Vamos Falar de Zica

Ou: a arte de repetir a história

Disclaimer

Eu não sou Petista.

Acho bem tosco começar um texto dando disclaimer, e sobre partidarismo. Mas vivemos em tempos toscos, em que se você não ataca com paus, pedras, bomba atômica e o que mais tiver à sua mão o partido X, é prova que você é partidário de X.

Dito isto, podemos voltar ao assunto do texto. Que é, desculpem o trocadilho involuntário, zica.

Mas Antes, Um Minuto de História

Era o ano de 1904. A capital do Brasil era o Rio de Janeiro, e Rodrigues Alves era nosso presidente, o 5o de uma república ainda bem jovem. Estávamos no auge do ciclo da borracha, e o país era responsável por cerca de 97% da produção mundial, o que permitia nossa economia navegar em águas calmas.

No campo da saúde, entretanto, não íamos tão bem. Se hoje saneamento e higiene no país são problemáticos, imaginem no início do século XX. A capital se via às voltas com febre amarela e peste bubônica. E eis que veio uma epidemia de varíola. Nos 5 primeiros meses do ano já eram 1800 pessoas internadas no hospital de isolamento São Sebastião.

Jä naquela época contávamos com nosso conhecido hábito de nos colocar como agentes passivos da nossa própria vida. Então, quem era o responsável por erradicar a varíola?

O Governo, claro.

E quem seria o culpado se o surto se alastrasse?

O Governo, oras! É pra isso que pagamos nossos impostos!

Acontece que vacina contra varíola já existia, e distribuída pelo Governo. E já era obrigatória a vacinação das crianças desde 1837, por lei — porém uma lei que ninguém se incomodava em cumprir.

Oras, o Governo que corrija tudo isso que está aí. E não venha querer que EU me DESLOQUE até um posto de saúde, para vacinar a mim e minhas crianças. Faça-me um favor!

Então que a população imputou ao Governo a responsabilidade total por livrá-la da doença, e a culpa pela epidemia.

E o Governo? Abraçou.

Se a responsabilidade é toda minha, e não posso nem devo contar com sua participação, se a culpa será toda minha no fracasso, então eu posso e devo usar de todos os meios para combater a doença

E assim que em junho daquele ano o Governo enviou ao Congresso projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacina contra varíola, que além da imunização das crianças exigia atestado de vacinação para candidatos a cargos públicos, para quem quisesse viajar, casar, matricular-se numa escola . A polícia sanitária recebeu poderes para convidar todos os moradores de uma área de foco a se imunizarem — quem não aceitasse singelo convite era submetido a observação médica em local apropriado, pagando as despesas de estadia.

Não era a primeira vez que o Governo usava da força no campo de saúde: já para o combate da febre amarela os “mata-mosquitos”, como eram conhecidas as equipes encarregadas de exterminar o inseto no Rio de Janeiro, tinham poder de invadir as casas cariocas. O novo projeto foi a gota d’água.

COMO ASSIM não só este Governo inútil não acaba com as doenças que se alastram, mas também me impede de tocar minha vida normalmente se não tomar essa injeção ridícula?

E foi assim que se deu a Revolta da Vacina.

O governo voltou atrás, retirou a obrigatoriedade da vacina. A vitória popular levou ao aumento progressivo dos casos de varíola, e o Brasil ostenta o título nada honroso de ser o último país das Américas a ter erradicado a doença.

Recapitulada a História, Voltemos ao Presente

Há cerca de um ano, o Brasil registrava os primeiros casos de febre Zika. A princípio achou-se ser apenas outro tipo de dengue. Exames de sangue mostraram ser outro vírus, que recebeu seu nome por ter sido identificado pela primeira vez em macacos na floresta Zika, em Uganda.

Não só os sintomas são similares aos da dengue: o zika também se aproveita do mesmo agente transmissor, o mosquito. Aquele já conhecido Aedes Aegypti.

Aedes que começou a ficar famoso no Brasil lá pelos anos 80, quando a dengue “chegou” — muito embora se acredite que os primeiros surtos tenham ocorrido já no século XIX, só em 1981 houve casos com comprovação laboratorial. Mosquito que se beneficiou de um ambiente propício à sua reprodução (saneamento básico precário, áreas com acesso escasso a água encanada, obrigando a população a armazenar ), do abandono das campanhas de erradicação das décadas anteriores, da urbanização acelerada e das falhas de vigilância epidemiológica.

Um Minuto: Eu Mencionei Campanhas de Erradicação?

Sm. Pois é. O Aedes é velho conhecido do país. Oswaldo Cruz tentou erradicá-lo na década de 20. A Fundação Rockefeller trabalhou também com esse objetivo nas décadas de 40 e 50, sendo o vetor oficialmente declarado erradicado do país em 1958. Como o mesmo não pode ser dito do resto das Américas, em 1967 ele apareceu de novo no Brasil. Novas campanhas, e novamente o país estava livre do mosquito, em 1973. Retornou em 1976, e aí…

O Resto da História Todos Conhecem

Desde 1981 nós nos vemos à volta com epidemias de dengue. Alguns anos mas fortes, outros mais fracas. Na verdade nem mesmo podemos dizer que alguns anos as epidemias foram mais brandas — porque basicamente os dados oficiais não são confiáveis. Mas um fato todos sabemos: o mosquito nunca mais deixou o país.

E nós? Nós nos acostumamos com a dengue, com o aedes. Deixamos de nos preocupar com ele, e se nós não nos preocupamos, porque o Governo iria? Os sucessivos cortes dos Governos ao longo dos anos 90–00 nas campanhas de erradicação não nos importavam. O saneamento básico que segue precário nas áreas pobres seguiu não nos importando. E a falta de investimento dos estados em infra-estrutura para abastecimento de água para a população nunca foi motivo para que perdêssemos o sono.

A crise da água chegou, e com ela mais pessoas se vendo obrigadas a armazenar água em reservatórios improvisados. Um aviso claro do que viria em seguida: em 2015 batemos o recorde de casos de dengue no país, com mais de 1.6 milhões registrados.

Mas Agora é Zica!

Agora não é de dengue que estamos falando. Agora estamos falando de zica. Que não causa só uma febrinha e um mal-estar. O vírus pode estar ligado ao alarmante aumento de casos de bebês com microcefalia.

Zica não é dengue. Zica é coisa séria.

Não para o PT. Que resolveu fazer piada com o assunto e com arqui-rival, o PSDB, compartilhando uma montagem tosca de mosquitos com as cabeças dos principais expoentes do partido opositor, e a hashtag #ZicaPSDB

E ainda convocava para um twittaço….

O tweet foi recebido como deveria — com repúdio. E em sintonia com a mediocridade do próprio tweet e das ações recentes do partido, a solução que encontraram para corrigir tamanho absurdo foi apagar o post, e bloquear todas as @’s que o criticaram.

A postagem do PT mostra não apenas o nível lamentável do debate político no país. Ela também mostra o descaso, desdém do partido com uma epidemia de proporções ainda não conhecidas.

A reação das pessoas no Twitter trouxe no entanto um resquício de esperança — se os políticos e partidários não entendiam a seriedade do assunto, ao menos a população entendeu.

Balde de Água Fria

Coincidência ou não, o escandaloso tweet foi publicado e quase imediatamente sepultado no mesmo dia em que a presidente faria um pronunciamento sobre o Zica.

Não sobre seu governo, não sobre seu partido, não sobre sua popularidade, não sobre suas medidas impopulares de arrocho econômico.

Sobre o Zica. Sobre saúde pública.

Um assunto que não só interessa a todos, mas cuja solução certamente dependerá do envolvimento de todos. Mas nós já havíamos entendido a seriedade da questão, certo? Quem não entendeu foi o PT, que tentou misturar saúde pública com rixa política.

Errado. Lá estávamos, a presidente falando e nós batendo panela.

Lalalalala não estou te ouvindo

Cá estamos repetindo a história, o episódio da revolta da vacina. Não queremos saber qual o plano do Governo para combate à epidemia, não é responsabilidade nossa. É do Governo, que faça seu papel e extermine a Zica. Nossa participação é irrelevante, a responsabilidade TOTAL é do Governo. Por isso nem sequer precisamos ouvir como o problema será combatido, nem se a solução proposta faz sentido ou se a presidente recitou no ar uma receita de bolo de cenoura.

O Governo que faça sua mágica.

Afinal, é pra isso que eu pago imposto.

Pra Você que Chegou até Aqui

E que já sabe que a responsabilidade é mais nossa que de um grupo pequeno (em comparação com o total da população) sentado em salões com ar condicionado em Brasília. Ou que não concorda mas se dispõe a obter um pouco mais de informação sobre o assunto para debater, vou colocar apenas três links neste texto.

O primeiro, sobre Zica: Mamilos Podcast. Ouça o programa, clique nos links da página. Tem material pra mais de metro.

Os segundo e terceiro, sobre política e cidadania: uma entrevista com Mario Sergio Cortella e uma palestra deste filósofo. Há diversas palestras dele também disponíveis no youtube, além de livros publicados. Leitura recomendada.