
Coragem e porralouquice
Estamos, as meninas do @PontedeLetras e eu, em contagem regressiva para o VI Congresso da ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores), e tivemos uma reunião aqui em casa esta semana para discutir nossa palestra, ajustar ponteiros, conversar sobre os rumos do blog, enfim, para matar a saudade física que os dias inteiros on-line conseguem de alguma forma atenuar.
Vamos tratar de um tema espinhoso na nossa palestra: a naturalidade na tradução. Algo que é difícil de alcançar, requer tempo, bagagem, enfim, algumas coisas que o tradutor em início de carreira pode ter (por ter a tal bagagem da qual tanto falamos) e o tradutor velho de guerra pode não ter (por ficar muito centrado em um mundo limitado e não expandir horizontes — não é uma crítica, apenas uma coisa que vejo muito entre os tradutores), e vice-versa. E, entre um comentário e outro sobre a questão, surgiu a palavra coragem.
Essa é uma palavra importantíssima para o ofício da tradução. Desde que li o texto em que Waltinho (Benjamin) fez aquela filha-da-putagem com um dos textos mais conhecidos sobre tradução, pondo nele o título mais dúbio da paróquia (Die Aufgabe des Übersetzens), tenho pensado na questão da coragem da tradução. Como muitos teóricos e ensaístas dizem, temos nas mãos uma tarefa que em si contém um elemento de impossibilidade imenso na sua definição mais primária: transformar o texto de um idioma (com sua cultura, peculiaridades, gramática, vocabulário e todos os etc. que você quiser botar aqui) em outro idioma (que tem a mesma quantidade de etcéteras) de forma legível, bonita, bem ajambrada, atraente. Precisa de coragem para insistir nessa coisa estranha que é a tradução.
Depois, além dessa impossibilidade, vem a questão da decisão. A tradução é, por definição, um ofício em que a decisão vem à frente de qualquer outra ação. Precisamos o tempo todo decidir qual a melhor palavra, ou a mais possível, a estrutura correta ou aquela que vai transmitir o estilo do autor, pensar no que o autor quis dizer (mas sempre traduzir o que ele disse), decidir, decidir e mais decidir. Um simulacro da vida em um ofício que também é malvisto por muita gente, incompreendido pela maioria e, infelizmente, degradado por seus próprios praticantes.
E depois vem uma necessidade, mais que uma coragem, que muita gente vai torcer o nariz ao ver aqui: o afastamento que muitas vezes precisamos ganhar do original para conseguir ficar o mais próximo possível dele. Mas, peraí: se você se afastar do original, vai trair o texto do outro, e por isso que os tradutores são tão criticados. Não é?
Não é bem assim. Por isso o título deste texto meio vomitado que escrevo entre um Pomodoro e outro. Uma coisa é você ter coragem de ousar no texto alheio sem perdê-lo de vista, fazer com que soe o mais natural possível em seu idioma um texto escrito numa língua completamente diferente da sua. Ser criativo dentro dos limites do texto é um desafio e tanto, e muita gente esquece que a boa tradução também pode alçar voos que tantas pessoas consideram impossíveis. Outra coisa é a porralouquice.
Para ser feliz com esse afastamento, é necessário muito pé no chão, conhecimento de causa, convicção no que está fazendo, pois no mais — posso ser crucificado por isso, mas vamos lá — o texto é DO OUTRO. Ao mesmo tempo, você recebeu a incumbência de recriá-lo em outro idioma, o que faz dele seu também e, por ser seu texto, você tem prerrogativas sobre ele que nenhuma outra pessoa, além do autor, teria. Mas isso tudo precisa ser muito bem pensado, calculado, não é na porralouquice que se traduz, muito pelo contrário. Temos a obrigação de sermos sérios e fiéis ao texto de partida, mas isso não significa que estamos algemados a ele. Pensem nisso.
E para terminar, deixo vocês com Umberto Eco: ele disse uma coisa, no finzinho do livro "Quase a mesma coisa", que me deixou muito feliz com essa questão da fidelidade, tão difícil e tão discutida até hoje entre os tradutores:
Se consultarem qualquer dicionário, verão que entre os sinônimos de fidelidade não está a palavra exatidão. Lá estão antes lealdade, honestidade, respeito, piedade.