O não-feminismo está permitido (mas só porque o feminismo permitiu)

Ser feminista permite que a mulher seja o que ela quiser. Mas talvez o que ela queira não seja feminista.

Abri os olhos 10h da manhã de sábado e imediatamente percebi que tinha esquecido de acordar cedo no horário de Brasília para ver, com mais meio mundo, o casamento da atriz americana, divorciada e filha de mãe negra com o príncipe barbudo do Reino Unido (que só vai ser rei se uma tragédia federal se abater sobre a família e exterminar Queen Beth, a Imortal, Charles, o Tampax, William, o Careca, e sua prole, os Fofíssimos).

Só me restou a internet para ver os vestidos, descobrir que as ex de Harry foram no casório, ouvir o coral estilo Harlem cantar Stand by me. E descobrir também a ferrenha briga entre quem defende o feminismo de Meghan — cujo casamento foi fora dos padrões da realeza — e quem a acusa de falsa feminista, já que casou de branco, abriu mão de ter redes sociais e provavelmente deixará a bem-sucedida carreira de atriz.

A resposta é: está todo mundo certo (ou errado, mas prefiro ser otimista).

O feminismo permitiu que as mulheres pudessem fazer escolhas. Mas nem todas as escolhas serão feministas. E tudo bem, é possível eventualmente ter atitudes não-feministas e se considerar uma — não é uma prova da OAB.

Casar de branco na igreja é mais que um sonho ou uma festa: é uma instituição que garantiu um dia que a mulher se tornaria uma propriedade submissa ao marido; o branco, o símbolo da virgindade da moça.

O casamento, per se, é uma instituição historicamente machista. Em uma reportagem de 2016 do El País, a repórter conta que, numa cidade da Bulgária, todos os anos há um mercado de esposas. Meninas são enfeitadas por suas mães — e não estão sendo forçadas em sua maioria, elas vão ansiosas — aguardarem ser escolhidas. Isso é 2016 e não há notícias de que tenha acabado. Quantos homens são julgados por serem solteiros? E quantas mulheres?

Abandonar a profissão por causa do casamento, adotar o sobrenome do marido não são atitudes feministas na sociedade em que vivemos — se houvesse uma proporção similar de homens e mulheres que tomassem essas decisões, poderíamos encará-las como meras escolhas neutras. Mas quantos donos-de-casa com o sobrenome da esposa você conhece? Por quanto tempo isso foi obrigatório para as mulheres?

Você pode dizer que todas essas assertivas sobre o casamento foram ressignificadas ao longo dos anos, ninguém mais casa virgem, o padre da festa em geral é um amigo e o branco é só porque fica bonito, porque é um sonho de princesa, porque ninguém tem nada com isso. E você tem razão. Ninguém quer impedir você. Mas tenha em mente que provavelmente não é um ato feminista.

POR QUE DIABOS ainda queremos que alguma mulher na terra almeje ser princesa? Isso não deveria ser desimportante? Afinal, as chances são tão grandes quanto meu filho conseguir realizar seu sonho: quando ele crescer, quer ser um Transformer. Eu tento não encorajar (“filho, os Transformers não existem de verdade”), assim como diria a uma filha que também princesas não existem fora dos contos de fada — e de insituições anacrônicas.

Sonhe, case, vista branco, troque de sobrenome: você é livre. E, sim, agradeça ao feminismo. Ele permite que você seja livre para fazer as escolhas que quiser. Mas algumas serão contraditórias. E tudo bem. Quem não é?