Sobre o fenômeno dos trabalhos de merda
VERTIGENS
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A busca pelo lucro cada vez maior com gastos materiais e de tempo cada vez menores leva a automação de umas coisas e terceirização de outras, sendo que esta ultima cria ainda mais empregos de merda. Cada empresa tentará contratar poucos, tentará automatizar o que puder e fará funcionários trabalharem muito. Gastarão o mínimo necessário (materialmente e com salários), produzirão muito, farão o que precisarem e puderem de propaganda, tudo para vender bastante coisa. A terceirização ajuda as empresas a lucrar mais e emprega parcialmente os que são mandados para fora de outras empresas. Na prática, a terceirização se torna “cabide” de empregos de merda, mas não consegue abarcar todos os desempregados. Enquanto houver capitalismo, não importando suas variações, infelizmente vão haver empregos de merda. Uns capitalismos terão mais, outros menos, mas todos terão empregos de merda porque todos visam lucros exponencialmente crescentes e acabam tendo suas empresas automatizando, terceirizando, e assim criando uma sociedade onde cada pessoa tende a trabalhar muito. Outro desdobramento dessas coisas é fazer muita gente consumir mais que antes, mas isso não é uma escolha deliberada e opcional da gente, o que será melhor explicado adiante. Se o foco é produzir para alguém consumir (e para isso bastam poucos cérebros e mais maquinas e braços), entao os trabalhos serão de merda também porque a maioria das pessoas não terá como por em prática suas ideias e sentimentos (visto que poucos idealizam e criam o que querem, e a maioria apenas segue instruções com maior ou menor grau de precisão). Trabalhando mais, cada um precisa dos serviços e produtos que lhes poupem tempo na vida pessoal (pet shops e passeadores de cachorros, produtos como comida pronta e assim vai, sendo que cada atividade economizadora de tempo destas realmente se torna cabide de empregos de merda, em um processo minimamente semelhante ao da terceirização). O que me surpreende é o autor responsabilizar “sutilmente” as pessoas por seu próprio consumismo, como se isso fosse algo deliberado (e não predominantemente um condicionamento bastante complexo, que envolve inclusive, mas não somente, estudos de publicidade, psicologia e investimentos milionários). Só seria justo responsabilizar uma pessoa pelo seu consumismo caso ela tivesse consciência razoável dos truques que tentam contra ela, das fragilidades emocionais que a predispõe ao consumismo e caso ela tivesse condições materiais mínimas de reagir criando condições mentais melhores para deixar de ser consumista caso quisesse. E a maioria não está em tais condições. Talvez o desdobramento seguinte deste tipo de texto, tão apelativo ao indivíduo, seja falar em uma mudança do indivíduo, e não em grandes mudanças sociais. Ultimamente tem até quem fale em revolução do invidíduo e não em revoluções sociais… Mudar a si faz parte, mas não abala estruturas macroeconômicas que criam empregos de merda.

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