“Sonhos”, de Akira Kurosawa

Um momento único é capturado no primeiro sonho de Kurosawa: sol e chuva; uma oposição evidente, mas, acima de tudo, uma oposição possível. Obviamente também, trata-se de um rasgo no fundo da vida cotidiana: toda oposição possível é uma quebra da normalidade, do esperado, do comum. Quando estamos ainda tomados pelo êxtase desses pensamentos e imersos neles, como acontece na infância, quando as oposições possíveis ainda não são norma, surge o tabu, ou, nas palavras de Goethe, o sagrado segredo aberto: “Fique dentro de casa. Está fazendo sol mas chovendo. As raposas se casam quando faz sol e chuva. E elas não gostam que ninguém as veja. Se você as vir, elas ficarão muito bravas”. Que fazer diante disso? É algo aterrador, mas também mágico, e a curiosidade é consequência não do desconhecido, que pode ser aterrador e tenebroso, mas do poder por trás desse conhecimento e dessa visão. Este é também o sentimento que causam a floresta e o bosque, arquétipos da fantasia no sentido de representação, assim como a caverna, o lago e a montanha mágica. Não era sob as árvores do bosque em Nemi que o rex nemorensis guardava seu valioso e libertador mas também terrível sacerdócio? Dentro do bosque, vemos então algo que se manifesta: formas familiares entre a fumaça. E uma música… Um tambor. E mais formas, cores — um homem. Uma fileira de homens e mulheres. Todos surgem e aos poucos começam a se movimentar de forma rítmica. Executam algo como uma marcha nupcial. Liderados por dois homens, atrás destes vem o casal principal. Todos usam “máscaras” — mas por quê? Talvez o título de kitsune dado a uma família sagrada se pareça com o título dos Eumólpidas, cujo antepassado foi Eumolpo, “o de belo canto”, e que era tido como um cisne, ser do lago, além do homem de onde vêm os Célidas, Celeu, “pica-pau verde”, criatura do bosque, outro rei de Elêusis; e devemos nos lembrar que tal máscara também se transfigura no fato de que os nomes dos sacerdotes nunca deviam ser mencionados. A oposição aqui entre todos os elementos também é evidente, mas em especial a do principium individuationis dissolvido. Que o que vemos é um espetáculo, e é nesse sentido que a catarse da tragédia e do teatro se opõe ao καθαρμός da experiência mística: neste, a purificação se dá antes e durante o ritual, naquele, apenas depois do espetáculo. Mas falamos aqui em ritual também, e um ritual aberto, no bosque, embora para poucos iniciados. Porém, há no casamento sagrado algo de contraditório: a sexualidade inverte seus polos, e o filho não é um fim. É desse modo, por exemplo, que o casal sagrado, o ἱεροφάντης e a ἱερόφαντις, resguardam a castidade por toda a vida. Entretanto, se tudo desemboca nesta contradição, como é possível continuar a expressão? Talvez entre aqui a figura do menino divino, que é sempre abandonado nos lugares sagrados (o bosque, o lago, a montanha e a caverna). A esse menino se oferecem perigos — e talvez venha daí a necessidade do tantō não para que cometa o suicídio, mas para a proteção na floresta. Além disso, a dança mostra que todos ali buscam algo, mas como caçadores que querem surpreender uma presa na armadilha. E talvez tenham encontrado: o menino primordial, que deve ser enviado novamente à floresta para sua própria iniciação.