Mene: O novo humor chegou — e sem ofender ninguém

Uma análise sobre os menes e seus adeptos, observando o “Site dos Menes — O Grupo” no Facebook

Resumo

Rir é o melhor remédio, como diz o ditado — e os médicos. E o Brasil, país de tanta diversidade étnica e cultural, tem um povo que sabe fazer humor como poucos no mundo, ainda mais na internet. Este palco, que abriga uma multiplicidade de meios onde as pessoas podem se comunicar, agrega uma diversidade cada vez maior de maneiras de se produzir conteúdos humorísticos. Acontece que esses materiais nem sempre são motivos de riso para todo mundo. Muitos formatos e ambientes são mais utilizados para a elaboração de piadas que, eventualmente, atingem de maneira ofensiva determinados grupos e segmentos. Além do mais, a questão sobre até onde vai o limite do humor (pergunta clichê que humoristas não aguentam mais ouvir) faz parte deste debate e do cotidiano do país.
Diante disso, este artigo traz uma breve análise sobre os menes, formato de humor que surgiu na internet nos últimos 5 anos e vem criando adeptos a cada dia. Dentre as observações proporcionadas pelo estudo está que o mene, além de não ser a mesma coisa que o meme, deve ser considerado, na verdade, uma evolução desse formato, e que uma de suas características mais intrínsecas é exatamente a ausência de qualquer intenção ofensiva ou depreciativa dentro da mensagem transmitida pelo material.
Após conhecer a Fanpage “Site dos Menes” e se apaixonar por esta arte (apenas nos dois primeiros dias), foi necessária uma etnografia virtual, uma pesquisa com um viés mais pessoal e inserido no dia-a-dia do Site dos Menes — O Grupo, observando e interagindo com os produtores de menes espalhados pelo país para tentar entender como eles utilizam e veem esse novo formato.

E para começar a embarcar no assunto, proponho um passeio rápido pela história recente do humor em nosso país.

O humor no Brasil

Na terra de Chico Anysio, Jô Soares, Renato Aragão e Ronald Golias, o humor é mais do que entretenimento, é ferramenta de crítica social. Conforme os anos passam, as relações entre as pessoas mudaram e os aspectos éticos e morais também. O que era engraçado na década de 80 e 90, hoje, para muita gente, já não é mais. Isso faz com que haja um debate cada vez mais contemporâneo acerca do respeito pelas diferenças, a tolerância com relação aos mais diversos grupos de pessoas e o impacto negativo que determinada mensagem pode causar na sociedade. Esse debate também é presente no humor, ainda mais num momento em que as opiniões políticas estão à flor da pele.

Esse aspecto é comum, de acordo Elias Thomé Saliba, historiador titular da USP. No Brasil, os debates em torno do humor se instalaram, mais comumente, em períodos de crise política e institucional¹. Porém, ideologias a parte, no campo humorístico, em todos os lados do espectro político há quem defenda um humor sem amarras. Prova disso é que Danilo Gentilli, um dos ícones do humor de direita, e Rafinha Bastos, humorista com um posicionamento mais à esquerda (ao menos em comparação com Danilo), frequentemente fazem piadas que atingem e incomodam determinadas parcelas do público. Muitos falam que “é só piada”, ou que “as pessoas se ofendem a toa”, porém, os programas de TV que mais sofrem com processos judiciais por conta de conteúdo ofensivo são os humorísticos, bem como os atores e apresentadores que trabalham com isso. Uma piada mal recebida pelo público foi o que fez Rafinha Bastos sair da Band, em 2011. Entretanto o humorista, ainda hoje, afirma que se diverte com piadas que insultam.

“Quando faço piada de um cadeirante que está na plateia, ele se sente representado, e não tratado como diferente. Se falo do preto e do português, por que não falaria dele?”, disse o humorista em entrevista a Istoé. Para ele, no caso citado, quem se sente incomodado é a patrulha em volta do cadeirante. “O preconceito é desse grupo, que acha que o cara não pode ouvir uma brincadeira”, finaliza.

Essa percepção oferecida pelo humorista faz parte da opinião de muita gente. Inclusive, é uma das justificativas de pessoas que riem e compartilham piadas que usam da imagem de outras pessoas com um tom vexatório. Esse tipo de piada está presente na internet em diversos formatos, seja em vídeos, imagens, áudios e textos compartilhados diariamente nos mais variados ambientes online, principalmente nas mídias sociais.

Quem nunca se deparou com imagens desse tipo num grupo da família que atire a primeira pedra. Esses materiais são amplamente compartilhados, independente da possível conotação ofensiva que carregam. São piadas que, mesmo num ambiente online familiar, fazem as pessoas rirem. E é justificável, já que esse tipo de humor sempre esteve presente na mídia e, consequentemente, no cotidiano do brasileiro, desde os trapalhões na década de 90 até o humor pastelão do Zorra Total consolidado no século XXI.

O mesmo Rafinha Bastos que, como já falado, é conhecido por suas piadas polêmicas, percebe que esse estilo de piada é natural para um país de terceiro mundo como o Brasil. Para ele, o humor de personagem e de imitação tem um público grande e fiel, e as piadas repetitivas e os bordões clássicos desse estilo são usados para que as pessoas saibam a hora de rir².

“Um amigo que trabalhava no “Zorra Total” me contou que a maior crítica que eles recebiam era de que o humor deles era muito sofisticado”, diz o humorista.

Esse humor fácil e popular começou a ganhar muito terreno a partir da democratização proporcionada pela revolução digital, com a facilidade de se produzir e compartilhar conteúdo na internet. A convergência digital não simbolizou apenas a circulação de um grande fluxo de informações em múltiplas mídias, mas uma mudança cultural na qual o usuário dessas novas tecnologias foi estimulado não apenas a usufruir do acesso a um maior número de informações, mas também a trocar ideias, se relacionar, interagir e, consequentemente, produzir e disponibilizar seus próprios conteúdos no ciberespaço³.

Ao mesmo tempo, é possível perceber a normalidade com que certos conteúdos vistos como ofensivos circulam pela rede.

Há um universo cada vez maior de piadas ofensivas na internet — com os mais diversos formatos e linguagens. E não sou eu que estou afirmando que são ofensivas, já que isso é uma concepção que pode ser defendida como algo totalmente subjetivo. As próprias pessoas que criam e compartilham esses conteúdos os classificam como ofensivos. “Piadas ofensivas de gordo”, “Piadas racistas pesadas” e “Piadas racistas de pretos” estão organizadamente classificadas e separadas para melhor apreciação do público.

E esses materiais, como se espera, são disseminados e fazem a alegria de muita gente Brasil afora, mesmo quando se trata de assuntos ainda mais polêmicos e delicados, como o suicídio, por exemplo.

Onde o pesquisador entra na pesquisa

O ponto de convergência onde me insiro nesse assunto é que, há alguns anos, comecei a não achar mais graça em certos tipos de humor. Sempre fui de fazer piada e, normalmente, tento ser uma pessoa engraçada. Me lembro que, nos primórdios da internet, fazia sucesso as animações do Mundo Canibal. Vídeos curtos com histórias de humor non-sense que atingiam milhões de pessoas. Havaiana de pau, Tomelirola e outros clássicos dessa época me faziam rir sem parar.

Meses atrás, me deparei com um desses vídeos no Youtube.
Eu, além de não ter movido nenhum músculo da minha boca para rir, senti uma sensação tão ruim que parei pra pensar: é sério que eu realmente ria disso?

E sim, eu ria. Mas não rio mais.

Até que, em 2015, me deparei com algo que mudaria a minha forma de rir e de fazer humor: eu conheci o Site dos Menes.

Site dos Menes: a página

Atualmente com 470 mil curtidas, a Fanpage “Site dos Menes” existe desde 2012. Começou como um blog, mas foi no Facebook que ganhou o coração de milhares de brasileiros — inclusive Enzos e Valentinas.

Em algum momento que infelizmente não me lembro, vi alguma postagem dessa página e realizei que esse seria meu novo estilo de humor. Sendo assim, comecei a produzir menes e a postá-los em meu Twitter. Os menes que faziam mais sucesso (ou os que eu mais gostava) eu enviava para o inbox da página e torcia para que os administradores postassem — coisa que nunca aconteceu. Porém, não deixei de considerar a página por isso. Pelo contrário, desde o momento em que a conheci até o momento em que estou aqui digitando este texto, ela se consagrou como minha Fanpage favorita.

Após vários meses criando menes e postando em meu Twitter (sempre com poucos likes), vi na área de comentários da página dos Menes um link para participar do Grupo da página.

E foi nesse dia que a minha vida humorística mudou: eu conheci o Grupo do Site dos Menes.

Site dos Menes: o grupo

“Eu não acredito que existem milhares de pessoas iguais a mim”. Isso foi o que eu senti quando entrei nesse grupo. Pensei nisso pois, a cada atualização de página, um mene novo era publicado por algum membro do grupo. Ou seja, o grupo dos menes era o local onde reunia não só quem gostava de mene, mas também criadores de menes.

E foi após passar uma semana nesse grupo que decidi fazer esse estudo. Claro, não seria nada grandioso, mas como apaixonado pela comunicação e pelas interações sociais vi uma oportunidade de unir um hobby a uma análise um pouco mais profunda sobre um fenômeno que nem todo mundo conhecia.

Para entender sobre menes, seus adeptos e vivenciar suas rotinas, me inclui no grupo e utilizei de recursos da etnografia virtual e da observação participante de Malinowski, onde se vive as situações do ambiente para observá-las e relatá-las. Essa atuação também é determinada como “insider”, onde o pesquisador tem ligações próximas com o objeto de estudo e, portanto, seu comportamento e conclusões dificilmente serão o de alguém que apenas observa o grupo⁴.

Muito diferente da fanpage, que publica por volta de 5 postagens por dia, no Grupo dos Menes essa média é absurdamente maior. Utilizando como base o mês de abril, a estimativa foi de mais de 12 mil menes publicados por mês. Sim, doze mil. Uma média de 400 menes publicados por dia. Ou seja, nesse exato momento em que você está lendo este texto existe alguém publicando um mene, ao menos 5 pessoas construindo menes e incontáveis pessoas com ideias menísticas fervilhando na cabeça.

E o que rola por lá é mais ou menos (ou mais ou menes) isso:

A produção extremamente volumosa e acelerada anima os dias de muita gente. O grupo funciona como um grande entretenimento, onde os apreciadores de menes aproveitam de altas doses do produto, enquanto os produtores têm um público sedento por novidades a cada segundo.

Participei do grupo como espectador e como criador. Fui avaliador e fui avaliado. Alguns menes fizeram sucesso, outros foram fracassos, mas isso tudo serviu para que eu, definitivamente, compreendesse e sentisse os menes em sua essência.

Pude perceber que, um dos motivos para meus menes não fazerem tanto sucesso em meu Twitter era porque, além de a qualidade nem sempre ser tão boa, esse formato ainda é muito próprio de um núcleo específico de pessoas. E esse núcleo é o Grupo dos Menes. Isso significa que é preciso estar participando, interagindo e vivendo no grupo para entender os menes, sacar os estilos, captar a linguagem e, aí sim, rir.

E quando falamos de formato, precisamos abordar outro aspecto. Ok, estamos há 40 linhas falando sobre várias coisas, mas… e o meme? Não participa dessa história?

Meme X Mene

Antes de qualquer coisa, é necessário frisar: mene não é meme e meme não é mene. É isso. Não são sinônimos. Cada um no seu lugar — e vamos tentar entendê-los.

Para que o mene seja explicado, é preciso uma compreensão sobre o meme.

Em 1976, o britânico Richard Dawkins, etólogo e biólogo evolutivo, ficou conhecido após a publicação da obra O Gene Egoísta, best seller na época. Nesse estudo, ele defende que toda a vida no universo deve evoluir pela sobrevivência diferencial de entidades autorreplicadoras, sugerindo posteriormente que diversos elementos distintos e não relacionados diretamente à biologia também podem ser definidos como replicadores. A eles, ele chamou de “memes”, rimando “gene” com “creme”, algo que supostamente gruda e cola. Basicamente, assim como os genes, esses replicadores são atitudes e comportamentos que se transmitem e são passados adiante, mas nesse caso, via imitação. Exemplos disso são músicas, ideias, slogans, modas de roupas, modos de construir coisas, e por aí vai⁵. Já quando falamos das práticas comunicacionais na internet, o uso do termo está relacionado a ideias, brincadeiras, jogos, piadas ou comportamentos que se espalham por meio de replicação viral⁶.

Rolando o feed do Facebook é absolutamente normal se deparar com um meme. Ele geralmente é tematizado ou personificado, como por exemplo as páginas de memes Chapolin Sincero e Gina Indelicada. Em contrapartida, o mene é flutuante e não se fixa em um personagem, pelo contrário, qualquer coisa, absolutamente tudo pode servir de objeto de inspiração para um mene.

Hoje, muitos estudos e concepções já existem acerca do meme, além de acervos e museus online exclusivos catalogando e perpetuando esses materiais para a eternidade.

Mas, e o mene? O que se sabe sobre ele?

Conceituando o Mene

Não é fácil falar sobre um fenômeno novo. Apesar de admirar tanto o formato e de mergulhar na comunidade menística, pouco pude encontrar sobre a sua origem, terminologia e conceito. Por outro lado, justamente essa dificuldade em compreender as entranhas conceituais dos menes que me estimulou a estudá-los. E aqui faço uma confissão: uma das coisas que mais me fez procrastinar e atrasar a elaboração desse trabalho foi minha intensa vontade de criar e apreciar menes. Eu ficaria o dia inteiro dentro do grupo, se fosse possível.

Mas fiquei pelo menos 2 meses observando por várias horas ao dia as movimentações e atividades dentro do Site dos Menes — o Grupo. Essa observação participante rendeu entendimentos sobre o termo a partir de um ponto de vista que considerou as versões percebidas pelos membros, compreendendo sobre como essa nova técnica de fazer humor surgiu e se desenvolveu.

Em uma pesquisa no Google, vi que o primeiro registro do termo na internet, ao menos em sites que o Google consegue indexar, foi justamente no Tumblr do Site dos Menes, em outubro de 2012. Posteriormente, por meio do grupo, vi um dos administradores afirmando que a ideia nasceu, na verdade, no Twitter. Ao saber dessa informação, verifiquei que o Google começou a indexar mensagens do Twitter há pouco tempo, o que provavelmente justifica essa origem não ter aparecido na pesquisa inicial. Thiago Schwartz, administrador do grupo e um dos fundadores do Site dos Menes, pontuou que “Pedrão foi quem deu o nome da página criada em 2012 se inspirando numa imagem de um personagem da época chamado Bazimguinho, que escrevia tudo em tiopês”. Esse idioma surgiu no Orkut, popularizou-se no “Alechat” e, daí em diante, ganhou a internet¹¹. Pra falar tiopês é preciso escrever tudo errado. Porém, vai além de simplesmente desrespeitar a gramática: é preciso escrever do modo mais grosseiro, tosco e ininteligível possível! O próprio termo Tiopês vem da palavra “tipo” escrita errada “tiop“. Uma explicação mais detalhada e condizente sobre essa fenêmeno foi descrita por Giovana Penatti neste artigo aqui.

E assim foi. De uma brincadeira entre amigos no Twitter, passando por um blog no tumblr, uma Fanpage de meio milhão de seguidores e um grupo ativo 24 horas por dia no Facebook. Esse foi o trânsito por onde o mene se locomoveu para chegar até aqui. Ainda assim, não recebeu uma definição concreta e que seja fácil de explicar para quem não o conhece. Ou não.

A verdade é que, mesmo sem uma definição clara, quem está no grupo sabe muito bem o que é mene. Em conversa com o mener Lucas Monteiro, membro do grupo e antigo seguidor do Site dos Menes, ele fez um paralelo com os memes para definir os menes. De acordo com ele, os memes “dependem de um grande Zeitgest humorístico, uma coletividade mainstream pra que lhes dê sentido, enquanto os menes são independentes e nem sempre comprometidos com o humor”. Para ele, o mene não precisa se preocupar em ser engraçado, ele simplesmente é. “Memes, por outro lado, sofrem uma pressão enorme pra ter graça”, completa.

Essa correlação com os memes é significativa. É importante que reiteremos a distância de significados entre memes e menes, mas é ainda mais importante, na intenção de compreensão da essência, essa constante comparação de aplicações e objetivos de cada formato.

Se a repetição e a paródia estão inseridas como características primárias do meme⁷, o mene vai exatamente à direção oposta. Ele busca sempre ser genuíno, original, único. O primeiro resquício de cópia, imediatamente o transforma em um meme.

Considerando a origem do termo meme, a partir dos estudos de Dawkings, que se dá por uma analogia com o aspecto da difusão e transmissão replicada dos genes, e aliando isso às pesquisas e à observação participante no grupo dos menes, há a possibilidade de se chegar a uma definição conceitual do termo.

Se os memes são realmente replicadores, a evolução memética deve ocorrer. Mais do que uma evolução, uma mutação, que é um fenômeno que se define por uma alteração em um gene que pode ocorrer de forma espontânea ou induzida por fatores externos.

Neste caso interpreto, portanto, que uma explicação plausível sobre o que é mene é a de que ele é uma mutação do meme, e o termo pode ser explicado pela junção do afixo “me”, de “meme”, e o sufixo “ne”, de “gene”. Ou seja, mene é meme+gene, sendo um meme pelo seu caráter memético e um gene pelo aspecto evolutivo e de mutação genética.

Portanto, em resumo, o meme é reciclável, já o mene é descartável. Um mene, a partir do momento em que é utilizado como interação em outra situação que não àquela original, vira um meme. Aqui neste artigo existem alguns menes que, pelo fato de eu estar utilizando-os aqui, se transformaram em meme. Essa é a dura realidade. Talvez seja triste para os haters mas, em suma, o mene surgiu e evoluiu a partir do meme.

Essa definição do mene pode ser elaborada de maneiras diferentes de acordo com as diferentes perspectivas, o que reafirma a complexidade do assunto. Entretanto, o que não é complexo — ao menos para a comunidade menística — é identificar um mene em meio a diversos formatos de materiais humorísticos na internet.

Identificando um mene

Toda essa definição e significação sobre menes pode ser resumida a partir da sensação que se tem ao observá-lo. Mene é um tipo de humor inofensivo, mas poderoso. Seu poder consiste em fazer as pessoas rirem de coisas bobas, simples e improváveis.

Apesar do seu estilo orgânico, genuíno e da constante incerteza sobre sua natureza, a partir da participação no grupo, observando as publicações, interagindo com elas, lendo os comentários, as réplicas e, principalmente, produzindo e postando materiais próprios, pude elencar algumas características particulares dos menes.

1. Descrição: O primeiro estágio do mene é a introdução à piada. O criador redige uma descrição que pode ser de caráter revelador, entregando a piada no texto, ou pode ser uma descrição preparatória, onde a piada do texto só fará sentido na hora que a imagem for vista.

2. Imagem: Eventualmente sendo apenas uma fotografia, outras vezes com textos e falas sobrepostas — ou até mesmo com uma montagem composta — a imagem do post complementa e revela a piada introduzida pelo texto da descrição.

3. A conexão obrigatória das informações: Cada item relacionado não funciona separadamente. Um precisa do outro para que a mensagem faça sentido. Diferentemente de um meme, onde a piada se resolve em toda a imagem, normalmente o mene precisa de maiores informações — mesmo que sejam sutis — para ser compreendido pelo público.

Meus amigos costumam me chamar de Pet. Um dia, fui na casa de uma amiga comprar umas roupas. Fiquei na frente dos cabides, escolhendo peças, quando minha amiga diz: “Você sabe o que eu estou vendo?”, apontando pra mim. Eu disse que não. Ela falou: “Pet shopping”.

Sim, ela fez um mene ao vivo e em definitivo, amigos.E isso só foi um mene porque ela me mostrou a imagem (eu mesmo) e falou a descrição, “Pet shopping”.

Nesse momento, algumas pessoas perguntam:

_ Vem cá, mas isso não seria um trocadilho?

Bom, pode ser que sim, pode ser que não. Na verdade, o mene pode sim utilizar-se da técnica do trocadilho em sua composição, porém, um trocadilho por si só não necessariamente pode ser definido como mene.

Considerada a segunda arte mais antiga da humanidade, ficando atrás apenas da prostituição, o trocadilho se caracteriza pela utilização de palavras parônimas, ou seja, que possuem sonoridades semelhantes, inseridas em uma mesma frase. E no grupo, parece haver uma divergência a respeito disso. Ao mesmo tempo em que é um artifício bastante utilizado nos menes, nem todos gostam dos trocadilhos.

Visto por muita gente como um dos mais baixos tipos de humor, no sentido de que a graça pode ser forçada ou inexistente, essa técnica também é percebida como uma forma criativa e inusitada de se fazer rir. E dentro do grupo dos menes existem aqueles que não gostam tanto dessa prática. Porém, percebe-se que é uma minoria, já que diversos menes de trocadilhos fazem muito sucesso no grupo. A utilização do trocadilho é apenas uma dentre tantas possibilidades de artifícios para a criação de um bom mene. Listo abaixo só algumas das diversas possibilidades que observei nesse período de grupo.

Tipos de menes

Trocadilho: Nos menes, os trocadilhos são geralmente aplicados no texto descritivo, o que já antecipa a piada antes mesmo da imagem. Uma boa parte dos menes postados no grupo está inserida nesta categoria.

Objetos subjetivos/com sentimentos: Quando um objeto qualquer é interpretado como se fosse um ser humano, ou como se ele interagisse de certa forma com algo, ele pode se transformar num mene.

Universo paralelo: Esse formato de mene tem baixa incidência no grupo, entretanto, os que dão certo são muito apreciados. A inversão de uma situação comum cotidiana para uma hipótese pouco provável é a sacada principal que traz a graça para o mene.

Literais: Obviedades que só são percebidas quando alguém as realiza. Os menes literais costumam ser simples e fáceis de serem produzidos, mas não menos criativos.

Mene da vida real: O estágio onde o mene é verificado pelo mener em uma situação do dia-a-dia. A observação treinada de uma pessoa que passa o dia vendo menes proporciona que os menes sejam diagnosticados em quaisquer eventos e momentos da vida. Sorria, você está sendo menetizado.

O comportamento no grupo dos menes

Para entender razoavelmente as relações e interações do Grupo do Site dos Menes proponho um breve olhar para um fenômeno do passado recente. O meme — sim, voltando a ele — é uma forma narrativa que surgiu nos nichos juvenis da cibercultura por volta dos anos 2000, e tornou-se muito popular nas redes sociais e plataformas online em geral. A partir de 2005, com a proliferação de memes a partir do site 4chan, os memes adquiriram características gráficas precárias e toscas, transmitindo a agilidade das comunicações e disseminando a variedade sem fim de afetos e humores que navegam pelo ciberespaço. Ao contrário dos emoticons ou gifs animados, que também tiveram seus espaços na rede, a interpretação de um meme normalmente exige algumas referências próprias de um universo referencial para que o conteúdo e a mensagem faça sentido¹⁰.

O Site dos Menes, como precursor de um novo formato evolutivo do meme, criou em torno de si um novo público, com visões e sensações diferentes e cada vez mais próprias dessa forma inovadora de se fazer humor. Esse círculo produzido pela página foi fortalecido e adquiriu uma identidade cada vez mais própria a partir da criação do grupo do Site. O fortalecimento de laços que existiam de maneira invisível antes da existência do grupo é o principal fator gerador de espectro cultural dentro dos limites do grupo fechado.

Linguajar próprio, tratamentos específicos, histórias em comum e uma vivência compartilhada por todos. Assim, em pouco tempo, todos àqueles que tinham de maneira íntima uma relação individual com o mene começaram a participar de uma nova comunidade cada vez mais conectada e genuína.

Ao mesmo tempo em que muitas pessoas percebem esse momento e veem o grupo como um espaço diferente e novo, há também uma sensação de pertencimento, onde o mene é defendido como uma forma de criação ímpar, algo por vezes inigualável e que, de maneira alguma, pode ser copiado ou reproduzido fora dos limites do grupo sem acompanhar a referência do autor ou da comunidade.

A sensação de pertencimento acima citada e a valorização de autoria é frequentemente reiterada pelos administradores do grupo. A administração, respeitada pela maioria dos integrantes do grupo, é composta por alguns usuários fundadores do Site e por membros antigos ou bastante atuantes no grupo. O respeito pela administração se dá em virtude de um sentimento de bairrismo e cuidado que os admins preservam — e os membros do grupo embarcam. Comuns casos de páginas e pessoas que replicam conteúdo do grupo sem dar os créditos reforçam esse posicionamento coletivo anti disseminação irresponsável de menes pela internet.

O objetivo nunca é ofender

Como uma comunidade unida em torno de algo em comum, o Grupo dos Menes vem construindo sua conformidade. Pouco a pouco, outros atributos de valores vão sendo adicionados à mistura e gerando uma liga cada vez mais consistente. Como observador, tentei perceber alguma característica presente tanto nos menes produzidos quanto nos aspectos de relação entre participantes. Buscava perceber algo em comum além da piada, das réplicas bem humoradas e das avaliações e sugestões publicadas pelos usuários em cada postagem publicada. O que será que há de diferente, fora da questão de “nível de graça” proporcionado pelo mene?

A intenção da mensagem.
Esse é o grande fator excepcional.

O aprofundamento sobre os memes, além de servir como auxílio na compreensão dos menes, serviu também como objeto de comparação com relação às mensagens que são transmitidas por meio desses formatos. Pois diferentemente do meme, que é produzido à revelia de qualquer pressuposto ético ou moral, o mene carrega essencialmente uma intenção não-ofensiva e estabelecida a partir de alguns atributos que, inseridos em uma comunidade conectada e integrada por objetivos em comum, podem ser definidos como elementos de uma aparente convenção social do grupo.

Dentre esses atributos está um post fixado no grupo pela administração do mesmo. Esse post reitera e demonstra que há um posicionamento premeditado pela própria equipe que administra o grupo sobre algumas regras de conduta.

“Aqui é o lugar onde você e o cara que pensa completamente diferente de você riem das mesmas coisas. Nosso objetivo é que aqui seja como a página: um lugar onde todo mundo ri, e os babacas e chatos psico-dos-textões fiquem de fora. (…) queremos dizer com isso que rir do oprimido não é legal e que aqui não tem lugar pra animal. Sejam legais como se estivessem no jantar da vovó.”

Essa indicação prévia advinda da administração do grupo deixa claro que há uma posição bem definida sobre respeito, debate e atitudes. Levando em conta que os membros do grupo, em geral, respeitam e compreendem as definições dos admins, essa indicação de atuação é transmitida e assimilada pela comunidade.

O admin Thiago Schwartz, já citado neste texto, reforça essa questão. De acordo com ele, na essência o mene não é puro nem malicioso, ele é, na verdade, neutro. “O mene não é necessariamente inocente, mas nunca tem a ofensa como objetivo”, completa.

A ausência de mensagem ofensiva é ainda mais evidente quando se observa em paralelo a outros formatos, principalmente com os citados no decorrer desta análise. E essa quase “aversão” aos memes chulos e ao estilo de humor que ataca, de certa forma, algumas parcelas da sociedade, é também um dos atributos comuns aos membros do grupo. A participante Luiza Santos, que diz que curte o Site dos Menes desde que era tudo mato, vê as coisas também dessa forma. “Eu costumava amar piadas ofensivas independente de quem ofendia, pois achava que se aquilo era piada, beleza. Hoje, tento pensar um pouco como os ofendidos e me compadeço, digamos assim”. Luiza ainda disse que já viu várias pessoas comentando no grupo sobre o fato de o mene ser uma forma de fazer piadas sem precisar ofender outras pessoas. Uma delas é a mener Julia Kruczynski. Ela afirma que o certo seria toda forma de humor manter esse padrão. “Na real, eu acho que todo tipo de humor deveria ser assim. Por isso que eu gosto e sempre gostei de menes, porque ele não precisa usar de humor negro ou algo “politicamente incorreto” pra ser hilário.

Conclusão

O mene veio do meme — e isso é inegável —, mas como uma mutação deste formato já consagrado. Diferencia-se radicalmente em seu caráter menos agressivo e mais humano e genuíno. Isso se deve ao fato de que o mene, em pouco tempo, já vem adquirindo uma unidade muito particular graças a aproximação de seus adeptos (precursores, admiradores e observadores) em sistema de comunidade. Com valores, estilos e objetivos sendo cada vez mais bem delineados, a noção da mensagem sem ofensa se fortalece e ganha traços de características básicas do mene.

Para que todo humor seguisse a intenção da não ofensa, precisaríamos quebrar a barreira (e a quarta parede) da internet e ir para o mundo “real”. Ou seja, será que é possível produzir um mene no universo offline? Pode-se dizer que sim, pois como já foi citado neste artigo, uma pessoa me olhou comprando algo e, após dar sua risadinha de quem teve uma ideia legal, falou “Pet Shopping”. Mene do universo offline. É possível a transposição e adequação para algo além da web. Muitas pessoas, quando estão em algum lugar executando alguma atividade cotidiana, ao olhar para alguma coisa ou situação, num estalo mental pensa num mene. Porém, se o mene pode vingar efetivamente no universo offline já é assunto para um outro artigo. Pois a gente até tenta iniciar um raciocínio razoável sobre isso. 
Depois forçamos.


Referências

¹ Humor brasileiro reflete a nossa falta de identidade, diz historiador
Veja online, 2011.

² “Me divirto com piadas que insultam”. Istoe, 2011.

³ SOARES, Afra de Medeiros. O riso na cibercultura: Processos de construção do Humor brasileiro na internet. Revista Inter-Legere, 2014.

⁴ FRAGOSO, S.; RECUERO, R; AMARAL, A. Métodos de pesquisa para internet. Sulina, 2011.

⁵ BLACKMORE, S. The meme machine. Oxford University Press, 1999.

⁶ FONTANELLA, Fernando. O que vem de baixo nos atinge: intertextualidade, reconhecimento e prazer na cultura digital trash. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2009.

⁷ HORTA, Natália Botelho. O meme como linguagem da internet: uma perspectiva semiótica. 2015. 191 f., il. Dissertação (Mestrado em Comunicação) — Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

LOPES, M. G. C. — Genes e evolução: Mutações gênicas têm papel importante na evolução. UOL Educação, 2008.

⁹ JUNIOR, J. L. F. S. Evoé aldravismo: poesia de Minas. Darandina Revisteletrônica, 2011.

¹⁰ VALE, Simone do; MAIA, Alessandra; ESCALANTE, Pollyana. O meme é a mensagem: uma análise sobre o fenômeno Harlem Shake. Anais VII Simpósio ABCiber, 2013.

¹¹ PENATTI, Giovana. A origem do “Tiopês”. Youpix, 2011.

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