Vem pro Brasil, aqui TUDO pode

Uma reflexão sobre direitos, limites e a falta de senso alheio

Moro em um condomínio vertical em um bairro tradicional de uma capital. Em frente ao prédio que moro existe um bar que inicia a perturbação sonora as 18:00 e só nos devolve a paz por volta das 02:00 da manhã. De segunda à segunda a perturbação é garantida. Tão certo quanto o sol que nascerá no leste, o bendito do bar está “firme e forte”, diariamente.

Dormir direito? Em silêncio? É um privilégio. Imagine o pesadelo para quem tem crianças ou idosos em casa?

Frente a isso, a minha principal pergunta é:

o que existe na cabeça de um ser humano que o faz acreditar possuir o direito de retirar a paz de centenas de pessoas? Quem lhe confere esse direito?

Reclamar com a Agência Municipal do Meio Ambiente — AMMA (responsável por denúncias de poluição sonora e incômodos desse tipo)?

Não serviu para quase nada.

Realizei inúmeras ligações, em diferentes dias e horários. Uma vez somente atenderam. Porém, nada fizeram.

Policia militar? Sinto vergonha de dizer que precisei recorrer a isso. Após pacientemente suportar 4 meses de incômodo diário, precisei gastar tempo de atendimento de um policial que certamente poderia estar atendendo algo muito mais importante do que uma reclamação de perturbação sonora.

Certamente existem urgências muito maiores do que um bar infernizando a vida dos vizinhos. Mas, eu já estava cansado, e precisava recorrer a alguma outra autoridade, já que a AMMA nada fazia.

Também nada puderam fazer além de me informar que:

“eu deveria abrir um processo com testemunhas contra o dono do bar, no qual estaríamos todos em uma mesma sala para discutir o caso”.

E que:

“a polícia só vai ao local quando tem vítimas”.

Achei a sugestão do policial fantástica!

Como não é uma ideia genial?! Imaginem, eu adoraria ficar frente a frente com uma pessoa sem noção alguma de limites e educação para que ela possa decorar a minha cara e fazer algum mal em retaliação a denúncia. Faz todo sentido! como não pensei nisso antes?! Após desligar o telefonema com a polícia, tive vontade de ir imediatamente falar com o dono do bar, pedir contato de whatsapp e adicioná-lo no facebook, vai que nos tornamos BFF’s depois do ocorrido? (imaginem todo esse parágrafo escrito no maior tom de sarcasmo que você conhece).

Ou seja, nenhuma solução plausível me foi fornecida, nem pela AMMA nem pela POLÍCIA.

Além da pergunta anterior sobre o que existe na cabeça de um ser humano (dono de bar) para ser capaz de fazer algo assim, cheguei a uma importante conclusão sobre quem lhe confere o direito de incomodar:

A impunidade em nosso país. A certeza de que pode-se fazer o que quiser, e sair ileso.

Tocar músicas todos os dias na altura que quiser, incomodando centenas de pessoas, não tem problema, certo!? afinal no Brasil pode tudo, vem gente, que aqui o carnaval, 7x1 e limitação de dados não tem fim! (ou melhor, a quantidade de dados trafegada tem fim sim hein, e é bem salgado para adquirir franquia extra). Pode-se fazer o que quiser, e viver feliz sem punição alguma.

Vergonha é o que eu sinto.

Principalmente quando penso nas inúmeras noites sem dormir por conta de um ser sem limites. Também pela sensação de que não posso contar com as autoridades que deveriam, de alguma forma, garantir o mínimo necessário para uma razoável vida em sociedade.

Sinto muito quando meu país falha comigo em algo tão básico quanto garantir a paz noturna. E é aí também que sou lembrado, duramente, do quanto estamos aquém do que deveríamos ser como país.

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