VOCÊ É UM CYBORG | Igor Oliveira

Este é o resumo executivo, a versão da sessão da tarde. O director’s cut ficaria longo demais.

Em setembro do ano passado tive a oportunidade de participar de um projeto muito irado. Uma Mesa Independente organizada pela galera da Mesa&Cadeira.

A chamada era: “Cyborgism: extra senses and the future of our species”. Ao ler isso a resposta automática do meu cérebro foi: “Gentlemen, you had my curiosity, but now you have my attention”.

Eu fui. Eu precisava ir. Ainda mais quando eu descobri que à cabeceira da mesa estariam Neil Harbisson e Moon Ribas. Dois cyborgs. Sim, dois cyborgs.

Fui sem saber exatamente o que ia rolar, mas pelo menos fiz o dever de casa e assisti todos os TEDs e palestras deles que encontrei online. No primeiro dia já deu pra sacar algumas coisas, tipo: seria um time de 17 pessoas, contando Neil e Moon; o lugar de cada pessoa à mesa não era por acaso; cada um trazia uma habilidade específica para completar a Missão; e mais algumas coisinhas.

Passada uma breve apresentação da Mesa&Cadeira, Neil e Moon fizeram uma palestra, onde foram abordados vários conteúdos dos talks que eu tinha assistido, mas também alguns detalhes a mais, atualizados e inéditos. E, logo na sequência, um Q&A.

Um por um, o time se apresentou e comentou um pouco sobre o seu background. Um time bem diversificado. Sou engenheiro, e percebi que as pessoas próximas de mim à mesa eram o “time técnico”. Além de mim, tinha outrxs engenheirxs, diretorxs de arte, estrategistas digitais, designers, empreendedorxs, publicitárixs, pesquisadorxs, tecnólogxs.

Tá, até aí tudo bem. Mas na cabeceira oposta aos cyborgs estava sentado um dentista. Sim. WTF? Resolvi abstrair naquele momento. Fomos todos pro bar, um belo catalisador social nesse caso.

Foi só no segundo dia que tomamos conhecimento sobre a Missão: criar uma forma de comunicar ao mundo o conceito e a missão do cyborgismo, através de (1) uma plataforma para informar as pessoas sobre os diferentes tipos de cyborgs e ajudá-las na jornada para se tornar um, e, (2) um dispositivo instalado na boca que estenda os sentidos e habilidades, inspirado por outras espécies.

Tudo isso para ser apresentado em um evento artístico, cinco dias depois. Lendo o número (2) dá pra entender o porquê do dentista.

Fizemos alguns exercícios para descobrir habilidades e sentidos de outras espécies que considerávamos interessantes. Discutimos, filtramos, conversamos.

No final das contas, para cumprir a Missão, decidimos que iríamos desenvolver um site, um vídeo e um dispositivo a ser instalado na boca de cada um dos cyborgs através do qual eles pudessem se comunicar sem falar e sem se enxergar.

No terceiro dia conversamos sobre como seria a plataforma, quais perguntas ela responderia, quais seriam as ideias principais. Nos dividimos em times: hardware/software/técnico, plataforma e audiovisual.

Os dias seguintes foram tensos, divertidos, cansativos e repletos de aprendizados. Senti o que é o trabalho em equipe “real oficial”. Aprendi muito e conheci um pouco melhor pessoas incríveis.

O hardware que desenvolvemos era composto de próteses dentárias móveis que tinham um pequeno botão e um motor vibratório, e se comunicavam através de rádio frequência. Quando o Neil mordia sua prótese, pressionando o botão, a prótese na boca da Moon vibrava, e vice-versa. Assim, eles podiam se comunicar à distância, sem se enxergar, através de código Morse. Sim, os dois sabiam código Morse.

Fizemos um evento artístico teatral, com vibe de happy hour, conforme previsto na Missão, para apresentar o que havíamos produzido. Aconteceu de tudo, até um fio do sistema arrebentando dez segundos (literalmente) antes de entrarmos na performance. Quando alguém da platéia escolheu uma imagem, entre diversos cartões, entregou ao Neil e, poucos segundos depois, Moon “adivinhou” a imagem escolhida sem que houvesse comunicação aparente entre eles. Percebemos que tinha dado tudo certo.

Dias depois, digeri toda a experiência.

Andy Walker, autor do livro “Super You: How Technology Is Revolutionizing What It Means to Be Human”, afirma que já somos todos cyborgs. Segundo ele, fazer uso de tecnologias que aumentam/melhoram nossas capacidades biológicas naturais para obter vantagens ou simplesmente para sobreviver já é uma forma de cyborgismo. E a raça humana já vem fazendo isso há milênios. O “Capitão Cyborg”, professor Kevin Warwick, afirma que a capacidade dos nossos sentidos naturais é extremamente limitada e os seres humanos sentem apenas 5% de tudo que está acontecendo ao seu redor. Talvez isso seja um dos motivos que nos levam a querer ampliar nossos sentidos.

Tudo isso me fez refletir sobre várias coisas, e o que mais me impactou em tudo isso foram as quatro relações que podemos ter com o cyborgismo: psicológica, wearable, biológica e neurológica, seguidas de uma reflexão final.

_Psicológica // temos uma relação forte com a tecnologia, mas em um formato onde a utilizamos. Quando seu celular tá sem bateria, você diz: “meu celular tá sem bateria” ou “eu tô sem bateria”?

_Wearable // a tecnologia é parte de nós através do ato de vestirmos essa tecnologia. Cada vez mais temos gadgets que estamos vestindo, não só utilizando. Você acha que o movimento da Apple em fazer fones sem fio é só pela “legalzisse”? Ou será que, eventualmente, não iremos nem tirar os fones?

_Biológica // existe uma intervenção cirúrgica para implantar a tecnologia em nosso corpo. Isso pode ser feito por vários motivos, mas acredito que na maioria dos casos seja para suprir uma necessidade a fim de melhorar a qualidade de vida da pessoa.

_Neurológica // a mais legal de todas. Uma tecnologia implantada em nosso corpo altera nosso cérebro. Eu não sei explicar como isso acontece, mas sei que é essa a relação que o Neil tem com a sua antena. O cérebro dele mudou de alguma forma ao longo do tempo, se adaptando àquela nova parte do seu corpo. Os sinais captados são interpretados de uma forma tão natural que é como se ele tivesse esse sentido extra desde que nasceu.

O futurista Ray Kurzweil acredita que não seremos capazes de acompanhar os avanços tecnológicos e a imensa quantidade de informações disponíveis se não estivermos fundidos com a tecnologia. Teremos que aumentar nossa inteligência através da fusão com as tecnologias que estamos desenvolvendo.

O bilionário e empreendedor Elon Musk diz que a raça humana corre o risco de ser irrelevante frente à Inteligência Artificial e que precisamos evoluir para nos comunicarmos diretamente com as máquinas. Como sabemos, Musk realmente trabalha para tirar suas ideias do papel e, nesse caso, fundou com com um grupo de pessoas uma empresa chamada Neuralink, com o objetivo de desenvolver uma tecnologia para comunicar o cérebro humano à computadores.

Existem outros observando atentamente essas questões. Um deles é o bilionário Bryan Johnson, que anunciou, em outubro de 2016, que investiria 100 milhões de dólares em uma nova empresa, a Kernel, que se propõe a desenvolver novas tecnologias para tratar doenças neurológicas. Entretanto, os desdobramentos disso serviriam para entender melhor a forma complexa como o nosso cérebro funciona e, possivelmente, construir aplicações de melhora cognitiva.

Até mesmo Mark Zuckerberg falou sobre um movimento nesse sentido que está começando dentro do Facebook: pretendem desenvolver uma tecnologia de comunicação cérebro-máquina que, no futuro, permitirá que as pessoas se comuniquem apenas usando a mente.
 
Talvez seja a hora de pensarmos em parar de sempre querer adaptar os ambientes às nossas necessidades e, em vez disso, adaptar nossos corpos para esses ambientes. Será que quando formos para Marte não seria ideal termos um corpo preparado para viver lá em vez de chegar lá e tentar adaptar o ambiente para viabilizar nossa sobrevivência? Uma frase falada pelo Neil ou pela Moon, foi: “Stop changing the environment and start changing ourselves”.

O professor Warwick diz, ainda, que trilhar o caminho da experimentação “cyborgista” biológica e neurológica é algo perigoso. Mas a cada dia que passa, mais e mais notícias sobre o assunto se empilham nos veículos de mídia, mais estudos são conduzidos nesse caminho, mais avanços são atingidos. Warwick ainda complementa dizendo que, normalmente, a raça humana diz “sim” para os avanços tecnológicos.

Acredito que estaremos cada vez mais fundidos, literalmente, com tecnologias. Isso será cada vez mais natural e frequente. O cérebro humano estará quase que diretamente — ou talvez diretamente — conectado a computadores, à nuvem. Talvez esse tipo de coisa gere um certo estranhamento e resistência no início, mas acredito que na velocidade das evoluções tecnológicas, é possível que isso aconteça num futuro não tão distante.


Igor Oliveira, canivete suíço e sócio da Aerolito.

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