Letícia Domingues
Jul 22, 2017 · 2 min read

Quem pensa demais fica louco, minha mãe dizia. Eu devia ter ouvido ela e seguido esse conselho mas eu sempre fui rebelde e rebeldia resulta em ceticismo que desencadeia em curiosidade e busca por respostas concretas sobre qual é o real sentido da vida, respostas que eu achava que encontraria como o resultado de uma equação e mesmo que complexa de elementos traduziria em nomenclatura a questão existencial.

E então vivi muito vivi vastamente sempre aprendendo e observando tudo a minha volta no anseio de em algum momento numa percepção certeira em algum lugar e alguma hora a fórmula mágica do existencialismo meu e universal finalmente se revelasse.

E nessa busca questionei e reformulei minhas concepções de tempo e espaço, e sobre o que chamam de deus, e sobre a fé que creditam a ele, e sobre mim mesmo, e sobre tudo que você possa imaginar e a coisa mais sensata que conclui foi reafirmar Bukowski, o inferno são os outros.

Aqui ou na China pessoas irão nos acometer em todas as esferas de relações imagináveis, você foge de problemas com a família e se afoga em outros com mulheres que você vai encontrar e vão suprir a carência do afeto maternal de uma maneira doce e avassaladora, e depois que passa você encontra um ombro amigo que em algum momento por algum motivo vai te apunhalar pelas costas, às vezes por causa daquela maldita doce e avassaladora mulher, e então você se vê sozinho, desconfiado e embriagado e cai no mundo se aventurar mas uma hora as relações de estranheza com desconhecidos cansam e então você volta pra casa e no início da sua volta você é acalentado mas logo os velhos problemas voltam à tona porque são as mesmas pessoas convivendo intensamente e nada no mundo é capaz de romper esse laço sacramentado, então você volta ao mundo, as mulheres, aos amigos, a você mesmo e quando se depara novamente frente à frente com sua consciência vê que a questão só ficou mais confusa e insolúvel e então isso é existir, um constante e incontrolável caos e a gente é só uma folha em volta do redemoinho tentando se agarrar a nada e se salvar sabe se lá do que, talvez de nós mesmos, estamos condenados a essa pena de tolerar emocional e racionalmente as questões universais que atormentam nosso coração, perpetuamente e não há fuga que de conta exceto da própria vida, alguns persistem outros não, independentemente do desfecho todo mundo sofre hiatos em que a vida fica intolerável e nesses momentos o mundo espera mais do que nunca que tenhamos paciência e esperança, mesmo que naquela reformulação conceitual que houve na juventude rebelde esses termos não façam mais sentido é preciso resgata-los e torná-los remédios pras nossas dores mais indomáveis.

    Letícia Domingues

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    É só um eu lírico magoado e despretencioso

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