Criatividade: nada além de fluxo

Eu sempre questionei de onde a criatividade vem. Qual foi o insight que criou nas pessoas essa capacidade de resolver problemas através da empatia? Aliás, antes de qualquer coisa: acredito que criatividade é a forma com que você se relaciona com um fato/evento, a forma com que nos relacionamos com o mundo, é só uma questão de ponto de vista. Sou criativo por enxergar em quase 100% das coisas uma forma mais fácil de resolver. Mas um ponto: criatividade não está ligado à facilidade, a distância entre alguém criativo e alguém não criativo não é tão maior que a frase “puta, que sacada”. E daí é que surge essa relação: saque mais.

Eu também acredito que criatividade não é um dom. Mas, antes disso, vale se questionar: o que é dom? No dicionário, uma dádiva natural. Já que pra muitos essa facilidade pra dança é dom, a aptidão com o design pode ser dom, a facilidade de criar e por aí vai. Mas até quando isso está ou não ligado à dom? Eu só acredito em dom, se dom for aptidão, fora isso dança é técnica, futebol é técnica e criatividade é técnica. Claro, eu posso ter mais tesão em jogar que em lutar e ,assim, posso ter um caminho mais curto (ou nem tanto), a gente cria à medida que se relaciona.

Baseado nisso, como chegar em um estado em que nos encontramos em fluxos intensos de relações, em outras palavras: onde está a criatividade? Se levarmos em consideração que criatividade é evoluir olhares e relações, ela está na forma que nos vemos dentro daquilo. Por exemplo, onde você imagina um comercial de cerveja? Na praia, no bar, num churrasco com os amigos? E quem são os personagens desse comercial? A garçonete, a ex, um jogador de futebol? Eles são óbvios demais, e por isso não resolvem problema algum. Questione novos lugares, novos personagens e crie só com esses vértices novas histórias, mas lembre-se: procure a “puta sacada”.

Eu sempre acreditei que essa “puta sacada” é um presente divino, é o resultado de um excêntrico estado de fluxo, quando tudo deu certo, e pra completar Deus diz: “esse mereceu, toma uma sacada” e assim a magia acontece. Essa tal “sacada” é a convergência de um processo criativo. Mas, e aí, o que é o fluxo?

Uma série de pesquisas indicam que nós usamos entre 8% e 19% do cérebro por momento, por mais que 100% dele esteja disponível. Provavelmente, agora você esteja se questionando como se pode aumentar essa atividade cerebral momentânea, mas a ideia é pensar o contrário: como diminuir essa atividade cerebral a fim de entrar no “flow state” ou “estado de fluxo”?

O Estado de Fluxo é uma teoria cunhada por Mihaly Csikszentmihalyi depois de entrevistar dos criativos aos, ditos, não criativos ao redor do mundo, o objetivo da pesquisa era encontrar o melhor estado para se produzir. Na real, o melhor momento para nos relacionarmos com o mundo. Você já se pegou tentando estudar/entender uma matéria que você odeia por horas? Ter de escrever um artigo sobre um tema que você nunca leu para entregar num prazo de 24h? Ou mesmo presenciar um assalto, ou um acidente? O mundo para. É incrível como minutos se tornam horas, tudo em câmera lenta. Agora vamos pensar em um exemplo contrário: escrever um texto sobre um momento puta feliz, organizar o feed do instagram, ver uma série que por muito tempo você quis ver. O tempo é pouco. E tudo passa numa velocidade descontrolada. Se você se viu em qualquer uma dessas situações você já viveu o Estado de Fluxo. E isso tudo acontece devido à redução da atividade cerebral. O que também diminui é a autocrítica, por exemplo, e, no quesito produzir, o julgamento é o maior inimigo da execução, e logo, do aprendizado.

Tá. Técnico demais, não? 
Pra pirar um pouco mais nisso, vale ver o Ted do Csikszentmihalyi (http://bit.ly/2p2LtXT), é uma imersão irada nesse processo.

A gente chegou até aqui pra começar a dizer sobre o nosso processo de tentar criar esse “flow state” alheio. Isso acontece através do Fluxo: o novo curso de criatividade da Perestroika, uma imersão para ampliar olhares, percepções individuais e criar fluxos criativos, com ferramentas e referências. E melhor que dizer o que ele pode ser, é contar como foi a primeira edição em Belo Horizonte.

Viramos oficialmente uma Love Branding. Por que? Temos 18 alunos com o logo do Fluxo (ou a caligrafia) tatuados pelo corpo. Temos duas possibilidades para que isso aconteça: A primeira é “dizem que na Perestroika tem cerveja liberada em algumas aulas”, e essa eu já adianto que não, não tinha ninguém louco por lá. A segunda possibilidade surge quando começamos a entender o que aconteceu: no Fluxo e na vida das pessoas que fizeram ele ser esse fluxo infinito.

Pensar o fluxo foi acreditar que a criatividade vem de uma mudança consciente de modelos mentais, muito além de ferramentas e processos. É o cruzamento de habilidades e desafios. Começamos entendendo que ser criativo é resolver problemas e só pode se resolver problemas, se você os compreende. Além disso, só é possível responder algo gerando ideias e para se gerar boas ideias, é preciso deixar que algumas ruins cheguem, mas é importante saber separá-las e gerar bons insights e “to dos” para esse arsenal infinito de post-its. Já com essas habilidades injetadas, é hora de levar desafios e referências, pessoas que estão em frequente estado de fluxo ou na constante procura dele. À partir daí, é necessário criar o seu.

Um laboratórios de fotógrafos, grafiteirxs, jornalistas, engenheirxs, influencers, advogadxs, donos de grandes marcas, designers, publicitários, criativos em geral e não criativos. É ajudar a reconhecer e criar fluxos únicos/próprios/genuínos. É daí que vem a potência da criatividade. Um momento de olhar para relações, com um pensamento mais empático, horizontal e menos padronizado. Procurando outros fluxos e criando novos repertórios: uma forma ainda mais fácil de se relacionar de um novo jeito. O como importa. E como você pode alcançar mais da sua criatividade?

Esse “flow state” é o ponto de partida para uma imersão, mas referências, histórias e relações são elementos indispensáveis para que ele continue. Criatividade é quase sinônimo de felicidade, e felicidade tem tudo à ver com sensibilidade: a questão é sentir. Sentir o Fluxo.

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O Fluxo já tem datas marcadas para São Paulo e Belo Horizonte em 2018. Procure saber. 
Para mais informações: http://bit.ly/2ImzuMQ

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Cleu (@cleudibilidade) é curador do Fluxo. Além de Diretor de Whatever da Perestroika.