, Caio Baptista Antonio, Thyza Ferreira, Samuel De Paula Gomes, eu e outros poucos sermos as fabulosas exceções, os ~cases de sucesso~, a matéria prima para matérias de revistas e campanhas fantasmas e tantas outras coisas. A pergunta agora é: Como OCUPAR e NORMALIZAR?

Iniciativas para isso não faltam. Pessoas (dentro e fora das agências) dispostas a colaborar para mudar isso não faltam. E é sempre bom lembrar: embora o destaque aqui seja a diversidade racial, essa busca pela verdade e pela igualdade só pode ser realizada de forma plena se no mesmo barco tivermos as pessoas trans e todos os outros grupos que têm o seu acesso à prosperidade dificultado.

Esse post não tem a intenção de apontar culpados, mas de oferecer abertura para o diálogo para a prosperidade mútua.

Que todos os seres possam ser livres. Que todos os seres possam viver em paz.


Ian Black,

Sócio e Diretor de Negócios da New Vegas.

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