Mercado de trabalho: as mulheres estão onde deveriam estar?

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Assim como em outras áreas da vida, a igualdade de gênero no mercado de trabalho está longe de ser alcançada

Durante muito tempo Joinville representou uma oportunidade de entrada no mercado de trabalho para milhares de pessoas. É comum que a história de vida dos jovens joinvilenses inicie com “meu pai veio para Joinville em busca de um emprego”, mas poucos utilizam a mesma fala referindo-se às mulheres.

Muito antes da existência dos jovens de hoje, as terras joinvilenses foram ocupadas por imigrantes europeus, sobretudo alemães, que mesmo morando em outro continente, mantinham contato com os parentes e amigos das terras de origem. Segundo a socióloga Valdete Daufemback, estes imigrantes traziam da Alemanha os produtos industrializados de lá e logo iniciaram um processo de industrialização por aqui também.

“Desde os primeiros imigrantes, o ensino escolar era diferenciado para meninos e para meninas. Os meninos estudavam dois anos além do tradicional primário, no qual meninas e meninos estudavam 4 anos”, conta Valdete, isso se dava porque naquela época, acreditava-se que os meninos deveriam ser os únicos provedores da casa e por isso tinham que estudar dois anos a mais.

“A mulher sempre foi desestimulada ou enclausurada para não prosseguir nos estudos. Ou ainda, o menino estudava em colégio particular para fazer vestibular e a menina ia para colégio público porque se dizia que para cuidar da casa não era preciso muito estudo. Não era um procedimento normativo, mas era cultural. Válido para muitas famílias que conheci. As mulheres tinham menos oportunidades de trabalho”

A industrialização se desenvolveu a partir da década de 60, motivada pelo governo ditatorial. Até a década de 80, Joinville abrigava muitas malharias e eram nelas que a maior parte das mulheres eram absorvidas como mão de obra. “Mas, nas fábricas, mesmo aquelas de trabalhadoras do sexo feminino, geralmente o encarregado era ou é homem”, afirma Valdete.

Onde estão elas no mercado de trabalho hoje?

Segundo dados do IBGE, em 2013, 88.031 pessoas trabalhavam na indústria em Joinville, o maior ramo empregatício da cidade. “Como Joinville é um pólo industrial forte a maioria das vagas continua sendo neste meio, mas aos poucos vem crescendo as contratações no comércio e na área de serviços”, afirma a recrutadora do RH Brasil, Letícia Retzlaff.

Foi justamente por causa das indústrias que as mulheres começaram a fazer parte do mercado de trabalho. Mas mesmo 40 anos depois, o cenário não é muito motivador para elas, “infelizmente ainda não há um equilíbrio entre contratações de homens e mulheres, os homens permanecem sendo contratados em maior número”, lamenta Letícia.

No relatório de sustentabilidade da Embraco, de 2014, consta que 10% dos cargos de vice-presidência, direção e gerência da empresa são compostos por mulheres, elas são 23% em outros cargos de liderança. O mesmo relatório, da empresa WEG, mostra que 5% dos cargos de liderança eram ocupados por mulheres em 2011, depois deste ano, nenhum outro relatório com o dado foi publicado.

De acordo com dados da pesquisa “Women in Business 2015”, promovida pela Grant Thornton, 57% das empresas no Brasil não contam com mulheres em cargos de liderança.

A Tupy tem 8163 funcionários no Brasil, destes 560 são mulheres, a empresa não especifica os cargos que elas ocupam no último relatório publicado em 2015. É o mesmo caso da Tigre, que afirma que 16,62% do seu quadro de funcionários é composto por mulheres, mas não especifica onde elas estão trabalhando. Outras grandes indústrias com presença em Joinville sequer têm relatórios publicados.

Conforme a ONG Global Reporting, os relatórios de sustentabilidade deveriam ser criados e disponibilizados pelas empresas todos os anos a fim de garantir a análise da evolução dela em comparação a si mesma e a outras empresas concorrentes, mas não é o que acontece.

Por que eles e não elas?

Desde muito antes de uma criança nascer já é traçado o seu futuro e definidas as cores de sua vida. Se for menina, será rosa. Se menino, azul. Se menina, será doce e delicada. Se menino, será um garanhão. Se menina, será caprichosa, dona de casa e uma ótima mãe de família. Se menino, será um empreendedor, empresário, dono do seu próprio negócio. Essa visão parece natural, mas é preciso pensar sobre os impactos dela na vida profissional de homens e mulheres.

Historicamente, a mulher sempre foi ligada às áreas humanas: ela podia ser professora ou enfermeira, mas jamais engenheira; já que ela era cuidadosa, delicada e não bruta. De acordo com a mestre em história, Camila Diane Silva, os postos de trabalho e as primeiras profissões assumidas por mulheres eram ligadas a elementos considerados femininos. “Como se a mulher fosse ‘naturalmente’ um ser doméstico, amoroso, cuidadoso e delicado, destinado a certos cargos específicos. Assim, foram se desenhando o quadro de profissões, algumas majoritariamente ocupadas por mulheres e outras por homens”, explica.

A divisão de tarefas também reflete as diferenças estabelecidas entre homens e mulheres. Para Camila, isso mostra as relações de poder existentes.

“A cozinha, na lógica de nossa sociedade, seria um espaço destinado às mulheres. No entanto, na atualidade, é possível notar homens se envolvendo com profissões ligadas a cozinha e recebendo maior destaque e reconhecimento. Uma mulher é uma cozinheira, um homem é um chef. Nesse caso, estamos falando de uma posição de poder, estamos falando de status”

Nos dias atuais as mulheres estão ocupando maiores espaços nas universidades, especializações e consequentemente em diferentes áreas do mercado de trabalho, áreas que antes eram ocupadas apenas por homens. Mas Diane acredita que ainda existe muita resistência e uma grande diferença salarial. “Garantir um limite, seja através do salário menor ou do status diferenciado, faz parte das resistências, de continuar mantendo a supremacia masculina. É necessário desconstruir estas relações de poder presentes em nossa sociedade. Enquanto não desconstruirmos o machismo, estas relações de poder continuarão a existir.”, afirma.

Porém, romper com estas relações de poder é um processo longo e árduo. Camila confessa ser difícil dizer quanto tempo vai demorar para desconstruir esse modelo de sociedade. “No final do século XIX, as sufragistas estavam lutando pelo direito ao voto. Na segunda década do século XXI temos mulheres presentes nas mais diversas áreas do mercado de trabalho, tivemos uma mulher presidenta do Brasil. Mas será que todas as mulheres de nossa sociedade possuem os mesmos acessos e direitos?”, questiona.

No livro O segundo sexo, a escritora Simone de Beauvoir traz uma explicação para as diferenças entre eles e elas no mercado de trabalho:

Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito do que suas concorrentes recém chegadas. Ocupam, na indústria, na política etc, maior número de lugares e os postos mais importantes. Além dos poderes concretos que possuem, revestem-se de um prestígio cuja tradição a educação da criança mantém: o presente envolve o passado e no passado toda a história foi feita pelos homens”
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O que se percebe, de acordo com a doutora em antropologia, Maria Elisa Máximo, é que independentemente das habilidades e conhecimentos que as mulheres oferecem para o mercado de trabalho, elas ainda são excluídas por serem mulheres. Segundo ela, são as próprias empresas que podem mudar esse cenário. “Eu acredito que o grande exercício vem das empresas. Elas podem ter um grande papel na desconstrução dessa cultura machista ao se propor a contrariar esses padrões de contratações e contratar mulheres. Colocar as mulheres. Preferir colocar mulheres em posições de liderança. Na medida em que as empresas aceitarem esse ‘desafio’, elas vão estar contribuindo para que se rompa com essa cultura machista que ainda afasta as mulheres desses lugares”, declara.

Elas na liderança

Nós conversamos com mulheres que ocupam ou já ocuparam cargos de liderança em empresas de Joinville, para elas, apesar do machismo estrutural da sociedade, o mercado de trabalho é um ambiente onde prevalece a capacidade intelectual ou de gestão dos que ocupam estes cargos. Confira:

Mas afinal, qual o perfil desejado pelas empresas?

Com base em uma conversa com a Letícia Retzlaff, recrutadora do RH Brasil em Joinville, criamos um infográfico com os principais critérios que os candidatos e candidatas aos cargos de liderança devem ter na cidade. O resultado é este aqui:

Por Maisa Bilenki

Elas estão em maior número na academia

O Iolaos, grupo de estudos de gênero da Univille, fez um estudo na universidade para mensurar a quantidade de professores e alunos, homens e mulheres, na instituição. O resultado foi que, em janeiro de 2015, a Univille tinha 3715 estudantes homens e 4325 estudantes mulheres, quase 10% a mais de mulheres nas salas de aula da graduação.

Segundo dados do IBGE, em 2010 as mulheres eram maioria nas salas de aula, sendo elas 54% no ensino médio e 57% no ensino superior.

Mas, ao contrário do que o grupo encontrou na graduação, o corpo docente da mesma instituição é em sua maioria masculino, com 338 professores e 272 professoras, 10% a mais de homens nesses cargos.

Como afirmam as autoras do artigo “Vamos falar de gênero? Um estudo sobre as relações de gênero para professores em uma IES”, a diversidade que os escopos dessas graduações possuem pode ser um fator decisivo para o aumento do público feminino discente. Contudo, cursar e concluir faculdades nas áreas gerenciais e administrativas não significa assumir cargos hierárquicos altos e chefias.

Outro indicador desta discrepância são os dados obtidos pela pesquisa “Women in Business 2015”, que divulgou que 57% das empresas no Brasil não contam com mulheres em cargos de liderança.

Universidades de Joinville começam a discutir questões de gênero

Durante todo o ano de 2016, alunos e professores de cursos de diversas áreas do conhecimento da Univille se encontraram para discutir as demandas de gênero nas universidades e no mercado de trabalho. Os encontros, realizados a cada 15 dias, tem o objetivo de iniciar um debate mais amplo, realizar formações e desenvolver pesquisas relacionadas à temática. O nome escolhido para o projeto é Iolaos, em homenagem ao personagem da mitologia grega, Iolaus, que era o melhor amigo de Hércules, mas que pouco se destaca na história. Ao fato da pouco visibilidade de Iolaus na história, alguns atribuem sua homossexualidade, não comprovada, mas motivo da escolha do nome.

O grupo surgiu no início de 2016, logo após uma formação docente que a instituição realiza todos os anos. Segundo a professora Mariana Datria Schulze, a proposta é que no ano que vem ele se torne um projeto de extensão da Univille e sirva como um ponto de acolhimento e encaminhamento para mulheres ou pessoas LGBTs que necessitem de auxílio na cidade e na região.

Quer conhecer mais sobre o projeto? Ouça o Podcast que fizemos com a Mariana.

Outra iniciativa importante na cidade é o Seminário Inventando Gêneros, que aconteceu nos últimos dois anos em uma parceria da Associação Arco Íris com o Bom Jesus/Ielusc.

O Seminário tem o objetivo de criar um espaço de formação e de troca de informações sobre questões de sexualidade, identidade de gênero e cultura LGBT em Joinville. Ele segue um formato já existente em Salvador e em Florianópolis, no Seminário Internacional Desfazendo Gênero; da UFBA e no Seminário Internacional Fazendo Gênero; da UFSC, de maneira mais singela com uma ligação até então inexistente com um movimento social.

A discussão de gênero e a nota técnica do MEC

Em 17 de agosto de 2015, o Ministério da Educação (MEC), lançou uma nota técnica que vai de encontro às demandas expostas pelos movimentos sociais durante a discussão do Plano Nacional de Educação (Lei 13.005 de 25 de junho de 2014) e dos Planos Municipais de cada cidade, período em que plenários de Câmaras de Vereadores foram ocupadas por estes movimentos pedindo a não retiradas das discussões de gênero, sexualidade, entre outras questões das diretrizes para a educação nos municípios — atos aconteceram também em Joinville.

A Nota técnica do MEC encerra com a seguinte orientação:

Depois disso tudo, as perguntas que permanecem são: por que elas ainda estão em menor número? E quanto tempo vai demorar para isso mudar? A Mariana tem um palpite e você, já pensou sobre isso?

Repórteres
Maisa Bilenki
Letícia de Castro