O voto anti-sistema

Trabalhei na Perestroika por três anos vivenciando um discurso e uma prática mais criativa, subversiva, sensível e do bem. Hoje, às vésperas de um segundo turno tenso e denso, me dói pensar que parte do que produzi e endossei, de alguma forma, possa justificar algum voto na candidatura com a qual discordo tanto e que, até agora apontam as pesquisas, vencerá a disputa a presidente.

Digo isso porque tenho identificado cada vez mais um voto “anti-sistêmico“ nessa candidatura e queria registrar como, e porquê, não vejo sentido nisso. Não faço isso tanto com a esperança de que o resultado dessas eleições seja diferente (mesmo que o jogo só acabe quando termine) e sim com a esperança de que o discurso e a prática de quem quer inovar e construir novos sistemas seja, pelo menos aqui, nessa nossa rede, condizente no plano político.

Pois bem, na Perestroika falamos muito que o mundo mudou, que novas relações pessoais e profissionais estão presentes e vieram pra ficar, mas que ainda não vemos isso plenamente refletido em nossas vidas. Ouvi muito sobre o interregno, essa ideia mais complexa de que os poderosos das antigas gerações já estão perdendo o poder, mas que os aptos das novas gerações ainda não estão prontos para assumir. Aqui estaríamos em um período de espera entre dois mundos, confusos e desidratados, mas, ao menos, com a esperança de que a mudança venha. Porém é preciso qualificar que movimento é esse, já que o novo não é necessariamente melhor.

Pode procurar, um mês atrás todo analista político e veículo de imprensa diria que não haveria renovação no Congresso Nacional. Diriam que nenhum dos tantos movimentos de renovação, projetos suprapartidários e novas iniciativas no plano político partidário surtiriam efeito, pois as regras eleitorais se ajustaram para favorecer quem já estava no poder. Pois bem, tivemos sim uma renovação recorde: 47,3% na Câmara dos Deputados e 85% no Senado Federal. Novos parlamentares vão habitar o Congresso Nacional, mas com quais discursos?

Em números, o partido que mais cresceu é o PSL com um discurso associado à imagem do seu presidenciável: contra os partidos tradicionais, contra a grande mídia e contra qualquer movimento social progressista.

É um “anti-sistêmico” que critica a sociedade atual com uma ótica conservadora de retomada de costumes e de segurança punitivista, mas sem especificar como minorias seriam defendidas em seu governo.

É um “anti-sistêmico” que ataca a Rede Globo e jornalismo convencional, mas não promulga informação de mais qualidade ou se posiciona claramente em relação a notícias falsas mais alarmantes.

É um “anti-sistêmico” que descredibiliza o regime político partidário ao insinuar falhas no processo eleitoral, mas esteve por anos no PP (partido mais investigado na Lava Jato) e ainda se vale do apoio do centrão.

Se queremos ver uma mudança na sociedade, não nos basta votar em quem diz que promoverá a mudança ao retomar discursos superados, criticando o óbvio e se promovendo como outsider. Uma postura anti-sistêmica madura exigirá um projeto de país com a consciência de quais velhos sistemas queremos derrubar, quais novos sistemas queremos implementar e como queremos fazer essa transição. Com um olhar de futuro e não de retomada da tradição.

Talvez, o projeto de país da outra candidatura também não lhe agrade, e eu entendo. Talvez o voto útil no segundo turno seja amargo na sua boca, e eu entendo. Sinceramente, nem pretendo afirmar muito meus próprios posicionamentos ideológicos (que são ainda mais a esquerda do que qualquer uma das candidaturas) mas quero reforçar: a meu ver, o voto no Bolsonaro não é um voto anti-sistêmico. É um voto em um congressista com 27 anos de casa, representante de uma classe política com medo da mudança e que se valeu de discursos extremos e incongruentes para capitalizar aqueles que estão insatisfeitos.

Estamos no interregno e aqui vamos ficar por algum tempo, mas se nos entregarmos a discursos incongruentes e infundados, a esperança não estará do nosso lado. Por isso, escrevi esse texto. Para convidar você, que habita essa mesma rede que eu, a não fazer dele nosso presidente. Para convidar você, que comunga dos mesmos valores que eu, pra falar abertamente sobre que sistemas queremos ver surgir em busca de um país mais criativo, subversivo, sensível e do bem.

  • Subversiva, criativa, sensível e do bem! Essa é a Perestroika