Mudança de vida

Impactos socioeconômicos causados pela construção da usina de Itá
http://www.consorcioita.com.br/paginas/visualizar/municipios/ Mapa mostrando municípios atingidos, o reservatório, volta Uvá e UCA.

HIDRELÉTRICA

Os conflitos entre hidrelétricas e populações ribeirinhas e/ou o meio ambiente não é algo novo. Desde após a segunda Guerra Mundial, quando as primeiras hidrelétricas começaram a serem implantadas, estas disputas existem. Essa matriz energética

é responsável por 90% da energia do Brasil, sendo o terceiro pais com maior potencial hidrelétrico graças a sua enorme área e seus grandes rios. Mesmo tendo todos estes fatores a seu favor, o Brasil ainda importa grande parte da sua energia. Grandes analistas exaltam a desnecessidade de importação de energia já que, como já citado, somos um pais com grande potencial, porém com pouco investimento e grandes barreiras burocráticas, sociais e ambientais. Como tentativa de novamente engrandecer o setor energético no Brasil, este foi privatizado, porém os investimentos continuaram baixos culminando em uma crise energética e um racionamento da energia em 2001.

Por fim, mais recentemente, o governo desenvolveu mais estudos, o que os fez investir na construção de usinas de pequeno porte, que supostamente causam menos impacto ambiental. Segundo dados da ANAEEL de 2003, o Brasil possui cerca de 140 usinas hidrelétricas que 98,40% da energia produzida por este meio. Porém, para que uma hidrelétrica seja construída é necessária a destruição de uma área enorme, e, consequentemente, a expulsão de moradores locais com a promessa de que serão indenizados e continuarão tendo uma vida tranquila.

Entretanto, muita vezes, não é isto o que acontece. Existem centenas de casos onde a população local se recusa a deixar suas casas, pois o lugar possui um valor sentimental para os atingidos. Outros até deixam o local conformados com a indenização que acaba chegando muito tarde, deixando os realocados em uma situação precária.

Parte da hidrelétrica de Itá. Por Aline da Silva Nunes de Lima.

Em Itá, município do oeste catarinense, não foi diferente. Após o anúncio de que a barragem seria efetivamente construída e a cidade seria completamente alagada, diferente dos outros 11 municípios que foram atingidos apenas em algumas partes, o alvoroço foi inevitável. Segundo moradores locais, todos ficaram assustados nos primeiros dias, mas após algum tempo de compreensão e informação de o que aconteceria com eles uma parte dos habitantes se conformou, já que voltar atrás não seria possível. Entretanto, moradores contrários à ideia da barragem se recusavam a sair de suas casas.

RELOCAÇÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Itá ficou completamente de baixo d’água, antes dela submergir, foi feita uma relocação da cidade. Essa foi a primeira ação realizada no território afetado pela construção da Usina. Com a notícia (em 1980) que a antiga cidade de Itá seria alagada, as autoridades locais começaram a ficar preocupadas e pressionaram o Governo Federal para muda-la logo de lugar.

Uma equipe de arquitetos da ELETROSUL, em 1981, começou a realizar pesquisas no antigo território da cidade e, também, no novo, além de envolver a população na relocação. A construção teve início no ano de 1988, mas foi oficialmente inaugurado em dezembro de 1996. Na praça central onde se localiza o marco inaugural, que é composto por elementos simbólicos: a pedra significa Itá em Guarani (idioma dos primeiros habitantes da antiga região), um pergaminho com os nomes dos antigos moradores (de 1983) e duas tiras de canela sassafrás (árvore nativa da região). Foram relocadas aproximadamente 190 pessoas, sendo a sua maior parte residencial, edifícios comerciais, públicos e outros, contando também com mais 140 de famílias pobres que antes não moravam na antiga região. Tudo totalizando 41.000m².

A responsabilidade financeira da realocação foi assumida pela ELETROSUL e no final pela GERASUL, mas tudo com acompanhamento da Administração Municipal e da Comissão de Representantes da População. Para que o realojamento fosse possível, satisfazendo as vontades da população, uma comissão de representantes foi criada. Esta comissão dialogaria com os próprios arquitetos e engenheiros da hidrelétrica a fim de expor as ideias da população e também de deixar o povo a par dos avanços. Contudo, a Comissão de Representantes da população, apenas representava a área urbana da cidade, deixando os agricultores, que viviam mais distantes e que necessitavam diretamente da terra para sobreviver fossem tratados com descaso. Com isso, os moradores da área rural criaram uma própria comissão para representá-los, o CRAB, Comissão Regional dos Atingidos por Barragens, e começaram a interceder contra a construção da hidrelétrica.

Os moradores que faziam parte da Comissão de Representantes da População contam que durante as negociações entre o CRAB e a Eletrosul, os atingidos pela barragem chegaram a fechar estradas que levavam a nova cidade e invadiram reuniões dos representantes de Itá. Após os diálogos e negociações, o processo de realojamento começou. Foi dado um marco zero no centro da antiga cidade, e, a partir dali, em forma circular, cada pessoa seria cadastrada e escolheria o lugar para onde iria se mudar, podendo escolher entre receber o valor de seu terreno e mais 10% do mesmo para construir a própria casa, ou pegar uma casa já pronta.

Das muitas dificuldades enfrentadas neste processo, parte delas é econômica. Alguns entrevistados citaram que a indenização, a sua quantidade e o tempo de recebimento, foi dada aos atingidos com a intenção de compensar a perda de suas posses territoriais. “O prejuízo maior é a destruição da comunidade que não temos mais como refazer”, desabafa Auri Bugs. Outros pontos foram colocados pela aposentada Maria Lurdes, “Ah, pagaram uma miséria!”, reclama Auri Bugs. “Algumas coisinhas foram pagas, como a indenização da área que perdemos, mas só isso”, “O prejuízo maior é a destruição da comunidade que não temos mais como refazer”, declara Dalva, também aposentada, 66 anos. Auri, que hoje faz parte do Movimento dos Atingidos por Barragens, coloca que a indenização foi rápida, dada pelo governo do estado.

Com a inundação da parte baixa da antiga cidade, muitos cidadãos trocaram sua fonte de renda e outros não, como foi o caso de Dalva, Maria Lurdes e Laís que antes obtinham sua subsistência da terra e que agora mudou bastante. “Fui atingido na parte baixa, não mudou a estrutura da propriedade”, coloca o atingido Auri.

Foram realizadas perguntas sobre o prejuízo total (se houve) para esses atingidos pela barragem. Dalva coloca que com a troca de renda aconteceu um declínio econômico nessa nova fonte de renda, mas com uma boa administração conseguiram (ela e o marido), melhorar a condição financeira deles. Já Laís cita o caso da família que possuía um moinho e um comércio, após a relocação e diz “teve uma queda muito grande na questão econômica”. Maria Lurdes não teve prejuízos, muito menos dificuldades com a mudança (no sentido econômico).

Apesar dos prejuízos econômicos, foi ressaltado por todos os moradores entrevistados que a maior perda foi justamente social. Com o realojamento, muitas pessoas decidiram sair de Itá e ir morar em outros lugares, fazendo com que a comunidade se distanciasse. Muitos amigos foram separados. Dalva conta que seu marido teve muitas dificuldades para fazer novas amizades, e cita casos de depressão entre os realocados. Seu Auri vai mais além, contou que um homem chegou a se suicidar por não aguentar o fato de que perderia tudo e teria de começar uma vida nova em outro lugar. Dalva e Auri ressaltam que o contato com os antigos vizinhos diminuiu drasticamente, “de 10, hoje são dois”, diz Auri, se referindo aos antigos colegas. Em contraponto, Maria de Lourdes diz que mantém contato com seus antigos amigos, que de vez em quando até jantam juntos, fazem uma espécie de confraternização. Laís, uma moradora mais nova, que tinha quatro anos na época da construção da barragem, diz que seu ciclo social se resumiu a nada.

Dalva, atingida por barragem. Por Aline da Silva Nunes de Lima

Hoje, os moradores de Aratiba, Itá e região lidam com as mudanças, uns com mais facilidade que outros, mas todos com suas perdas e ganhos, uns longe do lugar em que viviam, outros no mesmo e outros próximos.

Por:
Ailton Manoel Pereira Jr.
Aline da Silva Nunes de Lima
A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.