Vamos Falar Sobre Intolerância Religiosa

Ou: nem tudo na vida é fobia


A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi, como sempre é, assunto de todos. Para os que entendem que todos somos cidadãos perante o Estado, independente de nossas relações amorosas, por ser uma manifestação social em prol da garantia dos direitos civis da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Para os que acreditam que o Estado e a sociedade tenham o direito (e dever!) de ditar o que é certo e errado nas uniões afetivas, por ser uma marcha que busca o fim da família tradicional.

Sobre essa idéia acerca do fim da família tradicional eu falarei em algum texto no futuro. Aliás é uma idéia bem velha que apenas vem sendo reciclada — basicamente os mesmos conceitos foram usados no passado para pregar contra a união interracial.

Legenda: homem explicando ao filho que seu relacionamento foi acusado de ser contra a natureza e que iria destruir a instituição do Casamento. Mas que ele casou assim mesmo — com uma negra.

Hoje eu quero falar de uma performance que aconteceu na Parada, e que gerou discursos inflamados em todo o país, sob uma suposta intolerância religiosa. A performance foi da atriz Viviani Beleboni. Ela desfilou encenando a imagem de Jesus Crucificado. Acima, a placa BASTA HOMOFOBIA.

É estranho dizer que apenas o fato de haver alguém interpretando Jesus crucificado tenha gerado tanta revolta — afinal de contas, todos os anos se encena a Paixão de Cristo sem que ninguém se sinta ofendido. E se for pelo fato de não ser O Cristo ali representado, mas um paralelo da crucificação para contar uma outra história… então onde estavam estas pessoas que não se indignaram quando Bezerra da Silva fez o mesmo pra promover um disco?

Bem, o fato é que se indignaram, se revoltaram, e decidiram que aquela performance mostra a intolerância religiosa dos participantes da Parada com os cristãos. E deputados da Bancada da Bíblia resolveram que isso tem que acabar, deve haver um basta para toda essa violência. E propõem uma lei que torne a Cristofobia um crime hediondo.

Isso é no mínimo um absurdo.

Então você está dizendo que é a favor da cristofobia?

Não.
Estou dizendo que não existe cristofobia no Brasil. E que não houve ato de intolerância religiosa na Parada LGBT. E nem mesmo na Marcha das Vadias, onde um casal protagonizou cenas bem chocantes envolvendo um crucifixo, e que foram compartilhadas por muitos alegando que pertenciam à Parada.

No caso da atriz Viviani o que se viu foi uma encenação buscando um paralelo de idéias: Cristo foi crucificado pelo Governo, a pedido da sociedade (que optou por soltar Barrabás), sem ter cometido crime algum, apenas por ousar desafiar o status quo. Morreu inocente. Similar a esta história, inúmeros homossexuais morrem na sociedade atual, sendo seu único crime… desafiar o status quo (no caso aqui, a família tradicional).

Legenda: cartoon — homem lendo jornal, crente ferido por descrentes. Homem morto, descrente ferido por crentes.

No caso da Marcha das Vadias, ao quebrar santos e etc., o que fizeram foi uma crítica religiosa. E a crítica religiosa não é igual a intolerância religiosa, pois não há crimes de ódio a um grupo. Os direitos de criticar dogmas e encaminhamentos de uma religião são assegurados pelas liberdades de opinião e expressão.

Você pode ter se sentido ofendido pela performance da Marcha das Vadias, mas veja: nada ali foi direcionado À SUA PESSOA, ou a qualquer pessoa, ou a um grupo de pessoas. Ninguém foi hostilizado ou agredido. As agressões — se você quiser classificá-las assim — foram a imagens. E as críticas foram a uma instituição.

Mas as pessoas tem que respeitar o credo dos outros!

Claro que têm. Certamente que têm. Mas respeitar o credo não significa seguir o credo — e sim respeitar o direito do outro de segui-lo. Não é, portanto, prestar as mesmas homenagens ou pôr a mesma fé nos elementos do credo alheio.

Se você entende o contrário, e que as imagens e ritos que você considera sacros não devam jamais ser tocados, independente das outras pessoas partilharem sua crença, então deixe-me lembrar-lhe que a vaca é sagrada na Índia, e portanto nós deveríamos banir desde já os churrascos.

Legenda: segundo o hinduísmo, se você tiver muita sorte irá reencarnar em uma vaca. Infelizmente para a vaquinha da tira, ela reencarnou já na fila para o matadouro

Além disso algumas religiões estão em clara rota de colisão: diga, amigo católico, como você irá respeitar os ritos dos Nuwabianos, que acreditam que o Papa e a Rainha da Inglaterra, além de outros membros de governos e religiões diversas, servem ao Mal? Para respeitar o rito nuwabiano você terá que desrespeitar o seu próprio.

Mesmo as religiões com algo mais em comum divergem em seus ritos e suas noções do sagrado. Os santos católicos não são nada para os evangélicos, embora ambas correntes sejam cristãs. Um evangélico tem, portanto, o direito de criticar a veneração de santos pela Igreja Católica — vejam, uma crítica à instituição — e isto não é intolerância religiosa.

Quer dizer então que não existe Cristofobia?

Existe sim, claro que existe. Recentemente o ISIS declarou abertamente sua caça a cristãos. No Sudão pessoas são condenadas à morte se não renunciam à sua fé. No Paquistão uma criança foi presa sob alegação de ter queimado o alcorão e apenas se livrou da pena de morte graças à atenção que o caso teve internacionalmente.

Cristofobia existe no mundo. Só não existe no Brasil.

No Brasil ninguém é perserguido por ser cristão, ninguém deve esconder sua fé, ninguém é morto por ser cristão, nenhum direito é negado por sua fé em Cristo.

Legenda: cartoon — ativista pelos direitos civis LGBT amarrado a uma cruz sendo apedrejado, enquanto um dos algozes clama: pare de se contorcer! Você está oprimindo nossa liberdade de religião!

No entanto nossos políticos querem votar uma lei que proíbe Cristofobia. Os mesmos políticos que são contra uma lei que criminalize a homofobia, esta que existe no Brasil, que mata, que nega direitos a cidadãos, sob a alegação de que não se deve privilegiar uma classe.

Mais interessante ainda é ver a luta contra intolerância religiosa só surja quando se sentem incomodados com uma referência à própria religião.

Onde estavam estes deputados que de repente se levantaram indignados exigindo respeito às religiões quando praticantes de candomblé foram expulsos de seus terreiros e de suas casas por traficantes evangélicos? Quando uma menina de 11 anos foi atingida por uma pedra ao sair de seu culto?

Onde esteve a sociedade indignada quando um sargento apontou uma arma para um soldado para desafiar seu corpo fechado? E quando outros foram impedidos de realizar seu culto para se despedir de um familiar?

Vamos falar honestamente?

Intolerância religiosa existe no Brasil. Porém atinge principalmente as religiões de matriz africana — é derivada do racismo que existe no país e que desde a época colonial estigmatizou estas religiões como cultos incivilizados, feitiçaria e adoração de demônios. Estigmatização esta tão arraigada que levou inclusive um juiz a dizer que manifestações religiosas afro-brasileiros não se constituem religião.

Intolerância religiosa não se limita a agressão física

Religiões não-cristãs enfrentam discriminação no dia-a-dia: dificuldade de acesso a serviços, a prestar assistência espiritual em hospitais e prisões, invasão de locais de cultos, etc. E a própria intolerância trabalha em prol de se manter: não raro ao tentar registrar queixas contra tais crimes, as pessoas afetadas são desencorajadas pelas autoridades sob justificativa de não ser nada demais.

O Brasil é um país laico!

Ou pelo menos deveria ser! Isto significa que governo e religião são temas totalmente separados e portanto nenhum órgão governamental deveria privilegiar uma religião.

O simples ato de realizar um culto evangélico na Câmara dos Deputados é um atentado a esta laicidade. Segundo a Constituição:

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I — estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

II — recusar fé aos documentos públicos;

III — criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

Legenda: cartoon — O Estado Laico do Senhor Jesus, um pastor bradando com sua bíblia de pé sobre uma cruz gigantesca, da qual fluem votos para uma urna

O Brasil é um país intolerante

Mas não deveria ser. A cultura do país foi forjada na miscigenação e isto por si só deveria ser o bastante para ensinar-nos a respeitar a individualidade de cada um, seu direito de acreditar em uma divindade, ou várias, ou nenhuma. E se você luta pela proteção da sua religião apenas, então você está contribuindo para esta realidade de intolerância.

Legenda: cartoon — homem bate com uma cruz seguidas vezes na cabeça de outro em cuja camiseta se lê ateu, chamando-o de escória da Terra. Cansado de apanhar, o ateu agarra a cruz e ameaça parti-la, ao que o agressor tenta impedir pedindo um pouco de RESPEITO

Críticas a Instituições São Saudáveis

Como já dito acima, crítica a uma instituição não é intolerância religiosa. A liberdade de opinião e expressão nos assegura os direitos de questionar dogmas e encaminhamentos de uma religião, contanto que estas críticas sejam feitas sem direcionar desrespeito ou ódio ao grupo religioso.

Mais que direito, a crítica a instituições é saudável. A grande influência que religiões exercem na vida político-social brasileira torna tais críticas ferramentas essenciais ao debate democrático.

Deixemos para Listar como Crimes Hediondos Apenas os Hediondos

Como já dito, você tem o direito de se sentir ofendido pelas performances citadas acima, mas você as classificaria como crimes hediondos? Colocaria no mesmo nível de crime um show de Heavy Metal em que a banda cuspisse num crucifixo, assassinatos cometidos por um grupo de extermínio, e estupros?

E se você ainda acredita que as performances acima devam ser classificadas como crime, entenda que isto deve então se extender para todas as críticas a qualquer religião, ou ausência desta. E isto inclui desde ateísmo ao pastafarianismo, passando pelo jediísmo e a adoração ao demônio — para manter a laicicidade do país.

Legenda: cartoon — um OVNI observa de longe a Terra explodir em conflitos. Um dos ETs comenta: pelo que eu estou vendo, estão lutando para definir qual religião é a mais pacífica!
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