E nós? Merecemos o quê?
Nos acostumamos a julgar.
Não importa se, por ventura, sejamos hipócritas.
Com a convicção em cada letra do vazio argumento, julgamos mesmo assim.
E isso é o curioso.
Pois se a professora que defende a ovada merece levar um soco na cara e ficar com o rosto ensanguentado, o deputado que defende tortura merece o quê?
O rapaz que encara, assovia e assombra a menina na rua merece o quê?
O torcedor que xinga até a terceira geração do juiz no jogo merece o quê?
O cidadão politizado e interessado pelo país que não dá a mínima para o genocídio indígena em curso merece o quê?
O “anti-PT” que coloca na entrada de gasolina do seu carro um adesivo com uma foto da ex-presidenta com as pernas abertas merece o quê?
Quem já desejou o sofrimento de alguém.
Quem já ofendeu alguém. Quem quis ferir alguém.
O que merecem?
O racista. O homofóbico. O transfóbico. O gordofóbico.
Sabemos o que merecem?
E se a professora merece apanhar, o que todos nós, juntos, merecemos?
Nós, cidadãos de bem, que não fazemos nada de errado.
Que não desejamos o mal a ninguém.
Que, aqui em nossa insignificância perante a situação surreal em que nosso país se encontra, não falamos besteira, não sugerimos atitudes excessivas, não erramos nunca. O que a gente merece?
Infelizmente, querendo ou não, o que nós merecemos é exatamente o que está acontecendo.
Essa fragmentação.
Esse futuro incerto.
Essa situação deplorável.
Esse
verdadeiro
soco
na cara.
Bem em cheio.
