Como definir o propósito da minha empresa?

Esse documento serve como complemento ao vídeo acima e serve para apoiá-lo na definição do propósito da sua organização. Tudo o que trago são sugestões a partir de minhas referências e vivência. Por isso sinta-se à vontade para ignorar qualquer coisa e fazer da forma que faz mais sentido para você e sua organização. Seria uma pena você levar isso aqui como um manual ou mapa, afinal a jornada empreendedora é mais gostosa na medida em que vamos botando nossa cara nas coisas =D

Onde?

Na minha experiência faz sentido definir seu propósito fora do ambiente de trabalho usual, de preferência perto da natureza, sem interrupções das operações do dia a dia (celular desligado com combinado entre o grupo sobre uma hora que todos poderão checar o que está acontecendo “no mundo lá fora”).

Quem?

Ideal com um facilitador externo para possibilitar que todos possam participar integralmente da concepção e não ter que se preocupar com tempo, conciliação de vozes dissonantes, intervalo, comida, logística, etc.

Você pode convidar só os sócios, a equipe toda, ou até mesmo incluir fornecedores, clientes e comunidade no entorno da empresa. Tudo depende do grau de maturidade e abertura que você sente que sua organização tem.

Como?

É claro que dependendo da organização e seu momento, o fluxo desse dia pode variar muito, desde começar direto na dinâmica, até ter a dinâmica precedida por uma fala de alguém da organização ou até mesmo fazer dessa dinâmica parte de um dia maior onde outras coisas serão discutidas/definidas/vividas, como um planejamento estratégico por exemplo.

A sugestão que faço para o momento de definição do propósito que me parece simples o bastante para você conseguir fazer sem muita experiência prévia (e fácil o bastante para você adaptar para sua realidade) é:

  1. Todos sentam em uma grande roda já com barriga cheia e tendo interagido um pouquinho. Importante que haja um tempo livre antes disso, pode ser o início do dia ou depois de um intervalo.
  2. Se você quiser, puxa uma dinâmica de quebra-gelo ou chegada. Pode ser uma pergunta do tipo: “qual seu sonho para o dia de hoje?” ou “conte um fato sobre você que ninguém aqui sabe” ou até mesmo “o que no mundo mais faz seu olho brilhar?”
  3. Contexto: vale fazer uma introdução sobre por que vocês estão definindo um propósito. Deixar claro que o propósito evolui, pode mudar e já agendar uma data (pode ser “daqui a 6 meses”) para revê-lo. Importante tirar dúvidas, mas não deixar as dúvidas cansarem, às vezes as pessoas fazem perguntas que não vale o investimento de tempo e escuta do grupo de responder. Nesses casos o facilitador pode perguntar se a pessoa está ok em botar a pergunta no “estacionamento de perguntas e ideias” e caso ela não seja respondida até o final do dia, ele a endereça ao fim. É importante esse agendar uma data para rever para deixar claro que o propósito não é algo que será escrito em pedra para sempre. Será o melhor trabalho que puder ser feito naquele momento até que haja outra oportunidade para fazê-lo novamente, e essa oportunidade virá depois de viver um pouco com as consequências do que se definiu, para experimentar ter uma resposta concreta.
  4. Agora sim começam os trabalhos de verdade! Reflexão individual para participantes escreverem em post-its:
    I) A que objetivo maior nossa organização serve ou tem vocação para servir? ou;
    II) Que problema no mundo é uma dor muito grande e nossa organização tem vocação para resolver? 
    III) O que é um futuro desejável para você? De que maneira nossa empresa pode contribuir para esse futuro desejável?
  5. Compartilhamento: Todos leem suas reflexões individuais e colam na parede após leitura.
  6. Se você quiser, aqui você pode fazer um exercício de agregar respostas parecidas, se não já pula pro próximo!
  7. Reflexão individual: tendo em vista o que foi dito e sentido, como você resume em poucas palavras o propósito que emergiu entre nós?
  8. Compartilhamento: Todos leem suas propostas de propósito e colam na parede.
  9. Definição do propósito coletivo: bota um papel A3 no meio da roda com uma caneta. Defina um tempo (pela minha experiência pelo menos 30min, dependendo da quantidade e vibe das pessoas até 90min ou mais) para a dinâmica acontecer. A dinâmica acontece da seguinte maneira: todos em silêncio, atentos ao outro e ao centro do círculo, exercitando a confiança no coletivo. Alguém começa (livremente sem definir quem), vai ao papel, pega a caneta e escreve uma proposta de propósito. Volta pro seu lugar e entrega a caneta para a pessoa ao seu lado. Essa pessoa lê o propósito escrito no papel e escolhe: ou ela deixa como está e passa a caneta para a pessoa do lado, ou ela altera alguma coisa no propósito e passa a caneta para o lado, ou ela risca tudo, escreve outro propósito totalmente novo e passa a caneta para o lado. O importante é que ela passe a caneta para a próxima pessoa e que no papel esteja escrito apenas uma proposta de propósito. A próxima pessoa fará o mesmo, e a caneta vai girando. Dessa maneira haverá sempre um propósito escrito no papel. O propósito está definido quando todo mundo ao pegar a caneta não faz alteração nenhuma e passa ela para o lado (ou seja passou por todos e ninguém alterou nada) ou quando o tempo acaba. E se o tempo acaba, está valendo o propósito que ali estava por último.
  10. O facilitador lê em voz alta o propósito definido e relembra quando ele será revisto.

Observações e dicas:

I) Vale convidar os participantes a praticarem uma linguagem apreciativa. Quando uma pessoa diz “acabar com a pobreza” o que ela de fato quer? Pobreza é o que ela não quer. O que ela quer? Empregos dignos para todos? Segurança alimentar e física? Esse é um exercício muitas vezes bem difícil!

II) É importante que o propósito seja inspirador, memorável e memorizável. Geralmente isso passa por (mas não se restringe a) ser muito conciso. Um teste para saber se ele é bom é algumas horas depois dele ser definido ou no dia seguinte perguntar para as pessoas o que foi definido. Se todos lembrarem, parabéns! Trabalho bem feito! :) … Outra maneira de ver se esse propósito é específico o bastante é tentar mapear o que deixa de fazer sentido vocês fazerem, que projetos engavetados vão ser deixados para trás a partir do momento que esse propósito é definido? Se tudo cabe nele, ele possivelmente não norteia o trabalho, mas é uma embalagem bonita para dizer um monte de coisas.

III) Nessa proposta de fluxo que dei houve muito pouco contexto. Há um montão de coisas que você pode pensar antes de começar a primeira reflexão, como por exemplo pedir para as pessoas lembrarem na roda quais os momentos trabalhando na empresa em que eles sentiram que era o trabalho mais valioso que eles estavam fazendo como pessoa e empresa e por que, ou trazer os resultados do ano e fazer um grande apanhado de lições aprendidas (o que aconteceu e não aconteceu e foi bom/ruim para nós), vocês podem tentar mapear que o o mundo está tentando dizer para a empresa sobre sua vocação como empresa. É importante aqui entender quão pronta as pessoas ali estão para cair dentro do exercício. Às vezes fora do encontro muita conversa já rolou e o pessoal está pronto para meter a mão na massa. Às vezes é preciso arar a terra, soltar a imaginação, dar contexto. Já vi inclusive apresentarem as ODS da ONU para ajudar a trazer essa frequência da transformação, de trabalhar por um bem maior.

Exemplos:

Fiquei na dúvida de compartilhar ou não exemplos com relação a esse tema, pois eles dificultaram muito quando me propus a pensar a partir de uma página em branco. Minha mente rapidamente ia comparar o que fizemos com o que já conheço e isso impactou os processos pelos quais passei. O que importa é que faça sentido para vocês, não que fique parecido com o de outra empresa. De qualquer maneira, para quem quiser se arriscar e ler o que algumas empresa já definiram por aí, segue abaixo. Vale dizer que (I) alguns desses podem estar desatualizados (II) não é porque estou botando aqui que eu assino embaixo o trabalho que está sendo feito por elas em nome do seu propósito e (III) algumas delas chamam isso de missão, outras de compromisso social, entre outros.

Brownie do Luiz: Alimentar felicidade através do empreendedorismo consciente
Zappos: Proporcionar o melhor atendimento ao cliente possível
Google: Organizar a informação do mundo e torná-la acessível e útil
Guayaki: Cuidar e regenerar 200.000 hectares de floresta, criando 1.000 empregos com salário mínimo real até 2020 (um propósito com cara de visão/metas!)
Mercur: Unir pessoas e instituições para criar soluções significativas para todos
Buurtzorg: Ajudar idosos e doentes a viverem uma vida com significado e mais autonomia
Perestroika: Transformar o mundo num lugar mais criativo, subversivo, sensível e do bem

E o seu, como ficou? ;)

Abraços empreendedores, estamos silenciosamente mudando o mundo.


Guilherme Lito,

sócio do Brownie do Luiz — negócio carioca que tem a missão de gerar felicidade através da economia criativa, sustentável e colaborativa. Engenheiro de Produção envolvido em projetos de sustentabilidade em escolas, consultorias e aulas, trabalhou com mais 100 empresas e resolveu focar em estudar e viver os novos paradigmas econômicos e sociais. É professor de vários cursos na Perestroika.