VIAGENS

Eu não acredito que levei tanto tempo pra sacar, mãe. Que tonta eu sou: você ficou em Londres, não voltou da última vez!

Lembro que foi um pouco antes da Copa começar. Você aproveitou o contrafluxo e foi bater perna lá pros lados do seu amor caçula.

Eu sempre ficava com um pouquinho (juro, pouquinho mesmo) de ciúme quando você ia. Da última vez, foi um pouquinho mais. É que sua repentina empolgação contrastava com a minha preocupação. Que boba, eu.

E lembrar dessa mesma empolgação da partida, tão diferente da sua evidente ausência na chegada (que nunca mais acabou), foi o que me deu a letra: você não voltou. Não a sua essência. Essa ficou por lá, encantando o mundo.

Tenho certeza que depois de uma temporada nas terras da rainha você esticou até a Itália e comeu tudo o que tinha vontade sem engordar nenhuma grama, como sempre. Porque “o que engorda é a vontade”, não era assim que você falava, dona Mima?

De lá foi até Portugal. Quem não iria se pudesse voar e observar tanta beleza de cima?

Depois aproveitou para uma passadinha em Paris, não é mesmo, mademoisele? Tanta vitrine bonita, tanta gente elegante. Te vejo olhando um vestido com atenção para depois reproduzir o molde e fazer igualzinho pra mim.

Sei que você está em Torrox agora, mãe. Parece um filme de época, daqueles que você viu com meu pai no cinema. Vejo sua silhueta cheia de curvas desfilando um maiô elegante e uma saia leve, descalça (sempre!) na areia branca. Tem muita gente com você, parece até uma festa. E ouço nitidamente sua risada e sua voz falando espanhol daquele jeito tão charmoso que me deixava boba e orgulhosa.

Você não voltou, mãe. E está só no começo da viagem. Agora eu entendi tudo… e fiquei feliz.

Um dia te encontro nessa aventura, vai ser incrível!

Deixe a Noruega pra ir comigo, tá bom? Quero conhecer os fiordes do seu lado. Prometo, vamos no verão pra você não sentir frio, mamãe.

Te amo.

Pérola