Por um Mundo com mais Marco(s) Júnior(s)

Ou como fui surpreendido pela bondade alheia

Sexta-feira, perto da meia noite, sob uma forte chuva que alagava boa parte das ruas da cidade. Você está com sua namorada no carro, voltando de algum lugar e muito provavelmente louco para chegar em casa por ser tarde da noite, do último dia da semana quando o cansaço da semana inteira se apresenta de maneira mais acentuada. Se você passasse por um carro com problemas, que apesar de estar com os faróis ligados, em uma subida, e não saísse do lugar em um local bem escuro, o que faria? Passaria direto, e comentaria com sua namorada “que pena, a pessoa nesse carro parece estar com problemas”, e seguiria sua vida normalmente; afinal é tarde, e você quer muito chegar em casa logo. OU, em uma atitude quase heroica, pararia para oferecer ajuda a essa pessoa? Lembrando que você não sabe quem está nesse carro parado; poderia ser alguém que oferecesse risco a sua vida e a da sua namorada. Afinal de contas, cidades grandes são bem violentas, e basta ver qualquer jornal para logo não querer se meter em nada que não seja conhecido.


Uma hora atrás eu era o indivíduo que teve o prazer de estar nessa situação.

Apesar de já estar em casa, ter tomado um banho quente e estar tomando um chá igualmente quente para acompanhar, resolvi escrever ainda hoje o ocorrido para que os elementos não se percam com o tempo em minha memória.

Felizmente eu era a pessoa a qual o carro deu problema em uma péssima hora. Eu era o rapaz sozinho, parado sob forte chuva em uma subida escura, devido aos problemas no carro. Mas então, porque prazer e porque felizmente? Porque eu, mas do que ninguém sempre depositei minha confiança em tecnologia. Sou formado e quase mestrado nessa área. Utilizo a tecnologia diariamente e como uma extensão da minha memória, senso de direção, dentre diversos outros adendos. Acreditava que meu carro, que comprei zero, e que está comigo a pouco mais de um ano, meu companheiro diário de jornadas, deveria aguentar bem uma chuva e passar pelas enxurradas da cidade sem problemas. Ou seja, além de ser um carro relativamente novo, eu confiava que ele aguentaria essas intempéries climáticas, afinal nunca tinha falhado antes comigo. Descobri que as coisas não funcionam bem assim, e que podem falhar.

Ao passar em uma quantidade considerável de água, na subida, esse carro resolveu que era uma ótima hora para engasgar, e ameaçar desligar, soltando uma fumaça, que na hora, não teve nada de engraçada. Até que desligou por completo. Tentei religar uma vez. Duas vezes. Na terceira vez, ligou mas andou um metro e desligou novamente (ainda estava eu na subida). Tentei ligar pela quarta vez e desisti. A essa hora, o nervosismo já havia tomado conta de mim, e pensei

“pois bem, vamos tirar a prova se minha seguradora funciona bem”.

Peguei o celular, selecionei o número da minha namorada para avisar que não tinha chegado em casa, mas estava vivo, e nada de tão grave tinha acontecido; depois de avisá-la, iria chamar o seguro do carro. Porem, antes mesmo que eu confirmasse a ligação para minha namorada, eis que me surge uma rapaz do nada, que para o carro do meu lado e pergunta “está tudo bem? você parece estar com problemas”. Do lado dele tinha uma moça, mas mal enxerguei o rosto dela. Eu respondi “cara, acho que meu carro morreu, não consigo ligar ele de jeito nenhum”. O rapaz desconhecido então, rapidamente, desce do carro e vem em minha direção (lembre-se, está escuro, chovendo muito, em lugar nada agradável de se parar, de modo que a própria atitude dele de descer do carro já o deixaria ensopado pela chuva e eu no mínimo temeroso).

Como se me conhecesse a anos, o rapaz largou a namorada dele no carro, e não se preocupando em ficar ensopado, veio me auxiliar. Pediu para abrir o capô do carro para ele dar uma olhada. Abri, e fomos ver o que havia acontecido. Ele pegou o próprio celular para usar como lanterna (que obviamente estava molhando na chuva). Deu uma olhada, e em uma atitude cada vez mais admirável, me acalmou dizendo “cara, as vezes molha a entrada de ar do carro, e ele dá essas engasgadas mesmo. Tive um gol que sempre que molhava muito eu tinha problemas. Essa fumaceira por ter molhado também. Tenta ligar aí, vamos ver, tá com cara de que é só isso mesmo”.

Tentei ligar novamente o carro; e o carro ligou normalmente. Acelerei, e aparentemente ele respondia aos meus comandos novamente. Agradeci, mais de uma vez ao até então desconhecido. Perguntei o nome dele, e ele me disse “Marco Junior”. Lhe disse meu nome. Ele voltou ao carro dele, e ainda fez questão de me observar para se certificar que meu carro andaria bem.

Como se não bastasse ter se molhado todo olhando um carro de uma pessoa que ele nunca viu na vida, ainda me disse “quer que eu te acompanhe até chegar em casa? está indo para onde?”. Respondi o nome do bairro que moro, e ele me disse o bairro que ele morava. Coincidentemente, bairros vizinhos. Eu estava no bairro que ele morava, que é vizinho ao meu, perto da minha casa. Como percebi que meu carro já respondia bem os comandos, e chegaria até em casa, o agradeci novamente e disse que não precisava me acompanhar. Confirmei o nome dele; ele confirmou o meu, e fomos embora, cada um para o seu rumo. Infelizmente não peguei contato de telefone, facebook, whatsapp. Como foi tudo tão rápido, e na euforia sem nem ter processado tudo que teria acontecido naquele curto espaço de tempo, nem pensei nisso.

Acredite, esse rapaz era uma pessoa real, por mais inacreditável que isso possa parecer. Por mais que eu acredite na bondade das pessoas, e goste muito de ajudar a todos, tenho dúvidas se eu mesmo pararia para auxiliar alguém naquelas condições. Felizmente eu tive o prazer de conhecer alguém fora do comum. Aquele rapaz parou para me ajudar em uma situação que dificilmente a maioria das pessoas pararia. Sem ter obrigação nenhuma; sem ganhar nada; sem mesmo pensar de forma egoísta nas adversidades do momento. Simplesmente se colocando a disposição para fazer o bem.

E assim eu justifico o prazer e o felizmente na frase anterior. Pois foi assim, que eu pude perceber que em determinadas situações, nem sempre a lógica é aplicável. Que o inesperado pode acontecer (e muitas das vezes acontece, mesmo quando nos apoiamos em algo que temos por confiável). E que o criador nos coloca em situações, no mínimo inesperadas para experienciar um cuidado bem distante da lógica humana.

Apesar do pequeno susto, fui surpreendido por uma pessoa incrível, que fez toda a diferença. E apesar de não saber se algum dia irei rever esse rapaz, gostaria de agradecê-lo novamente, e dizer que, sou imensamente grato a esse Marco Junior. Certamente nosso mundo precisa de mais pessoas como ele.

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