A PESQUISA COMO AFETO

Sempre fui um observador nato. Na infância, fui o tipo de criança introspectiva, desconfiada, que mais ouvia do que falava. Mais tarde desenconchei, nutri relativa cara-de-pau e senso sociável. No entanto, aquela solidão investigativa continuou fazendo parte de mim. Gosto ainda de frequentar lugares sozinho e de me sentir fantasiosamente encapsulado, invisível e observador.

Hoje, depois de desencontros, tentativas e valiosas experiências profissionais; me deparo novamente com aquele olhar curioso. Com alegria e desenchavida obviedade, me digo — mais, me encontro — um pesquisador. Quis dedicar esse texto inaugural a falar de pesquisa e — com uma licença poética pessoalíssima — para além disso, de onde ela brota em mim.

Acho curioso notar como a pesquisa nasce na mais ambígua metalinguagem. É a ciência do saber: o saber do saber. Guarda em si o senso da curiosidade e exige o olhar da descoberta, o exercício da ingenuidade e, sobretudo, a abertura incondicional para o outro. Pesquisar, no fundo, é saber que não se sabe e precisar dramaticamente se conectar para descobrir.

Nesse sentido, penso, sinceramente, a pesquisa como um trabalho artesanal. Carece delicadeza e cuidado. Pesquisa, na sua essência mais profunda, humana e possível reflete a capacidade de exercitar a faculdade de compreender emocionalmente. É criar um atalho para o outro.

No entanto, minha experiência mostra que essa conexão é árdua. É preciso um contrato verbal, corpóreo, espacial, contextual e sobretudo emocional para que o outro se torne verdadeiramente alcançável em alguma medida. Fazer uma pesquisa é construir uma relação profunda que vai se desintegrar em pouco tempo. É fazer com que o outro se abra para que você o decifre por alguns instantes.

E tão feliz é quando você toca o outro, quando essa ponte se estabelece. E cada um é um universo tão imenso, tão vasto. Me trabalho cotidianamente para fugir da automação e me permitir estar à mercê das rotas sinuosas das pessoas, com suas revelações, confissões, contradições, sub-textos e silêncios.

Guardo uma imagem simbólica da pesquisa na minha cabeça: sempre a penso como um abraço. Às vezes não funciona, se desencontra, padece de frieza. Mas também pode ser pleno, cúmplice e revelador. Inevitavelmente, depende de entrega. Abraço só se recolhe quando se doa — acho um erro tremendo pensar na pesquisa como mera recolha. Tem muita doação.

Pesquisa que funciona, pra mim, nasce do afeto. Hoje, me sinto feliz de ter braços largos e de poder recuperar meu olho de menino para fazê-lo ofício. Esse é o espírito da Pesquiseria. Bem-vindo.

Tiago Faria, sócio-fundador da Pesquiseria