As armadilhas do Ego Espiritualizado

Fonte: https://instagram.com/perolah

A pessoa só veste fibras naturais, não come carne, nem produtos animais, fala baixo e sempre no mesmo tom de voz. Nada afeta seu humor. Não consome de grandes empresas e rejeita “o sistema” como um todo. Para ela, tudo está sempre bem, ela está sempre feliz e pronta para ajudar os outros. Claro, não são todos tão iluminados quanto ela, mas ela entende que estão no caminho (afinal, a elevação espiritual é objetivo de todos, não é?). É benevolente, não fuma, não bebe e suas práticas sexuais são, exclusivamente, transcendentais. É extremamente intuitiva, muito mais que você. O conflito é algo que já deixou para trás, por isso, ela nunca vai discutir com você, que ainda está preso na matrix. Suas vestes, sua aparência e sua casa gritam “apropriação cultural”, carregadas de símbolos de outras culturas e filosofias, sobre as quais se lê um artigo de blog e se considera um especialista.

Prazer, eu sou o Ego Espiritualizado.

O Ego Espiritualizado é uma das maiores bizarrices do mundo espiritual. É um personagem espiritual, com fortes características tribais (sua aparência, sua personalidade e seus hábitos se conformam integralmente às expectativas de seu círculo social — sua “tribo”). Ao se esconder neste personagem espiritual, o Ego Espiritualizado interrompe o “perigoso” processo de autoconhecimento. Afinal, se você aprende que você NÃO é seu corpo, nem seus pensamentos, nem suas emoções, nem muito menos as representações terrenas, seu ego se ferrou. Vai ter que voltar pro seu lugar e parar de dar as ordens.

Não que seu ego seja um vilão. É ele quem te mantém vivo! A questão é que ele está fora de seu papel. Você deu muito poder a ele e ele não sabe o que fazer com isso. Por isso, se torna um pequeno tirano, expert na arte da manipulação e negação. Ele usa sua própria vaidade para te convencer que, pronto, você já é iluminado. Já chegou à linha final, agora não precisa perguntar mais nada daqueles traumas de criança, que você vinha chegando cada vez mais perto. Não precisa jogar luz em nenhuma das sujeiras no “quartinho da bagunça” que o ego deixou em seu inconsciente. Afinal, você já é iluminado!

Olhe as suas roupas, são totalmente sustentáveis—não, péra, não abre essa porta aí, não!

…ih, ferrou. Você encontrou todas as sombras que o Ego Espiritualizado estava escondendo.

Que ótimo! Agora, sim, iniciamos o processo.

O autoconhecimento–a espiritualização–é desconfortável por natureza em seu primeiro estágio. Até hoje não conheci ninguém que tenha passado pelo estágio inicial de morte do ego dando risada e agradecendo a deus pelo aprendizado. Isso nós aprendemos depois. Depois dessa fase, é mesmo uma delícia. O bem-estar vem, nos sentimos fortes o suficiente para entrar no lodo do nosso inconsciente e começar a faxina, nos tornamos gratos por cada idiota que cruza nosso caminho, porque, sim, é ele quem nos mostra o que ainda precisa ser curado. Mas isso é depois.

Se você busca esse bem-estar, sem estar disposto a passar por suas sombras, a espiritualidade será sempre uma mentira para você; um escape, uma negação, apenas mais uma amarra terrena. E, acredite, isso vai te causar muito mais dor do que confrontar as sombras. Coragem e persistência são as duas únicas características que você precisa para iniciar o processo. O resto é distração do ego. ∎

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